Blog do Eliomar

Hora de apostar em lideranças para as próximas décadas

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Com o título “Líderes para um mundo novo”, eis artigo do ex-senador e presidente da Transpetro, Sérgio Machado, que pode ser lido no O POVO desta quarta-feira. Ele faz uma reflexão sobre as manifestações populares deste ano e aposta no surgimento de novas lideranças que pensem para as próximas décadas. Confira:

As manifestações que levaram milhões de brasileiros às ruas no ano passado mostraram a desilusão causada pelas deficiências do nosso modelo político. Muito além dessa perspectiva, no entanto, esses movimentos podem ser encarados como parte de um momento de transição que perpassa dezenas de países, caracterizado pela busca de novas ideias e estratégias políticas.

Alguns fatores passaram a ditar e a medir a qualidade e a eficácia das lideranças políticas. Entre eles: tendências demográficas, com a população crescendo mais acentuadamente nos países em desenvolvimento; o deslocamento do eixo do poder mundial, contemplando economias emergentes; e as novas demandas que surgem a partir dessas mudanças – potencializadas pela capacidade de organização e mobilização via redes sociais.

Mudou a geopolítica mundial. Mudou a economia global. O planejamento no uso de recursos energéticos, a revolução tecnológica e midiática e um dramático aumento do consumo de energia, alimentos e insumos nos países emergentes são alguns dos direcionadores a exigir gestão adequada, visão estratégica, que se adapte aos novos desafios. Há ainda a se considerar as transformações que a tecnologia, especialmente a robótica e os softwares, vai provocar no mercado de trabalho, ao substituir a mão de obra tradicional.

Os estudos apontam numa direção. Faliu o modelo de planejar em curto prazo. Projetar ganhos rápidos na economia ou – quando o clamor popular aumenta – usar medidas paliativas para mascarar problemas profundos são práticas rejeitadas pela sociedade. Há uma defasagem entre o tamanho dos desafios e as soluções tradicionais de governança, mesmo nas democracias estáveis. A consequência é o clima de ceticismo, não só em relação aos políticos, mas quanto à eficácia das instituições.

Mas esse quadro pode ser analisado sob ótica diferente. O momento desafiador representa oportunidade para o surgimento de lideranças com visão de futuro, preparadas para lidar com um mundo em acelerada transformação. No Brasil, este é um desafio atraente. Com reservas energéticas de todos os tipos, 15% da água doce do mundo e a caminho de ser um dos maiores produtores de petróleo, estaremos aptos a atender a boa parte da demanda de energia e comida do mundo redesenhado.

Já conquistamos vitórias importantes em áreas nas quais nossos competidores ficaram para trás. Temos recursos naturais estratégicos, democracia plena, programas sociais inclusivos e estabilidade econômica, o que nos confere credibilidade para honrar contratos. É preciso, agora, antecipar o futuro e liderar a mudança, não para os próximos meses, mas para as próximas décadas. O momento não é oportuno para líderes de ocasião, mas para os capazes de pensar à frente do tempo e formular abordagens inovadoras para concretizar as transformações que a sociedade anseia.

Sergio Machado

opiniao@opovo.com.br
Presidente da Transpetro.