Blog do Eliomar

Nem todos do setor turístico dizem amém ao estaleiro no Titanzinho

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Praia do Titanzinho.

Com o título “Na Contramão do Turismo”, o professor Dardano Nunes de Melo manda artigo para o Blog sobre tema dos mais polêmicos: o local do futuro estaleiro do Ceará. Pelo visto, nem todos da área do turismo aprovam o local. Confira:

Fortaleza vive um dilema; se o estaleiro não for no Titanzinho não será no Ceará, assim afirmou Paulo Haddad, presidente da PJMR. O governador Cid Gomes (PSB) tornou-se um defensor fervoroso do empreendimento. Por outro lado, a prefeita Luizianne Lins questionou a imposição alegando que o plano diretor da cidade, a questão social, esportiva, cultural, paisagística, ambiental e principalmente turística vão de encontro ao projeto.

Certamente que ninguém quer perder R$ 40 bilhões de investimentos da Transpetro para a construção de 26 navios petroleiros, 146 embarcações de apoio e 28 sondas, além de 49 navios que serão encomendados pela Vale do Rio Doce e 53 navios dos Àrabes( onde os estaleiros foram destruídos pela guerra). Esta demanda obrigará a construção de 17 estaleiros no Brasil e um deles em Fortaleza. Será que não importa o custo para a captação deste investimento?

Está bem claro as ideologias administrativas nos dois segmentos – Estado e Município, o primeiro liberalizante (Cid Gomes), bem ao gosto de Adam Smith, e o outro social democrata. Na visão do Estado, a prioridade é por megainvestimentos (concentrador de riqueza) traduzidos no Aquário, Centro de Feiras e agora o estaleiro. O município prioriza os micronegócios na comunidade de forma cooperada e solidária, essencialmente gerador de trabalho e distribuidor de renda.

No liberalismo o mercado sobrepõe as pessoas, ao contrário do socialismo onde as pessoas sobrepõem ao mercado. O primeiro prima em levar propostas (construção individual ou grupal) já acabadas para população, a segunda prioriza a participação como sugestão para as propostas (construção coletiva).

Caberia lembrar o premier James Smith da ilha turística de St. Vicent, no Caribe,  diante de propostas milionárias para a construção de portos e armazéns transmarítimos naquele território, quando ele disse aos investidores: “Desculpem-me se eu não pareço tão ansioso em agarrar estes bilhões, mas eles não compram esta natureza, nem a cultura de meu povo e muito menos a minha consciência. Aqui se vive do turismo e um lugar que não se preserva não merece ser visitado”.

Será que Fortaleza deve ser uma cidade turística ou industrial? Há como compatibilizar as duas atividades? Qual a vocação de Fortaleza?
Orson Wellys, em seu filme “A Dama de Changai”, afirmou que Fortaleza tem o litoral mais lindo do mundo ao lado de Málaga na Espanha. Será que ele teria dito o mesmo se o estaleiro tivesse lá? Ou não está aí a vocação de Fortaleza: o turismo com suas praias preservadas?

No contexto de uma cidade essencialmente turística, na área do Serviluz, os depósitos da Petrobrás e os armazéns deveriam ser retirados e o porto do Mucuripe ser transformado num terminal para cruzeiros marítimos, igual ao de South Lauderdale em Miami. Uma Região temática (tema; descobrimento do Brasil por Vicente Pinzon antes de Cabral ) poderia tomar conta do espaço que também incluiria o Morro de Santa Terezinha, o Mucuripe, Vicente Pinzon e Castelo Encantado.

Será que o turista iria preferir visitar o  Serviluz com um estaleiro ou a área sendo transformada num centro temático? Quem deve responder é o próprio turista. Ele seria a principal peça do xadrez para a formatação de um produto que ele iria comprar. Um destino turístico deve ser construído na perspectiva do turista.

O cidadão do lugar, sujeito e não objeto turístico, também deveria opinar: turismo ou indústria naval no Serviluz? Há que lembrá-lo o risco futuro que correrá quando o mercado encolher e o estaleiro passar a ser um lixo deixado para as populações futuras. Muitos casos ocorreram na Europa (basta lembrar o filme “Segunda-feira ao sol” de Fernando Leon de Aranoa – ganhador do Oscar), onde eles foram retirados e os espaços requalificados até para fins turísticos. Niterói, no Rio, é um caso exemplar onde o maior estaleiro do Brasil foi transformado em entulho de ferro.

As sociedades atingidas pelos desmontes dos estaleiros foram vítimas de uma imensa crise econômica e social. Os tagarelas, defensores do estaleiro, deveriam ver os estudos e pesquisas existentes sobre o assunto, talvez, mudassem de idéia.

Por que o governador, que prioriza o turismo em Fortaleza, não transfere o Aquário da Praia de Iracema, onde o lugar não tem mais capacidade de carga turística, para o Serviluz, em vez de pensar num estaleiro para o bairro? Se Fortaleza optou pelo turismo como função urbana, há que se entender que a matéria-prima do produto turístico é a natureza, o povo e sua cultura, que devem ser trabalhados em seu benefício, jamais em seu malefício.

O estaleiro gera mil e duzentos empregos diretos, mas quantos deles serão das pessoas daquela localidade? Sabe-se da necessidade de especialização do trabalhador que leva anos para se capacitar. E quem está capacitado no Serviluz? Os complexos portuários comprovadamente são  focos de elevada prostituição em toda parte do mundo. Será que o estaleiro não viria agravar a situação, sedimentando a imagem de Fortaleza como um destino de prostiturismo?

Por que os hoteleiros (ABIH) mudaram de idéia tão rapidamente ao ouvir o senhor Antonio Balhman (titular da Adece), no Centro de Convenções no dia 9/2/2010? Elementar meu caro Watson… todos são capitalistas e priorizaram o curto prazo, o que iria entrar no seu bolso de imediato. A inclusão social, a cultura, a preservação ambiental e o turismo sustentável são prioridades últimas diante da ambição imediatista pelo fio metal.

O dinheiro público investido no estaleiro é de todos, mas os grandes beneficiários são poucos, ou seja, aqueles que o projeto interessa.
Muito mais interessante e turisticamente mais aproveitável e barato seria intervenções urbanísticas no Riacho Maceió(Varjota) e riacho Pajeú (Centro), com a desapropriação dos terrenos laterais para construção de comercio 24 hs, centros de entretenimento, construção de passarelas como a das castelianas em Madrid, etc… Assim não haveria esgotos a céu aberto nas áreas turísticas da cidade. A construção do estaleiro será uma disfunção urbana de uma cidade turística.
 
Dárdano Nunes de Melo
Professor do IFCe e diretor do Sindicaturismo.