Blog do Eliomar

O discurso e a prática

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Da Coluna Política, no O POVO deste sábado (29), pelo jornalista Érico Firmo:

Não é a escolha da equipe de Dilma Rousseff (PT) que contrariou o discurso de campanha. Foi a propaganda durante a eleição que não foi lá muito condizente com os 12 anos de governo petista. E para além da economia. Senão vejamos.

O discurso da campanha de Dilma para abater Marina Silva (PSB/Rede) bombardeou o recuo da candidata em relação ao programa para o segmento homossexual.

Isso apesar de Dilma não ter apresentado programa algum, nessa área ou qualquer outra.

Marina foi também duramente cobrada sobre vários aspectos sociais e comportamentais. A crítica partia do princípio de que é evangélica e tinha apoios influentes desse campo.

Embora uma das mais poderosas, polêmicas e com mais ostensiva atuação política entre as igrejas evangélicas, a Universal, estar com o PT.

Outro aspecto usado contra Marina foi seu vínculo com a herdeira do Banco Itaú. Daí, partiu-se ao questionamento do conjunto da visão econômica. A trajetória do vice de Marina, Beto Albuquerque (PSB), foi usada para apontar o atrelamento com o agronegócio.

Agora, Dilma buscou nos quadros do Bradesco o novo ministro da Fazenda. Diante da primeira negativa, o plano B teve mesma origem. Para a Agricultura, era seguidamente cogitada e desmentida a escolha de Kátia Abreu, principal voz ruralista no Congresso.

As críticas a Marina, sobretudo na economia, foram feitas com ainda mais ênfase no segundo turno contra Aécio Neves (PSDB). Ele era acusado de pretender aumentar os juros. O anúncio antecipado de Armínio Fraga como eventual ministro da Fazenda num governo tucano foi bombardeado em praticamente todos os debates.

Na semana seguinte à eleição, os juros subiram. O novo ministro, Joaquim Levy, integrou o governo Fernando Henrique (PSDB), foi aluno e é amigo de Fraga.

Os atos de Dilma após reeleita não combinam com o discurso de campanha. Mas se surpreende quem não prestou atenção ao que ocorre desde o governo Lula. O discurso já não era muito consonante com a ação de governo. O PT criou, na campanha, a mitologia de um governo diferente do que de fato é.

Levy trabalhou com FHC, mas também foi homem forte da economia na primeira fase do governo Lula. Que, durante oito anos, teve no Banco Central o ex-tucano Henrique Meirelles, egresso do BankBoston. Aliás, havia pressões pelo retorno do próprio Meirelles. Justiça se faça, não há linearidade. Guido Mantega, ao chegar ao Ministério da Fazenda em 2006, representou o fim de uma fase no governo Lula e o início do ciclo mais desenvolvimentista. Mas o aceno ao mercado que Levy representa tem por referência não a era FHC, mas o governo Lula.

Na Agricultura, sempre estiveram ministros alinhados com o agronegócio, vários deles parlamentares ruralistas. Até Reinhold Stephanes (PSD-PR), que foi da Arena e comandou o setor durante o segundo governo Lula.

A bancada evangélica deu sustentação a Lula e Dilma durante os últimos 12 anos. Uma das razões pelas quais a principais bandeiras do movimento de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBT) não avançam no Congresso. As principais conquistas foram obtidas no Supremo Tribunal Federal.