Blog do Eliomar

Uma ecologia tendo o homem em primeiro lugar

Com o título “O que é ser ecológico?”, eis artigo do jornalista e sociólogo Demétrio Andrade. Ele faz questionamentos acerca da ecologia em seu aspecto ético e nos desafia a pensar a sair do ambiente de conforto de teses já pré-estabelecidas sobre o tema. Confira:

A primeira coisa que quero deixar claro é que este artigo não é explicativo. Trata-se, de fato, de um questionamento feito por mim a todos aqueles que assim se intitulam, ou se sentem pertencentes ao universo dos ambientalistas ou outros adjetivos equivalentes.
Pessoalmente, me considero bem distante destas qualificações. Mas gosto do contato com a natureza, principalmente quando pratico esportes. Corro, pedalo, curto fazer trilhas, canoagem e afins. Nas férias de janeiro, que passo com toda família, geralmente opto por conhecer lugares que nos afastem um pouco do universo corrido das cidades e da dependência obsessiva das redes sociais. A Chapada Diamantina, com sua vegetação densa, além de grutas, morros, cachoeiras e rios foram nosso cenário este ano.

Como em todas as demais viagens para locais do tipo, é comum encontrarmos indivíduos da “tribo verde” em sonora maioria. Teoricamente, cidadãos que se preocupam com a preservação do meio ambiente. Vestes, atitudes, linguajar acabam por identificá-los facilmente. Inegável reconhecer a importância de defender a natureza. Mas certas questões me intrigam.

Acredito, no meu tacanho modo de ver, que o meio ambiente inclui um item fundamental para sua preservação: as pessoas. Caso contrário, se para se defender a natureza os seres humanos têm de ficar em segundo plano, tem-se uma questão de necessidade científica transmutada em libelo ideológico. E aí a coisa se complica, pois neste contexto teremos um discurso que talvez busque legitimar qualquer ação em nome da preservação do meio ambiente.

No paraíso natural da Chapada presenciei cenas comuns aos piores antros urbanos: motoristas que desrespeitavam regras elementares de trânsito – mesmo na minúscula e bela cidade de Lençóis vi carros baterem entre si e em postes –; praticantes de trilhas e escaladas consumidos por uma pressa vã, quase atropelando crianças e idosos; guias repassando informações equivocadas na disputa por clientes; serviços ruins e repetidas cenas de poluição sonora e visual.

O que tento repartir aqui é uma indagação que testemunhei replicada em vários outros santuários ecológicos visitados. E que me trazem a certeza de que não se pode pensar em ecologia sem a discussão de uma ética anterior que abranja a convivência educada, saudável e, principalmente, democrática entre os seres humanos.

De nada adianta reciclar meu lixo, respeitar os animais, deixar o carro em casa, fazer uso racional da água, preservar áreas verdes e mananciais se não respeito o outro. Inclusive aquele que não pensa e age como eu, por opção, limitação ou desconhecimento. A estratégia ecológica – assim como qualquer outra de cunho ideológico – tem de ser a do convencimento, e não da imposição. Acho inclusive que a atitude primeira de preservação deve ser com a nossa própria espécie. E isso envolve carinho, justiça, foco no coletivo, gentileza, solidariedade e generosidade. Sem tais posturas, o resto é, pra usar uma expressão dentro do contexto, conversa pra boi dormir.

* Demétrio Andrade
Jornalista e sociólogo.