Blog do Eliomar

A civilização e seus descontentes

Com o título “A civilização e seus descontentes”, eis artigo do professor Tarcísio Pequeno, presidente da Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação de Fortaleza (Citinova). Ele faz uma defesa da recente viagem que o prefeito Roberto Cláudio empreendeu aos EUA, onde mostrou avanços obtidos pela Capital cearense. Confira:

“Fortaleza padece de problemas quase primitivos, como saneamento não universal, problemas no atendimento de saúde e outros, aos quais dedicamos diariamente os mais intensos dos nossos esforços. Todavia, não é por termos problemas primitivos que estamos condenados a ser uma sociedade primitiva”.

Essas palavras foram proferidas pelo prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, por ocasião da inauguração da Casa da Cultura Digital, na Praia de Iracema. São palavras caras aos que lidamos na ciência, habituados, enfastiados até, de sermos confrontados com o silogismo pedestre que conduz à falsa dicotomia: ou cuida-se da miséria do presente ou trata-se da educação superior, da ciência, da tecnologia e do progresso que nos conduzem ao futuro.

Temos contraexemplo recente dessa falácia em nosso País, no qual se aplicou política que combinou forte viés de desenvolvimento social e eliminação da pobreza com formidável expansão do sistema de universidades federais e da ciência. Logrou-se combater, ao ponto de praticamente eliminar, a mais primitiva das mazelas, a fome. Foi uma lição. Há, todavia, os que não a aprenderam.

A civilização é, após a linguagem, a maior invenção da humanidade. Uma e outra nos inventaram em medida não menor do que as inventamos. O que as palavras do prefeito disseram foi que ainda que nos caiba cuidar de problemas que são pré-civilizatórios, isso não nos desobriga da construção permanente da civilização entre nós.

O fulcro da civilização é a cidade. No século XXI ocupam as cidades o protagonismo no enfrentamento dos problemas globais, pois é nelas que esses problemas se adensam e materializam com maior intensidade. Aos gestores das cidades cabe, pois, papel decisivo nesse enfrentamento.

Esse é o espírito do Fórum Mundial de Prefeitos ao qual foi o prefeito Roberto Cláudio convidado a contribuir no debate de problemas comuns e compartilhar a experiência de Fortaleza no campo da mobilidade urbana e do transporte coletivo.

Por alguma razão que me escapa ofende a alguns que Fortaleza participe de reuniões internacionais e nelas tenha o que dizer e o que mostrar, assim como a muitos já ofendeu que o Brasil tivesse destaque nos fóruns das nações. Há quem nomeie esse sentimento de “complexo de vira-latas”. A mim repugna a comparação com esses simpáticos animais.

Tarcísio Pequeno

opiniao@opovo.com.br

Professor da Universidade de Fortaleza e presidente da Fundação de 
Ciência, Tecnologia e Inovação de Fortaleza (Citinova).