Blog do Eliomar

O método de governar

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Da Coluna Fábio Campos, no O POVO desta quinta-feira (14):

Os depoimentos de Nestor Cerveró são esclarecedores. Eles desvendam com grande nitidez a estrutura da corrupção que tomou o Brasil de assalto. Os cargos e as funções que desempenhou na Petrobras respondem à lógica desse esquema. Cerveró colabora para salvar sua pele. Para isso, se comprometeu a contar a história da corrupção na estatal. Tintim por tintim.

Cerveró chegou à diretoria da Petrobras em 2003, junto com a posse de Lula na Presidência da República. Porém, sua carreira na empresa começou a ganhar relevo ainda na era FHC pelas mãos de Delcídio Amaral, então diretor de Gás e Energia. Delcídio assinou ficha de filiação ao PT e foi eleito senador em 2002. Tudo se encaixava.

Como diretor da área Internacional da Petrobras, Cerveró foi o técnico que bancou a compra da refinaria de Pasadena, nos EUA. Prejuízo. Foi dele também o negócio de 616 milhões de dólares com a Schahin Engenharia. Cerveró prestava serviços ao comando político que o bancava e, de quebra, enchia os bolsos de dinheiro.

A qualidade de seus serviços mereceu o devido reconhecimento. Tanto que, com a ascensão de Dilma Rousseff, mesmo com o escândalo Pasadena já conhecido, Cerveró é bancado (segundo ele, por Lula) para comandar a diretoria financeira na BR Distribuidora. Como apontam as investigações, não era apenas por gratidão. O homem dava resultados e era fiel a quem o bancava.

Por longos 11 anos, Cerveró compôs as entranhas do esquema de corrupção. Sempre exercendo papel preponderante. Cerveró não sabe apenas por ouvir falar ou por conviver. Ele sabe por ter sido operador de proa do esquema. Não era à toa que o senador Delcídio fazia um esforço desesperado para impedir o seu acordo de delação premiada.

Na BR Distribuidora, Cerveró serviu a Fernando Collor. Como o ex-presidente conhecido por sua desenvoltura nos negócios públicos conseguiu ser influente na empresa? Ora, a influência foi concedida. Sem o aval do Palácio do Planalto, Collor jamais teria esse alcance. Nem ele e nem os Eduardos Cunha da vida. Tal método é componente do projeto de poder.

Seus relatos acerca dos contratos com a Schahin são perturbadores. Segundo o depoimento, o negócio foi feito a mando do então presidente Lula para pagar dívidas do PT. Notem: nem mesmo os envolvidos no depoimento estão atacando pessoalmente o delator. Como atacar um homem que eles bancaram para ocupar cargos tão importantes?

Haverá mais delações. Nos bastidores, comenta-se que a cúpula da Andrade Gutierrez caminha para assinar acordo com o Ministério Público. Enfim, a Lava Jato é a variável que a política não controla. Os vazamentos são parte da estratégia dos investigadores. A cada fala que vem a público, um abalo sísmico na política.

No fim das contas, uma conclusão definitiva: a Petrobras, outras estatais, os fundos de pensão e muitos contratos públicos foram instrumentos de um método de governar. Havia um sistema criminoso. É disso que se trata. Não há meio termo. E é óbvio que uma estrutura que se organiza para cometer crimes despreza a democracia.

O que resta hoje: um País metido numa dura recessão, a economia depredada, a inflação de volta, os serviços públicos de péssima qualidade e os impostos altíssimos. Metade da população do Brasil não tem esgoto. Um terço depende de uma bolsa miserável pra viver. A violência campeia. Sem mais.