Blog do Eliomar

Ciro Gomes e a lucidez de suas críticas

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Com uma análise sobre a entrevista que o ex-ministro Ciro Gomes concedeu ao programa Espaço Pública, nessa noite de terça-feira, da TV Brasil, eis artigo do jornalista Paulo Ernesto Serpa. Confira:

Ciro Gomes tem traduzido, com muita propriedade, a realidade política, econômica e social do Brasil atual. Quem o conhece, desde o tempo em que foi deputado estadual, Prefeito de Fortaleza, Governador do Ceará, Ministro da Fazenda no Governo Itamar e Ministro da Integração Nacional no primeiro Governo Lula, tem a dimensão do seu tirocínio e da sua capacidade de interpretar o comportamento dos políticos, dos banqueiros e de líderes da oposição. Atualmente, mais maduro e mais experiente, suas ideias enriquecem o debate político.

A sua participação no programa Espaço Público, da TV Brasil, na noite de terça-feira, dia 3 de novembro, teve lucidez tamanha a ponto de oferecer ânimo novo a quem tem esperança de ver a sociedade brasileira voltar novamente a se orgulhar dos seus líderes políticos. A sua fala vem carregada do simbolismo que está faltando aos líderes constituídos do Brasil. Tem força, firmeza, determinação de um jovem, mas reconhecidamente maduro e lúcido porque explica, com argumentos objetivos, cada crítica que faz, cada opinião que emite sobre a presidente Dilma Roussef, o vice-presidente Michel Temer, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, os ex-presidente Fernando Henrique e Lula da Silva, os banqueiros, os líderes da oposição, os representantes de segmento s de pequenos grupos da sociedade recentemente formados para defender o impeachment de Dilma.

Ciro é um defensor veemente do trabalho político e administrativo do ministro da Justiça, Eduardo Cardoso, e do ministro Aloísio Mercadante, que saiu da Casa Civil e foi para a Educação, mesmo que o ex-presidente Lula já tenha se manifestado contra ambos.

Criticou o comportamento dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva, por estarem, com frequência, manifestando a sua opinião sobre os episódios cotidianos da política. Segundo Ciro Gomes, ambos estão jogando fora a biografia que construíram durante seus respectivos Governo. Para o ex-governador do Ceará, os ex-presidentes do Brasil deveriam se preservar e manter seu conceito respeitado perante a sociedade brasileira. Por estarem sempre opinando sobre questões menores, as ideias de Fernando Henrique e Lula estão deixando de representar o valor que teriam caso selecionassem os momentos para se manifestar, fazendo com que sua manifestação representassem palavras sábias de figuras que preservam o amor à Pátria e servem de alento à sociedade.

Ciro voltou a mostrar a enorme diferença entre a situação vivida pelo ex-presidente Fernando Collor e pela qual passa a atual presidente Dilma Roussef, com relação ao impeachment. O político cearense lembrou que na época de Collor todas as entidades representativas da sociedade brasileira – como UNE, CUT, OAB, e de classes empresariais e dos movimentos populares – defendiam o impeachment de Collor. Atualmente, segundo Ciro, nenhuma delas defende a saída de Dilma. Para Ciro, a presidente Dilma deveria dar a volta por cima, ao aproveitar a decisão do Ministério Público da Suíça, ao revelar as contas bancárias secretas do Presidente da Câmara dos Deputados, que movimentaram mais de R$ 400 milhões, dinheiro proveniente de suborno da Petrobras, conforme o caso Lava a Jato. Segundo ele, Dilma deveria dar o grito de independência, soltar as amarras com o PMDB, afirmar que quer trabalhar para resolver os problemas da economia do País, desafiando Cunha e sua turma para votar o pedido de impeachment de seu mandato. Com esse gesto, segundo ele, a presidente Dilma ganharia o apoio da sociedade brasileira e reverteria a situação a seu favor.

Ele criticou as tentativas do ex-presidente Lula de estar sempre manifestando o seu desejo de disputar o terceiro mandato de presidente do País, por entender que a situação não lhe é favorável. Ele entende que o desgaste político e social do PT é o sinal que desmanchará suas perspectivas de conquistar um terceiro mandato e de encontrar um ambiente favorável como aconteceu nos seus 8 anos de mandato. Para o ex-governador do Ceará, Lula deveria preservar a sua biografia do Presidente do Brasil que zerou a miséria no País, ao priorizar programas para as classes mais carentes do País, que passou ter o direito às três refeições diárias. Para Ciro, Lula foi um dos três maiores presidentes que o Brasil já teve.

Disse ainda que Lula deveria deixar Dilma livre para trabalhar para restabelecer os índices de emprego e das conquistas sociais dos últimos anos, consolidadas durante os seus dois mandatos. Ciro criticou Lula por misturar a política com a possibilidade de ganhar dinheiro, lembrando os contratos conquistados por familiares. Citou que os seus três filhos estão vacinados contra a ideia de ganhar dinheiro, em função de prestígio ou favorecimento político. Criticou a tentativa de Lula de buscar mais um mandato, por achar que quer a repetição do antigo personalismo típico dos países da América Latina, como ocorreu com o varguismo no Brasil, o peronismo, na Argentina, e o chavismo, na Venezuela. Para ele, o Brasil não precisa mais disso, porque tem de avançar no modelo de fazer política e de governar, com a oportunidade de novas lideranças.

Conclamou a sociedade a defender a democracia na rua, ao lembrar que ele mesmo tem feito isso nos últimos meses, por sentir que é sua obrigação, ao mesmo tempo afirmou que essa tarefa para ele é mais fácil, porque tem alto salário de executivo, morada em um bairro nobre de São Paulo e tem condições de manter uma vida acima dos padrões normais do brasileiro. Por isso, gostaria de estar presenciando, na rua, defendo a democracia, o brasileiro trabalhador, a dona de casa, o estudante, profissional liberal, pequeno comerciário, pequeno empresário, que mantém seu negócio com muito sacrifício.

Condenou a atual política econômica que impõe juros altos aos brasileiros, beneficiando única e exclusivamente os poucos e privilegiados banqueiros do País, que acumulam grande fortunas, enquanto a grande massa da sociedade perde emprego e vê sua renda encurtar sem ter condições de manter as refeições diárias. Igualmente condenou o índice IGPM que está indexado ao dólar, usado para comprar petróleo e o trigo, ao mesmo tempo que reajusta o preço da energia. Para ele, os juros deveriam baixar para permitir que o brasileiro recupere o seu poder de compra. Lamentou que a indústria esteja sendo sacrificada, pela atual política econômica, cuja participação no PIB dificilmente será compensada pelo crescimento dos serviços, porque a indústria ainda tem o seu papel a cumprir no Brasil proximamente, mesmo que a perspectiva mundial mais para frente seja o inverso: o PIB do serviço ser maior do que o PIB da indústria.

Afirmou que aceitaria ser candidato a Presidente da República para realizar as tarefas que a sociedade espera dos seus líderes: reformas estruturais da política, tributária e previdenciária. Lembrou que o momento atual está muito parecido quando o então vice-presidente da República, Itamar Franco, assumiu o cargo de Presidente. Nessa mesma época surgiu o escândalo dos Anões do Orçamento, como foi chamada a negociata que envolveu parlamentares com os recursos destinados ao orçamento anual do Governo Federal. Disse que a classe política estava desmoralizada e a sociedade procurava uma liderança em quem pudesse renovar suas esperanças. Foi dai que se impôs como candidato do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, ao se aproveitar de todo um processo de articulação e montagem da estrutura d e uma equipe econômica, sob o comando do então Presidente Nacional do PSDB, Tasso Jereissati, ex-governador do Ceará. Pelo seu papel de líder do partido e articulador de um projeto de Governo para o Brasil, Tasso Jereissati seria o candidato natural do PSDB à sucessão do então presidente Itamar Franco, segundo Ciro Gomes, que nessa época era Governador do Ceará e o único filiado ao PSDB em todo o Brasil, condição que o credenciou a integrar o grupo das principais lideranças políticas do País.

* Paulo Ernesto Serpa,

Jornalista.