Blog do Eliomar

A Rio 2016 e a Fortaleza 2014

Com o título “Olimpíadas 2016”, eis artigo de José Borzacchiello, o geógrafo e professor emérito da UFC. Ele fala sobre os jogos do Rio e tantas promessas de obras feitas e deixadas pelo caminho, dando exemplo Fortaleza. Confira:

A cerimônia de abertura das Olimpíadas Rio 2016 foi um sucesso absoluto. A capacidade do brasileiro em dar conta de tarefas complexas, mesmo que de resultado efêmero, ficou comprovada. Uso de alta tecnologia e criatividade em momento de vacas magras mostrou uma equipe competente e inventiva. Temperada com fortes elementos de brasilidade e incursões em temas universais, a abertura caiu nas graças do público.

O sucesso neutralizou parte das críticas presentes nas mídias nacional e internacional, mas não impediu manifestações de movimentos sociais há muito posicionados contra a realização do evento na cidade do Rio de Janeiro face aos seus altos custos quando comparados com as fragilidades das políticas públicas nas áreas de saúde, educação e segurança pública, num estado com economia fragilizada, dependente de transferências extraordinárias do governo federal. Essa indisposição tem sido frequente nas cidades onde se realizam megaeventos.

No Brasil, passada a Copa das Confederações, a Jornada Mundial da Juventude, a Copa do Mundo e agora as Olimpíadas, pergunta-se qual o legado para as cidades sedes. Fortaleza aguarda até hoje a ampliação do Aeroporto Pinto Martins, a implantação de uma linha de Veículo Leve sobre Trilhos, dentre outras melhorias. No caso do Rio de Janeiro, é indiscutível a transformação urbana da cidade. A derrubada do elevado da avenida Perimetral permitiu o resgate de áreas opacas, já esquecidas pelos cariocas. Viadutos contribuem, às vezes, para melhorar o trânsito, mas sempre degradam as áreas atravessadas por ele. Em Fortaleza são emblemáticos os viadutos da avenida Engenheiro Santana Júnior sobre a avenida Santos Dumont e o da avenida Treze de Maio sobre a avenida Aguanambi. São duas áreas extremamente degradadas e desprezadas pelos serviços públicos de apoio e de manutenção. No Rio, o viaduto monstruoso impedia a linha de visada do mar. Túneis foram abertos, reduzindo o ruído e retenções no trânsito, possibilitando maior conforto ambiental. Um grande bulevar criou longos trechos de caminhada à beira-mar. Novos museus e renovação de prédios públicos reforçaram a função de âncoras, gerando fluxos pelos novos caminhos urbanos.

Entretanto, os movimentos sociais, no exercício de sua missão continuam exercendo seu papel de cobrar uma cidade melhor em toda a sua extensão e não apenas nas áreas turistificadas. Repudiam a remoção forçada de várias famílias para que se instalassem estruturas das olimpíadas. Questionam a qualidade da infraestrutura e dos serviços em vários bairros da cidade.

A celebração continua enquanto os movimentos sociais preparam-se para discutir o desmonte do ensino público, o pagamento atrasado e parcelado dos salários dos funcionários, a incapacidade de atendimento digno nos postos de saúde e hospitais, o retorno do controle do narcotráfico em áreas sensíveis da cidade, além do pior que é a situação de falência generalizada do Estado do Rio de Janeiro. A grande pergunta é: quem vai pagar a conta?

*José Borzacchiello da Silva

borza@secrel.com.br

Geógrafo e professor emérito da UFC.