Blog do Eliomar

Redes sociais – Uma febre passageira?

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Como título “A rede além da varanda…”,  eis artigo do jornalista e sociólogo Demétrio Andrade. Ele aborda redes sociais, queixas sobre alienação, patrulhamentos. Enfim,  uma febre passageira no item reduzir interações. Será? 

Já li diversos textos reclamando do excesso na utilização das chamadas “redes sociais” – facebook, twitter, instagram, youtube, likedin etc. O incremento ocorreu, claro, paralelo à popularização dos chamados smart phones, que levam o acesso à internet aos celulares. Nas mais diversas situações e locais, observarmos pessoas que aparentemente estão reunidas, mas, ao nos aproximarmos, notamos cada uma delas mexendo individualmente no seu aparelho. As queixas têm como alvo o declínio da interação face-a-face, os ruídos ou redução nos diálogos, uma possível alienação advinda desta que parece ser uma vitória do mundo virtual sobre o real.

Acredito que as críticas têm razão de ser. Mas são superficiais. É evidente que o uso de um “brinquedo novo”, da criança ao adulto, gera uma primeira reação de contemplação, fazendo com que percamos um bom tempo com belezas e facilidades oferecidas pelos últimos recursos tecnológicos. E tal novidade imprime a necessidade de reformulação das nossas noções básicas de sociabilidade. Antes, na sala, as pessoas se reuniam em torno do rádio. Depois em frente à TV, seguida do home-theater e outros apetrechos. Assim como as casas foram substituídas por apartamentos – antes amplos e hoje cubículos que nos obrigaram a reordenar hábitos e afazeres.

Acredito que a “febre” atual pelo uso das redes é passageira. Aliás, como toda febre. E o tempo deve construir uma utilização mais racional destes recursos. Mas aposto em outros fatores positivos. O primeiro é a disseminação da leitura. Que fique claro: não falo de alfabetização, pois a maioria dos “posts” têm linguagem atentatória contra o bom português, mas as redes estão obrigando as pessoas a ler para poder participar.

O segundo é o estabelecimento de padrões de relacionamento mais racionais e educados no mundo virtual. Evidente que muitos lembrarão de um sem número de casos de brigas, troca de farpas, ameaças, escândalos. É verdade. Mas as redes sociais nos obrigam a controlar nosso ímpeto. Eles estão nos “educando” à força. O patrão e o empregado pensarão duas vezes antes de se xingarem. O impulso em destratar aquela pessoa desagradável ou o amigo que lhe decepcionou hoje tem de ser refreado. Muitos monitoram o que se diz. Uma frase mal colocada pode custar sua reputação.

Há outro fenômeno interessante: as redes sociais cobram das pessoas que tenham opinião. Claro que o comum hoje é vermos discussões rebaixadas e desqualificadas. As manifestações de junho, que guardaram proximidade com estes veículos, refletiram essa inconsistência. Mas considero positiva a existência do debate. E creio que a tendência natural é que o processo se aperfeiçoe. Opiniões preconceituosas e agressivas sofrem policiamento ideológico e são criticadas, para o bem e para o mal.

Diferente do tradicional hábito cearense de usar as redes (reais) na varanda pra descansar, as redes virtuais nos empurram para novas formas de relacionamento, uma esfera pública mais ampla e mais participante. Isso exige preparo, além de um exercício diário da ética, da política e da cultura. Esperemos que isso ajude a formar, num futuro próximo, cidadãos melhores.

Demétrio Andrade

Jornalista e sociólogo.