Blog do Eliomar

Que o compartilhar não vire modismo

Com o título “Compartilhar é melhor do que ter”, eis artigo do jornalista e sociólogo Demétrio Andrade. Ele aborda o compartilhar que as pessoas resolveram praticar. espera que não seja modismo. Confira:

Esta antiga afirmação cristã, também bandeira tradicional da esquerda, está voltando à tona com toda força. E não se trata de uma virada solidária ou socialista da humanidade, pelo menos a princípio. É que o próprio mercado descobriu o valor do compartilhamento. Quando digo “valor”, faço-o, claro, numa perspectiva capitalista: cada vez mais pessoas estão ganhando dinheiro e, o que é mais interessante, economizando recursos graças a esta tendência.

Repare que não se trata de doação, mas de repartir o uso de algo com outros. Como tudo na vida, esta forma de relacionamento não é nova. Por ação do estado ou por conta da caridade, alguns objetos já são partilhados há muito, como livros, por exemplo, através das bibliotecas. Mas, olhe à sua volta: com alguns cliques no celular você pode compartilhar bicicletas, músicas, carros, roupas e até sua própria cama.

Não se assuste: caso você se ausente alguns dias ou não more num imóvel de maneira permanente, o tempo que ele permaneceria vago pode ser objeto de locação – com sua cama inclusa – para outros, a preços bem mais confortáveis que os de um hotel. Alguém vai dizer que aluguel (ou leasing, como queiram) existe desde que o mundo é mundo. A diferença é que, desta vez, não há a necessidade de se montar uma empresa e adquirir produtos específicos para tanto. Aplicativos da internet disponibilizam o que se quer e fazem o negócio acontecer por você, a custos baixíssimos.

Sabe aquele objeto de valor que você possui e nunca usa? Uma furadeira, máquina fotográfica, lavadora de roupas? Talvez, ao invés de ter uma, investindo tempo e dinheiro numa aquisição, seja muito melhor dividir sua necessidade com outros. Não é igual àquele amigo “mala” que vive lhe pedindo coisas “emprestadas”: trata-se de estabelecer regras e custos para uso daqueles objetos por várias pessoas. Para quem mora em apartamento, por exemplo, ao invés de ter uma escada entulhando em casa é melhor usufruir daquela disponibilizada pelo condomínio.

É cedo para pintar um quadro definitivo. Mas o impacto em qualidade de vida desta concepção pode reverter-se num maravilhoso ganho. O egoísmo e a mesquinharia cederiam espaço, até por imposição do ganho econômico, a uma cultura que tenderia a priorizar o coletivo. No limite, alguns objetos e serviços se aproximariam muito mais do seu real valor de uso. Só o benefício para as grandes cidades com pessoas compartilhando veículos seria extraordinário. Logicamente, alguns irão perder. Mas, em nome da maioria, torço para que isto seja mais que um modismo.

* Demétrio Andrade
Jornalista e sociólogo.