Blog do Eliomar

A Felicidade e seus paradoxos

Com o título “O correto como cobrança”, eis artigo do jornalista e sociólogo Demétrio Andrade. Ele aborda felicidade outra vez e destaca que “talvez a melhor receita seja não ter receita alguma. E descobrir a sua, com seus erros e acertos, sem maiores pretensões.” Confira:

Dia desses estava assistindo a um filme na TV a cabo. Desses que a personagem principal ganha o mundo querendo se autodescobrir e ganhar um sentido para a própria existência. Prestei atenção sobre a quantidade de pessoas que interagiam com aquele ser confuso lhe dando palpites, alguns cravando algumas certezas, outros dando dicas de como proceder para encontrar suas respostas. Em menor ou maior grau, notei que a história carregava em seu enredo, ao tratar destas questões, próprias de qualquer ser humano, um mote sobre o famoso e desconhecido “caminho a se seguir”.

De fato, tal expressão exige um complemento: caminho para onde? Suponho que seja para a tal felicidade. Bom, não é sobre ela que quero falar. Até porque minha opinião é muito clara: felicidade se constrói com muito trabalho e se encontra em alguns momentos da vida, como canta Odair José. Sobre o caminho, bom, o poeta já dizia que ele se faz caminhando. E as receitas de caminhos e felicidade estão em qualquer prateleira de autoajuda. Não, não é sobre isso que queria discorrer.

Veio a mim a seguinte questão: o mercado de trabalho, as religiões, a família, os amigos, as ideologias, enfim, qualquer área do conhecimento – formal ou informal – há sempre a perspectiva de mostrar uma alternativa “correta” para se chegar a um objetivo. Na verdade, por mais fora do esquadro que você seja, por mais que você se ache alternativo, há sempre um véu de enquadramento querendo projetar você dentro de uma perspectiva pré-determinada.

Em suma: da forma como somos criados, assimilamos a normalidade como caráter, padrões de relacionamento como modelos, rotinas de trabalho como meta de vida. Aprendemos a arrumar a cama, produzir, chegar na hora, competir, cumprir regras e a corrigir uma série de “defeitos” em busca de uma perfeição quase inumana. O que ninguém nos ensina é a como sermos imperfeitos, o que, aliás, é um paradoxo ontológico grave, posto que, essencialmente, somos fadados ao erro.

Falo de como deixar a casa desarrumada sem sustos e sem achar que ela cairá sobre nossa cabeça por conta da bagunça. A como não cumprir obrigações sem dor na consciência – Fernando Pessoa já avisava: “Ah! Que prazer não cumprir um dever”. A como magoar as pessoas e conversar ponderadamente com elas depois. A como fracassar nos relacionamentos, chorar e seguir em frente. A como competir e perder e continuar tentando. A como estar fora do padrão de beleza e sobreviver. A como ligar o botão do “foda-se” quando a cobrança está além de nossa capacidade.

Sei não, viu? Desconfio que essa coisa de “seja” é uma teoria impositiva sem consistência. Seja vencedor, seja rico, seja belo, seja magro, seja realizado, seja competitivo, seja alegre, seja bom de cama, seja saudável, seja religioso, seja feliz. Acho que hoje eu tô muito mais pra “seja o que Deus quiser” e olhe lá se Ele vai perder tempo olhando pra este pedaço microscópico de ser encravado na vastidão do universo. Talvez a melhor receita seja não ter receita alguma. E descobrir a sua, com seus erros e acertos, sem maiores pretensões.

*Demétrio Andrade,

Jornalista e sociólogo.