Blog do Eliomar

Nostra culpa

Em artigo no O POVO deste sábado (10), o juiz federal e professor universitário Nagibe Melo contesta a situação de controle do Estado na segurança pública. Confira:

Quatorze pessoas mortas na última chacina, a das Cajazeiras. Antes houve a de Messejana, a do Porto das Dunas, a da Sapiranga, e quantas outras? Se os bandidos tivessem matado as mesmas quatorze pessoas, cada um em um dia, não teriam chamado atenção. No ano passado, foram assassinadas 5.134 pessoas em Fortaleza, uma pessoa morta a cada 1h e 43 minutos. Nós vivemos dentro da chacina.

O governo diz que está tudo sob controle. Ridículo. Desculpem-me, mas não há outro adjetivo. Cínico, talvez. Se alguma coisa estivesse sob controle, não teríamos visto 17.984 homicídios em Fortaleza, registrados de 2001 a 2015. Nesse período, só se matou mais em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Quem são os culpados?

Todos nós. Porque não ligamos, não nos importamos, não cobramos, aceitamos. Mas as autoridades do Estado têm culpa maior: governador, deputados, procuradores e promotores de justiça, policiais. É um absurdo que, diante de números tão assombrosos, ninguém faça nada, ninguém diga nada de importante. Uma nota aqui outra ali como quem lava as mãos.

Todos sabem o quê e como fazer. A culpa é por omissão. É inaceitável que a taxa de elucidação de crimes seja tão baixa. Em Fortaleza, apenas 12 de cada 100 assassinos são identificados. Os outros 88 escapam impunes. Para além da polícia na rua, das viaturas, do Ronda, do Raio, da repressão pura e simples, a violência diminui com a certeza de punição. Inteligência, perícia criminal, investigação e condenação pelo devido processo legal.

Os deputados deveriam fiscalizar o governo, propor mudanças. Nada. O Ministério Público, responsável pelo controle externo da autoridade policial, nada tem feito de significativo. Comporta-se como um órgão auxiliar do governo. Não é esse seu papel, deveria fiscalizar a polícia, defender a sociedade. Os policiais tentam sobreviver com as péssimas condições de trabalho. E nós? Nós damos de ombros.