Blog do Eliomar

Em meio a tantas violências, que tal falar de… amor?

Com o título “O amor de tantas definições”, eis artigo do jornalista e sociólogo Demétrio Andrade. Em meio a um cenário de tanta violência, incertezas e descrenças, Demétrio nos proporciona hoje uma reflexão sobre o amor. Confira:

Há algumas coisas nesta vida que carregam consigo uma dificuldade inerente em termos de definição. Os alemães estão sempre na ponta do progresso filosófico por desenvolverem expressões idiomáticas que nomeiam o que outras línguas não conseguem. As abstrações também ganham nomes precisos no nosso português. “Saudade”, por exemplo, ganhou fama. Mas mesmo existindo as palavras, fica difícil traduzi-las, explicá-las, torná-las próximas do entendimento do senso comum. Os dicionários se apequenam em verbetes lastimáveis.

Há casos belos e singulares. Como o de Cecília Meireles ao falar de liberdade: “é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. Assim como liberdade, o terreno dos sentimentos é pródigo em apresentar-se como um desafio para as mentes poéticas. Caetano Veloso é mestre em por no papel situações tidas como indizíveis.

Mas com “amor” é diferente. Não é que não se diga ou explique. É justamente o inverso: o amor tem explicações e definições demasiadas. Do simplório “frio na barriga” até a lusitana “dor que desatina sem doer”, o amor passeia entre metáforas, dogmas religiosos, imagens oníricas, filmes pornôs e ideais românticos. O pior: não é só um, mas vários: de mãe, de filho, de amante, de Deus, de amigo, de irmão, de profissão, de time de futebol.

Não dá sequer pra perguntar qual o interesse do amor. Alguns vão reclamar que o “amor verdadeiro” é desinteressado. E se paramos pra pensar o que significa “verdadeiro” aprofundaremos escalas e caminhos desse labirinto. Porque escrever sobre amor é tarefa de extensão indefinida, cegueira sem rumo, poço sem fundo. Não à toa é assunto infindo qual a morte. E não ironizem e me peçam pra dissecar o que seria “morrer de amor”.

Por isso mesmo amor não se ensina. Aprende-se a amar errando, tateando, dando cabeçadas, acertando quando em vez. Erra-se por si mesmo ou pelo outro, nos enganamos ou gozamos e nos alegramos por acaso ou por certeza. Escrevo sobre isso porque hoje meu amor faz anos. Queria deixá-la com algo que lhe apertasse o coração de mulher agora e no futuro.

Queria confessar a ela, em meio a este caldo complexo, que não imagino ainda como fazer para precisar o que o amor de fato representa. Mas que não me enxergo nesta vida sem a presença dela. Sem o seu corpo, seu espírito sorridente e sua palavra. Que, por enquanto, para definir o que é amor, nesta peleja diária entre dois seres, o seu próprio nome me basta.

Demétrio Andrade,
Jornalista e sociólogo.