Blog do Eliomar

Estaleiro – Presidente do PV fala aora sobre a polêmica

Com o título “Estaleiro: Uma questão de visão”, recebemos do presidente do Partido Verde do Ceará, Marcelo Silva, artigo acerca do polêmico empreendimento. Embora com certo atraso, publicamos para fomentar o debate.  

Todo ser humano tem sua visão de mundo fruto de seu modelo mental. Nosso DNA e a cultura que nos abraça consolidam valores, conceitos e premissas, que formam a consciência pela qual percebemos a vida. A partir daí, decidimos e agimos como humanos em qualquer conjuntura.
Júlio Torres (UFC) apresenta três visões de mundo: a mecanicista, que desde o século XVII, é caracterizada pelo racionalismo científico, simbolizada pela máquina; a visão econômica, que começou a se consolidar com o surgimento da tecnologia da informação e com o mercado se agregando à máquina; e, finalmente, a visão complexa, que surgiu a partir dos pensamentos de Albert Einstein, Fritjof Capra e da descoberta do DNA. Nesse sentido, Edgar Morin diz que “é preciso reagrupar os saberes para buscar a compreensão do universo”.
Na contemporaneidade, a visão complexa e a ecologia profunda nos levam à sustentabilidade no seu sentido da preocupação com a vida das futuras gerações. O pensamento complexo deve ser a referência maior para a análise dos grandes projetos que se dizem social e inovadores.

Essa apreciação se aplica à análise da cidade e da compreensão de sua evolução/gestão urbana, desde Ur, a mais antiga das cidades, até o século XX, quando as cidades tiveram grandes transformações.
A partir de 1930 surge o modernismo. Um exemplo, no Brasil, foi a construção de Brasília. Com o avanço da tecnologia e da globalização, grandes obras arquitetônicas visaram a revitalização dos centros antigos e das orlas urbanas de cidades com a implantação de equipamentos culturais e de lazer.

Hoje, uma das principais características das grandes cidades é a desindustrialização. Outra é a horizontalização, que fez surgir as periferias pobres, algumas com monstruosos conjuntos habitacionais, e os condomínios fechados de classe média na fuga da violência urbana. Falta de habitação, transporte precário, trânsito congestionado, violência urbana e o avanço das drogas fazem parte do cotidiano das metrópoles.

Contraditoriamente, as gestões públicas não priorizam o gerenciamento e o planejamento urbano. As cidades são vistas por partes, territorialmente e tematicamente. Sem políticas urbanas de planejamento sistêmico e com planos diretores inoperantes, o resultado são cidades caóticas.

No caso de Fortaleza, ela tem que acompanhar a tendência mundial das cidades avançadas, fortalecendo o turismo e a atividade de entretenimento e abrigando indústrias de crescimento rápido e não poluidoras.

A proposta de implantação de um estaleiro na orla marítima de Fortaleza é conseqüência de uma visão econômica equivocada e já ultrapassada, tanto na forma de condução do processo, como também, na essência da indicação. Ela confronta-se com os valores da contemporaneidade na busca da construção de uma cidade sustentável, inclusiva, humana e que respeite o meio ambiente.

Neste momento, seria recompensador que a Prefeitura, a partir desta polêmica do estaleiro, reconhecesse a falha da ausência de um planejamento urbano à altura de uma metrópole como Fortaleza e ressurgisse o órgão de planejamento urbano – erroneamente extinto – o IPLAM. Ele seria o espaço na estrutura organizacional da gestão para definir uma política de desenvolvimento urbano sustentável para hoje e para o futuro da capital de todos os cearenses.

Marcelo Silva
Arquiteto e Urbanista – Presidente do PV Ceará
marcelosilvams@hotmail.com