Blog do Eliomar

Territórios dominados pela violência

Editorial do O POVO desde domingo (31) comenta da chegada das facções criminosas no Ceará. Confira:

Em 2017, o medo e a violência estiveram presentes, de uma maneira jamais vista, no cotidiano dos cearenses. Houve, em média, 14 homicídios para cada um dos 365 dias que o calendário marcou.

Foram mais de 5 mil mortes, entre janeiro e dezembro. Estatística que fez a sensação de insegurança, tão comum em nossa rotina, se materializar em uma palavra plural que ganhou peso no nosso vocabulário: facções.

Semanticamente, facção é a “reunião daqueles que causam perturbação à ordem pública”: a facção criminosa. O conceito, porém, não resume nem traduz o sentimento que essa palavra carrega para os moradores de comunidades que são proibidos de circular livremente entre os bairros sob pena de pagar com a vida o exercício do direito de ir e vir.

Mais que isso, facções são grupos que arregimentam cada vez mais “soldados” nas periferias e incrementam suas frentes nos locais onde o Estado é ausente. São sujeitos que definem a idade a partir da qual as crianças devem começar a “trabalhar” no tráfico e as atividades que devem desenvolver. E que, nesses locais, determinam, inclusive, para qual time as pessoas deverão torcer. Era como agia a quadrilha que dominava a comunidade do Pôr do Sol, no Coaçu, até outubro.

Facções são organizações que impõem códigos de conduta nos assentamentos precários, proibindo determinados gestos, expressões e cores de cabelos. Foi assim, ao comentar o que não podiam, dentro de um ônibus, que as jovens Karolina Morais de Melo, 23, e Luziara Rodrigues dos Santos, 16, foram arrebatadas e assassinadas, em 17 de setembro, no Morro de Santiago, na Barra do Ceará.

Facções são indivíduos que se reúnem para pichar regras nos muros a cada esquina, com força de lei, assegurando punição aos que as descumprirem ou ignorarem. “Ao entrar na favela, baixe os vidros, tire o capacete e identifique-se”. Morte foi a sentença do motorista da Uber Guilherme Maia, 22, baleado pelo “crime” de dirigir nas proximidades do residencial Alameda das Palmeiras, no Ancuri, em 23 de julho.

Facções são incoerências de regras como: “Se roubar na favela vai morrer”, onde quem assina o texto é “o crime”. E é assim que as facções usurpam do Estado o dever de garantir segurança aos cidadãos. E foi assim que um “justiceiro” capturou e executou o suspeito de roubos Fábio Galdino dos Santos, 25, em 9 de novembro, na rua Luminosa, no Bom Jardim. Seu algoz, Paulo Sérgio de Sousa Alves, 23, confessou que também cometia assaltos, mas fora da comunidade.

Facções são entidades que estabeleceram, nas ditas favelas, um processo de identificação entre crianças e adolescentes, que são seduzidos pelo poderio esbanjado por seus membros. São aqueles que impõem uma decisão de pertença obrigatória aos que estão recolhidos nos presídios e centros socioeducativos. Assim, as facções crescem a cada nova prisão ou apreensão realizadas.

Ao mesmo tempo, são as facções que invadem esses mesmos estabelecimentos para resgatar ou executar internos. Aconteceu, em 13 de novembro, com quatro adolescentes, com idades entre 13 e 16 anos, que cumpriam medidas em unidade socioeducativa na Sapiranga. Sob a tutela do Estado, todos foram raptados e executados.

Em seus “tribunais do crime”, como o encontrado em 26 de setembro, no Grande Jangurussu, as facções atuam como entidades que acusam e condenam ao mesmo tempo. São mandatários que retalham territórios em “capitanias hereditárias”, onde a maior fatia de área usada no comércio de drogas fica para aqueles que tiverem mais força, ou demostrarem ter. Desta forma, facções são coletivos que cometem crimes bárbaros, com emprego de tortura, decapitação, esquartejamento e carbonização, para impor medo e demostrar a força que pretendem.

Facções são sujeitos que fincam bandeiras do crime nas escolas. São organizações com elevado poder de destruição e controle. São capazes de influenciar na redução dos homicídios no Ceará, em 2016, e na posterior elevação dos assassinatos, em 2017, alcançando um patamar recorde. Por fim, facções são aqueles que, há dois anos, iludiram os moradores da periferia com uma paz às avessas, ganharam capilaridade e, depois, confiscaram suas casas e os expulsaram de seus bairros.

Para 2018, esperamos que uma verdadeira paz seja construída. E que seja excluído do dicionário governamental o uso da palavra facções para justificar todo e qualquer erro ou omissão cometidos, sobretudo com relação às políticas públicas de Segurança.