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Temer, intervenção e um clima de tudo ou nada

Com o título “Tudo ou nada”, eis artigo do professor, médico e antropólogo Antonio Mourão Cavalcante. Ele aborda a intervenção no Rio e suas consequências até políticas para o Continente. Confira:

A análise política não pode prescindir do contexto pessoal. Quando uma autoridade exercita o poder, quando toma uma decisão, não podemos entender as motivações apenas pelo inerente ao cargo que ocupa. Normalmente Indagamos as motivações, de ordem coletiva, que teriam estimulado o dirigente a tal desiderato. Porém, existe o público e o privado. Público, ligado ao jogo dos interesses coletivos em causa. O que isso significa para a população? Quais as conseqüências? Quem ganha com isso? Quem tira benefícios daquilo?

Vamos a um exemplo atualíssimo. Saído agora mesmo do forno: a decisão do Governo Temer em realizar uma intervenção militar no Rio de Janeiro. Com certeza, tem uma motivação coletiva. O povo carioca pede um basta a tanta violência. O Governo, sensível à demanda, monta o cavalo selado e propõe a ação, na exata medida.
Como existem outros estados em igual situação – ou mesmo pior! – a resolução pode ser ampliada. Por isso, não mais que de repente, o presidente Temer propôs a criação de um ministério extraordinário. Fica todo mundo feliz e tranqüilo.

Essa é a dimensão pública, coletiva. E, no plano privado? Ora, o Sr. Michel Temer sabe que uma vez entregue a faixa presidencial, descendo o palanque, estará a esperá-lo um camburão da Polícia Federal. Será um cidadão sem imunidades… Então, esse é um fantasma que deve segui-lo noite e dia. O precedente já foi escancarado. Ele tem muitos colegas em igual condição, curtindo o sol quadro, como diz a canção popular…

Se a coisa complica – mais violência país à fora, mortes, sequestros, etc. – ele poderá até propor o “adiamento” das eleições: “não há clima para disputas eleitorais. O país está passando por uma grave crise! Eleições só irá tumultuar mais ainda o processo.” O restante da reflexão não preciso contar. Quando o circo pega fogo, morre o leão e o domador!… Base da teoria do quanto pior, melhor.

Quanto mais a cena do palanque for adiada, melhor para o final do pesadelo palaciano. De quebra, lembrai-vos! O Chefe do Departamento de Estado dos USA e o vice-presidente do mesmo país, estão defendendo abertamente a intervenção militar – mais uma! – para resolver o problema da “liberdade” e da “democracia” da Venezuela.
Resumindo: um pesadelo pessoal pode se tornar um pânico continental. Serão “as águas de março fechando o verão….”

*Antonio Mourão Cavalcante,

*Médico e antropólogo. Professor Universitário.