Blog do Eliomar

É possível acreditar na humanização do trânsito?

Com o título “O direito à mobilidade urbana”, eis artigo do professor José Borzacchiello, da UFC. Ele volta a tratar do imbróglio do trânsito e insistir no sonho de um dia ver humanização nessa área. Confira:

Já não é tão simples assim ir e voltar. O trânsito de Fortaleza está cada vez pior e violento. Os deslocamentos estão mais demorados e os desejos de ir e vir nem sempre são realizados. Se de automóvel é difícil, imagine para os dependentes dos transportes coletivos. Andar a pé e de bicicleta é uma temeridade. Calçadas mal cuidadas e entulhadas atrapalham a vida dos pedestres.

Nas ciclovias, obstáculos de todo tipo. Vai longe o tempo em que se vencia a fricção das distâncias com caminhadas. O advento da roda revolucionou o sistema de transporte de pessoas e de carga. Carros de boi, carroças, carruagens, automóveis, locomotivas e até embarcações com rodas movidas à água como as utilizadas no rio Mississipi. As cidades viveram muito tempo sem o conhecimento da roda.

Imagens e textos do passado clássico mostram as bigas da Roma antiga. Modernos são os segways utilizados pelos policiais no calçadão da avenida Beira Mar.

Inovações, mudanças, facilidade de crédito e as cidades ficaram entupidas com automóveis que aprisionam os ônibus e nos maltratam. Ônibus em latim significa ‘para todos’. O automóvel, como sabemos, é mais utilizado por um ou dois passageiros, no máximo cinco, com o condutor. Com o aumento da frota de veículos, as cidades, antes aformoseadas, mostram-se amesquinhadas, maltratadas com viadutos e vias muito largas que praticam um canibalismo urbano com a sucessiva redução das calçadas, eliminação de praças, parques e jardins.

Em Fortaleza a situação é mais grave. Nossa cidade ficou apartada, cortada, separada. A ausência de um plano viário plausível resultou que rodovias adentrassem no tecido urbano, inclusive, nas áreas mais densas. Foi assim com a BR 116, que descaracterizou a avenida Aguanambi, impôs uma rotunda cujo jardim só pode ser visitado por uma passarela. O mesmo acontece com as rodovias 020 e 222 que fizeram da avenida Bezerra de Menezes uma simples extensão de vias federais que esbarram com o Mercado São Sebastião, no Centro. A situação se repete com a CE 040, confundida com a avenida Washington Soares. O fato ocorre com outras rodovias. Que falta fazem diferentes anéis viários capazes de frear a invasão de caminhões pela cidade adentro! Que falta fazem alternativas que facilitem a ligação do Porto do Mucuripe com a cidade e com o Porto do Pecém, com o mínimo de interferência no cotidiano urbano!

Diante do caos vivido pela cidade e das promessas de que dias melhores virão, constatam-se sérias limitações ao direito cidadão de mobilidade e acessibilidade. Já é difícil para os que moram nos bairros mais equipados, imagine o cotidiano dos assentados em bairros longínquos ou na periferia metropolitana.

Enquanto não superarem o invento da roda, e diante de tantas promessas, insistiremos acreditando numa possível humanização do trânsito, na sensibilidade dos gestores e, principalmente, na esperança do povo.

José Borzacchiello da Silva

borza@secrel.com.br

Geógrafo e professor da UFC.