Blog do Eliomar

É bom temer esse mosquito

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Com o título “Voo rasante, fatal”, eis artigo do jornalista Cláudio Ribeiro, no O POVO desta terça-feira. Ele relata a experiência de ter feito pautas sobre dengue, zika e chikungunya e o medo do Aedes aegypti. Confira:

Trabalhei em duas pautas seguidas sobre dengue, zika e chikungunya e, confesso, saí delas um pouco mais assustado. Nem tantos avanços científicos e tecnológicos ou reuniões de executivos sanitários, nem a estratégia de agentes porta a porta ou as campanhas na mídia. O mosquito de patas e barriga listradas segue dando voos rasantes, muitos fatais. O Aedes aegypti é muito pior do que se pensava.

Não conhecia a história que me foi contada pelo infectologista Ivo Castelo Branco, de que, na ditadura militar, o governo impediu a divulgação dos primeiros casos de dengue na Bahia, no fim dos anos 1970. Os gestores biônicos, nomeados sem votos, preferiram servir o cale-se. Não acreditavam que o mosquito se espalharia tanto.

Nem sei se tenho mais medo de contrair dengue outra vez – pelos sintomas, tenho certeza de que já tive, mas nunca me confirmaram -, de ficar zikado ou de me restar sequelado com alguma inflamação articular causada pela febre chikungunya. Todos esses cenários estão possíveis. Temo por qualquer um de nós.

O Aedes aegypti deposita ovos do tamanho de um pingo de tinta de caneta por todo lado e vêm aí as chuvas da pré-estação. Por esses dias, já tivemos céu nublado, respingos e alguma chuvinha na madrugada. Serão poucas nuvens por causa do El Niño, mas suficientes para brotar novos mosquitinhos contaminados.

Imagino a aflição das grávidas, sonhando com os primeiros filhos ou aumentando a família, e o risco iminente da microcefalia se a mãe contrair o zika vírus. Lembro que, quando a Paula engravidou da Júlia, minha expectativa era de felicidade. Desde a semana passada, não deixo de lembrar de uma grávida da família que estava com vermelhidão e inchaço num dos olhos. Não sentia nada mais. Perturbadora a sensação. Sintomas de zika só aparecem em 5% dos pacientes.

Um documento do Ministério da Saúde, a que tive acesso, informa que a projeção de infecções pelo zika vírus no Ceará em 2015, com confirmação laboratorial, ficará entre 38.485 e 77.469 casos. No Brasil, a estimativa é de que serão até 1.482.701 registros. Quanto mais gente com o vírus, mais possibilidade de o Aedes aegypti se contaminar picando alguém e espalhar a doença mais e mais. 

Há ainda os mais de 102 mil casos notificados de dengue no Estado, todas as incertezas sobre a chikungunya e o mosquito zumbindo ao nosso redor.

Cláudio Ribeiro,

Jornalista do O POVO.