Blog do Eliomar

A crônica do golpe anunciado

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Com o título “Uma horda que não sabe o que quer”, eis artigo do jornalista e sociólogo Demétrio Andrade. Ele bate duro no processo de impeachment de Dilma e lembra que o relator, o tucano Antonio Anastasia, é acusado de pedaladas fiscais quando governou Minas, e estranha a Lava Jato ter mergulhado. Confira:

Após a esdrúxula e vergonhosa votação da admissibilidade do impeachment na Câmara dos Deputados, ficaram patentes algumas verdades extremamente inconvenientes. A primeira: os deputados não sabiam o que estavam votando. Isso ficou claro nas ridículas intervenções realizadas em plenário e em entrevistas dadas posteriormente. O motivo em si, “pedaladas fiscais”, tem fragilidade atestada até por autoridades como o ex-ministro Joaquim Barbosa, um reconhecido algoz das gestões petistas. Cabe ressaltar que o relator da comissão do impeachment no senado, Antonio Anastasia (PSDB) é, pasmem, acusado do mesmo “crime”.

A segunda: parte da população não tinha consciência da extensão do estrago político que um processo como este pode causar à jovem democracia brasileira. Basta ver a pesquisa do IBOPE, realizada entre os dias 14 e 18 de abril, que mostra que 62% preferem o chamamento de novas eleições (o que não irá ocorrer); 25% optam pela manutenção da presidenta com governo reformulado; só 8% preferem Temer (que não tem voto); e outros 5% não sabem opinar ou manifestam outras preferências. Fora isso, Lula continua liderando as intenções eleitorais para 2018.

Em suma, somente agora quem rejeitava o atual governo reparou que as opções pós-impeachment são bem piores que o atual governo, por mais complicada que esteja a conjuntura. O discurso “contra a corrupção” foi evidentemente desmoralizado ao se verificar que todo o procedimento na Câmara foi comandado por Eduardo Cunha, réu em ações movidas pela Procuradoria Geral da República, que está sugerindo para o presidente daquele poder uma pena de 184 anos de prisão. O cidadão deve estar se perguntando porque ajudou a reproduzir um comportamento histérico, agindo como uma horda que não sabe o que quer.

A terceira: ficou evidente o golpe de Estado, articulado com o que há de pior na política nacional. A imprensa do mundo inteiro não consegue entender como tantos parlamentares que respondem por crimes de corrupção conseguem depor uma presidente contra a qual não se tem nada, repito, nada comprovado. Mesmo admitindo que as “pedaladas” são motivo previsto em lei, é como – numa comparação rala – alguém fosse condenado à pena de morte por ter roubado uma galinha.

Além disso, a Lava-Jato sumiu da mídia, deixando clara qual foi sua função: fragilizar o governo, punindo de forma seletiva. A direita, que perdeu as últimas quatro eleições, inconformada, quer tomar o poder à força, no tapetão. Mais que isso: investirá contra Lula, com medo de perder novamente. Esperamos que, até lá, o voto ganhe das instituições um estatuto de maior respeito e o estado de direito seja preservado.

*Demétrio Andrade

Jornalista e sociólogo.