Blog do Eliomar

A Copa e o debate desqualificado sobre o País

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Com o título “O que a Copa tem a ver com consciência política?”, eis artigo do jornalista e sociólogo Demétrio Andrade. Ele aborda Copa, manifestações e um debate desqualificado sobre os problemas do País. Confira:

Desde o ano passado acompanho com interesse os protestos ocorridos em diversas cidades do Brasil. Os manifestantes usaram a Copa das Confederações para dar visibilidade às suas ações. E querem fazer o mesmo durante a Copa do Mundo. O sucesso destas iniciativas fizeram com que a oposição tirasse a cabeça de dentro d´água e os discursos contrários ao governo do PT ganhassem alguma força. Mais do que isso: é comum observar debates em diversos ambientes sociais vinculando “consciência política” a uma necessária posição contrária à realização da Copa no Brasil. Nada mais falso.

Desde o tempo que o marxismo rasteiro classificava religião como “ópio do povo” não se via um debate tão desqualificado. Tratar futebol como coisa de “gente alienada” é discurso de radical idealista, sem pé na realidade. Uma coisa nada tem a ver com outra. Nem do ponto de vista ideológico – porque sua crença política não aumenta ou diminui porque você torce um determinado time ou gosta de um esporte – e nem no aspecto eleitoral – até porque Copa não ajuda governo nenhum a ganhar ou perder um pleito.

A audiência voltada para o Brasil durante a Copa está estimada em 3,6 bilhões de pessoas. Nenhum investimento publicitário do mundo cobriria uma divulgação tão intensa. Nem todos os gastos com o evento calculados até aqui. Focando somente no turismo, se somente 2% destas pessoas vierem ao Brasil formarão um público de 72 milhões de visitantes. Para se ter uma ideia, isso é 12 vezes mais que a média anual – 6 milhões – de turistas que visitam nosso país. Só durante o evento, o turismo gerará R$ 9,4 bilhões.

A Copa do Mundo é um cartão de visitas que não tem preço. Como se diz no popular, “o risco que corre o pau, corre o machado”. Podemos passar para o mundo uma imagem positiva, ressaltando nossas riquezas naturais, diversidade cultural e a hospitalidade do nosso povo. De outra forma, podemos vender uma impressão de uma ambiência antipática, rancorosa e insegura, decorrente de possíveis manifestações. Repare: elas podem até serem legítimas, mas seriam somente inconvenientes para o atual momento.

Não canso de dizer que problemas sociais e estruturais existem do Brasil independente da Copa. E reivindicar melhorias é tarefa que não precisa de Copa para se concretizar. Mas lançar-se em protestos sem objetivo por puro modismo e para demonstrar lucidez política é patético. Colocar-se contra a Copa, sem reconhecer a importância de um evento disputado a tapa pelos maiores países do mundo demonstra pobreza de espírito e cretinice intelectual. Aliás, como disse um aluno meu, Roberto Félix, se perder Copa fosse sinônimo de desenvolvimento social, o Brasil devia estar bem melhor, pois essa será a 20ª edição e nós só ganhamos cinco.

A Copa é uma vitória brasileira. As obras de mobilidade serão entregues, mesmo depois do evento, mas por causa dele. São R$ 33 bilhões de investimentos em infraestrutura e os gastos com estádios somam cerca de 15% deste valor. O legado também é imaterial: coloca o Brasil noutro patamar, mostrando ao mundo a capacidade de realização do nosso povo. O gigante pode acordar quando quiser. Mas agora, é melhor tirar um cochilo.

* Demétrio Andrade,
Jornalista e sociólogo.