Blog do Eliomar

Criança. O Ontem e o Hoje

Com o título “Criança. O Ontem e o Hoje”, eis o que nos escreve o escritor e empresário João Soares Neto neste Mês da Criança. Confira:

“A mim me salvaram as crianças. De tanto escrever para elas,
simplifiquei-me”. Monteiro Lobato

Era uma vez um menino nascido ao meio-dia de uma sexta-feira. O mundo estava em
guerra. Não por tal razão chorava. Havia saído a fórceps do útero de mãe primípara,
por obra e graça de parteira diplomada. Seu pai só tinha 20 anos, era ciumento e não
deixou a jovem mulher ser assistida por médico. Paparicado por jovens tias maternas,
pois o casal estava com pressa de povoar o mundo. Depois dele, não veio o dilúvio,
mas oito crianças.

Uma das tias sugeriu e os seus pais aceitaram, iniciá-lo, aos quatro anos, nos estudos
em escola experimental americana. Ia só. Quem o acompanhava, ficava longe.
Infelizmente, durou pouco. Matricularam-no em ginásio formal. Um dia, não lembra a
razão, foi o último a sair do recreio para a sala de aula. De repente, o diretor puxou-o
ela orelha, ralhando. Conseguiu um telefone do próprio ginásio e ligou para o pai
contando o fato. Disse: não estudaria mais ali. Dito e feito.

Dezenas de anos passados, ele, já com netos em idade escolar, tenta aproximação de
formas diferentes. Meio sem jeito, desde o tempo de pai. Criara (seria o prenúncio de
um ficcionista?), dois personagens, a Rosinha e o Paulinho, crianças exemplos. As filhas
procuravam conhecê-los. Ele driblava com evasivas: moram um pouco distante daqui,
viajaram, estão de férias etc. Rosinha e Paulinho eram bons filhos, estudiosos e
serviram de modelo invisível para as ainda crédulas filhotas.

Agora, conta um pouco do “seu-sem- jeito” como avô. Há anos combinou com uma
filha: levaria as crianças dela para a escola. Tentava maior aproximação. Entravam no
carro ainda bocejando. Ele, o avô, colocara no toca cd músicas infantis e ia,
desafinando, solfejando com eles. A festa durou pouco mais de uma semana. Um dia,
perguntou se fazia diferença ir apanhá-los manhã cedo ou outra pessoa servia. Triste,
ouviu: tanto faz.

Domingo desses, combinou com outra filha, ir apanhar o seu primogênito para levá-lo
a uma feira de numismática. O neto, rosto cheio de protetor solar e saco com lata de
moedas repetidas. Sentados no banco da frente, cintos de segurança atados, foram
conversando ao Parque da Liberdade, no centro, a antiga Cidade das Crianças,
concepção pedagógica da professora Zilda Martins Rodrigues.

Lá, pessoas maduras fazem o escambo e a venda de moedas. Sentou-se em uma
banca. O neto, em outra. Fez as suas barganhas e, ao final, o neto queria vender, a
qualquer preço, as moedas repetidas. Arrazoou: você não está precisando de dinheiro.
Comprou novas moedas para o neto, inclusive, cédula de dólar com a cara do Mickey,
só circulante no mundo da fantasia e no dos numismatas.

Depois, foram almoçar. Antes, o neto pediu para tomar sorvete. Concordou, claro. Do
almoço provou pouco, mas bebeu duas latas do excêntrico Guaraná Jesus, hoje marca
da Coca-Cola. Mais um sorvete e tomou o caminho de volta. Papos, risos e abraços. Ficaram combinados. Voltariam à feira.

*João Soares Neto,

Empresário e membro da Academia Cearense de Letras.