Blog do Eliomar

A dança da morte

Em artigo no O POVO deste sábado (4), o médico, antropólogo e professor universitário Antonio Mourão Cavalcante comenta as mortes de jovens para o tráfico de drogas. Confira:

A morte por causa das drogas tem se intensificado. O motivo direto não é o uso ou abuso das drogas, o efeito maléfico sobre os órgãos. Não. A causa é reenviada ao tráfico. Seja a luta por espaço. O domínio do bairro, das bocas, da clientela. Seja a ameaça e eliminação dos supostos usuários devedores. O cliente começa a dívida, essa vai se avolumando ao ponto de receber ameaça de morte. E, mais algum tempo, a eliminação se concretiza.

Está lá mais um corpo estendido no chão. Para prazer dos programas de TV ao vivo e dos membros do Ronda do Quarteirão que chegarão para isolar o “presunto”. O jovem – sim, sempre jovem! – será levado por um rabecão, e, depois, a família pega o defunto e providencia o enterro.

Para a família será uma espécie de alívio mitigado. Ele(a) vinha dando muito trabalho. Fazia algum tempo que sua vida era só a droga. Deixou a escola. Não frequentava mais. Foi tirando os objetos de casa e vendendo. Até o botijão de gás. Tudo. Até no alheio ele foi mexendo. Se envolvendo com “gente ruim” e esta aí o final.

Deus o levou, graças a Deus!

Haja Deus para tanta ignomínia.

Para a comunidade fica o registro: não é bom fazer dívida com “esse povo”. Quem deve, eles vêm e executam. Sem piedade. Sem remorso. Fica mais que um registro. Eles impõem a lição. A regra. A lei.

A sociedade observa tudo isso com total indiferença. Aos que morrem. Aos que matam. Parece ser notícia de um planeta distante. O aparelho público de segurança e a Justiça mostram-se distantes, impotentes. Não sabem ou não querem fazer nada. Frase lapidar: “Eles que se matem”.

Proponho, como humilde cidadão, que o Estado acolha esses jovens ameaçados em um estabelecimento protegido. Nesse local, além de seguro, fortemente protegidos, iniciariam um tratamento formal, com técnicos especializados. E uma reinserção socioprofissional. Por medida de segurança, por exemplo, seria preservado o anonimato.

De forma concreta estaríamos, igualmente, dizendo aos traficantes que o cidadão não pode ser eliminado por decisão deles. Haveria uma postura de questionamento a esse tal poder de vida e de morte deles, junto às comunidades, antes ameaçadas.

Esse ciclo mortal precisa ser quebrado. Cabe ao governante ter essa vontade e determinação.