Blog do Eliomar

O que querem os jovens das facções?

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Em artigo sobre o recrutamento de jovens para as chamadas facções no Ceará, o jornalista Nicolau Araújo avalia o perfil da juventude na criminalidade, diante da experiência na área policial no O POVO, Diário do Nordeste e TV Jangadeiro. Confira:

“VCS DAS Travessa tem que fora si nao Vai Morrer Seus Safado e não saiar nao praver si nu morre tudim”.

Mais que ameaça, creiam, a frase (?) acima é um pedido de socorro. Não somente dos moradores do bairro Barroso II – muitos, de fato, deixaram suas residências, em julho do ano passado -, mas também do jovem que pichou a fachada da casa da Travessa Seis. Sim, jovem, conforme o perfil para a função determinada pela sua facção.

E esse pedido de socorre é estendido a outras centenas de jovens com o mesmo – quase nenhum – grau de instrução.

Com raras exceções, o jovem não busca a criminalidade, tampouco é influenciado por amigos ou pelo consumismo. Esse último argumento por décadas foi apontado pelos anticapitalistas. Apesar da ortografia sofrível, da incapacidade de domínio das quatro operações da matemática e da indiferença com as demais ciências, o jovem na criminalidade possui consciência social. Claro, dentro das suas limitações.

“Dá para ver que o senhor foi de escola boa. Por isso fez faculdade e ganha a sua vida. Não temos escola. É faz de conta. Os professores têm medo da gente”, relatou um jovem, nos meados de 2010, integrante de assalto contra motoristas no cruzamento da rua Silva Paulet com a avenida Santos Dumont. O amigo levou um tiro no pescoço, efetuado por uma das vítimas. Mas sobreviveu.

Não, o jovem não estava preso ou apreendido. Não havia como precisar a idade, diante das marcas de sofrimento no rosto e do olhar sem perspectiva. Ele se misturou ao aglomerado de curiosos no local do crime. A frieza (ou coragem) me impressionou. Apontado por outros jovens da comunidade do Campo do América, a princípio negou participação no assalto. Mas, provocado na sua condição social, não se negou ao debate.

Cerca de três anos antes, a então titular da Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), Cândida Brum, chorou em desabafo ao O POVO sobre a situação dos adolescentes infratores. Para a delegada, as apreensões não eram de criminosos, mas de jovens tão vítimas quanto suas vítimas – guardadas as devidas proporções.

Ao final da entrevista de mais de uma hora, a delegada ponderou: “Cuidado com o que você vai escrever no jornal”. Voltei da porta de sua sala e condicionei: “Se a senhora me garantir que virá trabalhar, amanhã, com o espírito sossegado, não escreverei uma linha sequer do que conversamos”. “Escreva a sua matéria”, disse a delegada, afastada do cargo dias depois.

E é essa vitimização da juventude que a criminalidade se aproveita para aliciar jovens para as facções. Apesar de ser uma larga porta de entrada à cidadania, o poder público por si não é responsável pelo avanço da juventude na criminalidade. Não há caneta mágica nas mãos do governador Camilo Santana. Se tivesse, apostem, o problema já estaria resolvido.

Na realidade, as facções encurtam para os jovens aliciados um processo que deveria durar gerações. Eles saem de um futuro sem muitas perspectivas para um pseudo conceito de poder, de relevância, de importância, de atenção. E quando as facções encurtam esse processo, a morte precoce é uma realidade. O pior é que o jovem possui essa consciência.

A família, a primeira porta da cidadania, infelizmente, há muito está com a passagem comprometida nas classes sociais menos favorecidas. Não somente pela desestruturação familiar, presente em muitos lares, ou pelas dificuldades comuns à própria situação. Mas, principalmente, pelo processo inverso do respeito.

É o caso de uma menina de 13 anos, que programava se esconder com o namorado no Icaraí, em Caucaia, após ele e dois amigos espancarem uma senhora, com chutes e socos, durante um assalto. Ao descobrirem que a senhora era mãe de um miliciano, os três jovens tentaram deixar o bairro Vila Velha. Dos três, dois morreram a tiros na mesma noite.

Pela manhã, dezenas de jovens cercaram o carro da reportagem. E lá estava, aos prantos, a menina de 13 anos. “Quatro meses no Icaraí? E a sua escola?”, indaguei à menina. O silêncio a denunciou. “Ah, não tem escola”, deduzi. “Não, senhor”, confirmou.

De imediato, me reportei ao aglomerado. “Por favor, alguém pode me trazer a mãe dessa menina?”, pedi. Uma senhora se espremeu entre os jovens. “Sou eu”. “Senhora, por que a sua filha está sem escola?”, perguntei. “O senhor sabe, esses jovens de hoje”…

“Senhora, esses pais de hoje…”, corrigi. “Jovem é jovem em qualquer época”, completei. Nada mais procura que poder, relevância, importância, atenção…