Blog do Eliomar

A arte do encontro, embora haja tanto desencontro

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Da Coluna Política, no O POVO deste sábado (5), pelo jornalista Érico Firmo:

“Nada mais doce, nada mais terno, do que um ex-inimigo”, dizia Nelson Rodrigues. Desse ponto de vista, a eleição no Ceará é um poço de ternura, de um nível de glicose fatal para diabéticos. Os encontros que se processam em nome de interesses ou inimigos em comum é espantoso. Vale lembrar algumas frases das personagens envolvidas, num passado nem pouco distante.

“Vocês (PT) é que não respeitam o povo do Ceará. Não respeitam. O PT não respeitou o povo do Ceará”, Ciro Gomes, ao criticar a escolha de José Airton pelo PT para concorrer a governador, em 2002. Em entrevista aos jornalistas Fábio Campos e Rodrigo de Almeida, publicada pelo O POVO em 20 de outubro de 2002. Ciro ainda acrescentou: “Em três meses, ele (José Airton) iria destruir o Estado do Ceará”.

Passados 12 anos, período no qual esteve junto do PT, Ciro apoia um petista – de outro perfil, é verdade – para suceder seu irmão, Cid Gomes.

Na mesma época, mais duro ainda foi Tasso Jereissati (PSDB) com seu hoje candidato ao Governo do Estado, Eunício Oliveira (PMDB). Em 28 de outubro de 2002, após a confirmação da eleição de Lúcio Alcântara contra José Airton, ele declarou: “Derrotamos o poder econômico corruptor de Eunício de Oliveira (na época deputado federal, que apoiara Airton no segundo turno). Derrotamos o projeto de fascismo do embuste do Moroni Torgan. A coligação mais fajuta que eu já vi na minha vida”.

Hoje, Tasso está ao lado de parte dessa “coligação fajuta”. Embora seja verdade que o DEM de Moroni apoia Eunício, mas o ex-deputado, pessoalmente, está com Cid Gomes (Pros).

Por falar em Tasso e Ciro, há mais aspecto curioso nesta eleição, envolvendo os dois. Em entrevista ao jornalista J. Ciro Saraiva, publicada no livro Depois dos Coronéis, Ciro dá um depoimento sobre seu envolvimento na eleição de 2010. “Eu, por exemplo, não pedi votos a ninguém para o Senado, me mantive calado, mesmo diante das injustiças, por gratidão, por respeito, por carinho”.

Naquela ocasião, Tasso concorria à reeleição pela oposição. E o bloco governista lançou, justamente, Eunício e José Pimentel (PT) para as duas vagas. Os dois acabaram eleitos, com forte engajamento de Cid. Mas, conforme o próprio Ciro afirma, ele não trabalhou pelos candidatos. Lavou as mãos, mais ou menos como o próprio Tasso fez em 2006, em relação a Cid. Apesar disso, Ciro complementa na entrevista: “Mas o interesse público do Ceará foi atendido”, diz, ao se referir à eleição de Pimentel e Eunício – esse último sobre quem diz poucas e boas agora.

Desta vez, o candidato a senador contra Tasso é Mauro Filho (Pros). Deputado estadual ligadíssimo a Ciro, lançado na vida pública por ele, na Prefeitura de Fortaleza e, depois, no Governo do Estado, sempre em funções absolutamente estratégicas. Não dá para imaginar que faça “corpo mole” desta vez. Assim, será o primeiro embate estadual para valer entre Ciro e Tasso.