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Curso de Medicina com tempo de oito anos só vai encarecer mais ainda os custos

O professor titular de Saúde Pública, Marcelo Gurgel, é contra a ideia do governo federal de ampliar tempo de estudo dos alunos de Medicina. Em artigo no O POVO desta sexta-feira, expõe os porquê dessa posição. Confira:

O governo federal anunciou a ampliação da duração do curso médico no Brasil, que passa de seis para oito anos, com a inclusão de dois anos obrigatórios, cumpridos após o internato, nos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). Por esse modelo, ao término dos seis anos, o concluinte receberia um registro provisório do CRM, para trabalhar no SUS, como bolsista pouco motivado, em regime de dedicação exclusiva, sob supervisão docente da sua escola médica, e somente ganharia o registro definitivo após o biênio de trabalhos forçados. Essa proposição, possivelmente, é de inspiração cubana, a exemplo da ELAM, que concede, em seis anos, o título de generalista básico, de ação restrita, e exige outros dois anos de trabalho tutelados, para qualificar generalistas plenos, ou médicos efetivos.

A intromissão governamental comete um grave equívoco, ao desconsiderar que as escolas médicas realizam suas aulas práticas em unidades de saúde que pertencem ou prestam serviços ao SUS. Isso se aplica à Residência Médica, cuja oferta de vagas está concentrada nas instituições públicas, ou filantrópicas, que têm no SUS o principal cliente. A expansão defendida não leva a um aumento do número de médicos, apenas protela o início da vida profissional e encarece o custo de formação e nem será capaz de converter os formandos em generalistas, restringindo-os no direito de atuar em especialidades, o que é um contrassenso, dada a crescente complexidade de nossas mazelas, no cenário de transição epidemiológica que o Brasil atravessa.

De pronto, essa intervenção poderá provocar um desestímulo nos jovens que desejam cursar medicina, postos diante de um dilema, em que oito anos ensejam um alto custo-oportunidade e uma queda na taxa interna de retorno da profissão. Como a vigência da medida provisória é para os ingressantes em 2015, reflexos na mudança do perfil médico brasileiro, caso venham a ocorrer, serão perceptíveis em dez anos, quando o País terá dirigentes mais diligentes que os atuais.

A proposta em questão parece ser mais uma truculência governamental, à guisa de retaliação, dirigida aos médicos e suas entidades, por se oporem à importação de médicos estrangeiros, sem revalidação dos diplomas.

 

* Marcelo Gurgel Carlos da Silva,

Escritor e professor titular de Saúde Pública.