Blog do Eliomar

Quem tem medo de morrer?

Com o título “Incertezas”, eis artigo do jornalista e sociólogo Demétrio Andrade. Uma abordagem sobre morte e seus mistérios. Confira:

Há apenas uma certeza evidente nesta vida, que é a mesma pra mim, pra você que está lendo este artigo, para as pessoas as quais você ama ou detesta, pro pipoqueiro da esquina e pro Barak Obama: todo mundo vai passar desta para uma outra – se melhor ou pior, é um problema que não me cabe. Confesso que fico meio apreensivo quando pessoas que conheço – ou por amizade ou por serem famosas – começam a ir para o buraco em sequência, num período de tempo mais curto.

Talvez a grande lição que os mortos nos deixem é que é necessário aproveitar a vida, posto que, como dizia Gil, “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”. E aí, evidentemente, nosso erro é não assimilar a grandeza desta advertência. Depois do susto, seguimos nosso cotidiano de tarefas caseiras, compromissos e trabalhos, em circunstâncias muitas vezes vazias de significado. Nos apegamos à rotina, sobre a qual volta e meia gritamos que detestamos, mas que é uma espécie de falsa prova diária de que vamos durar até pelo menos a última folha da agenda.

Não sei quanto a você, mas eu me pego em alguns momentos cultivando a ilusão de poder planejar minha aposentadoria, controlar o tempo, supervisionar o que os filhos estão fazendo, administrar a saúde e traçar o rumo dos meus investimentos. Longe de querer dar a impressão que o melhor é mandar tudo às favas, é bom lembrar que é necessário fugir das obrigações para prestar contas com a vida. Afinal, ela não é feita somente para isto. Caso você passe batido no quesito “aproveitar o que ela tem de melhor”, corre o sério risco de vê-la ir embora feito um moleque travesso, rindo da sua perplexidade e ainda lha mandando um sonoro “iêêêiiii”, no melhor estilo cearense.

Na minha última aula de inglês, num diálogo qualquer, falei para o meu professor que eu e minha esposa divergíamos sobre fazer planos para o futuro. Ela é fanática por listas de coisas a fazer. Eu sempre acho que o melhor dia pra se viver é o de hoje. Citei o filme “The Bucket List” (Antes de Partir), no qual Morgan Freeman e Jack Nicholson, doentes terminais, listam coisas para fazer antes de morrer. Escrever uma lista com dez coisas importantes a fazer antes de seguir num caixão até o São João Batista virou tarefa pra próxima aula.

O termo “bucket list” tem da expressão “to kick the bucket”, que em português corresponde a “chutar o balde”: quando a pessoa está com a corda no pescoço, sustentada por um balde e chuta o artefato para se enforcar. Em resumo, é uma lista de coisas para você fazer antes de morrer. Porém, toda vida que me deparo com tal situação, fico bloqueado, pois me dá a sensação de que isso seria exigir demais da vida. Ou, numa versão menos positiva, admitir que sou um cidadão sem grande ambições.

Quem já dividiu uma mesa de bar comigo com certeza já me ouvir bradar “comamos e bebamos que amanhã nós morramos!”, assim mesmo, em mau português. O fato é que essa coisa de morte me leva a simplesmente renovar o prazer que tenho em pequenas coisas que me fazem bem: beber, comer, transar, botar os filhos no colo, ouvir música, jogar conserva fora com amigos, ver o time jogar, correr de manhã cedo, viajar. São coisas que, com certeza, me farão sorrir. O resto, meu caro, integra o imenso rol do inesperado.

*Demétrio Andrade,

Jornalista e sociólogo.