Blog do Eliomar

Leitores em perigo

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Em artigo no O POVO deste sábado (28), a jornalista Regina Ribeiro avalia o novo Programa Nacional do Livro Didático. Confira:

Na última quarta-feira, 25, as principais editoras brasileiras travaram um debate acirrado com o Ministério da Educação (MEC). Em pauta estava o nível de “instrumentalização” da literatura nas escolas da rede pública. Em vias de execução, o novo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD Literário), que definirá as compras governamentais dos livros de literatura para as faixas que vão o desde o ensino infantil até o nível médio, traz mudanças radicais.

Com vários pontos de discórdia, o que pareceu mais complexo foram exigências do edital para que as obras literárias inscritas tragam paratextos sobre o livro e o autor além da obrigatoriedade de manuais para o professor, com explicações detalhadas sobre a obra e atividades em sala de aula. Os paratextos deveriam constar em livros a partir do 1º ano do ensino fundamental. Os manuais para todas as etapas.

A explicação da diretora do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Renilda Peres de Lima, foi a de que “muito professores não sabem usar um livro de literatura em sala de aula” e que os textos complementares ajudariam os docentes com a tarefa de “incentivar a leitura” nos estágios iniciais da vida escolar. A proposta do MEC para os paratextos provocou uma onda de incompreensão na sala quando houve a sugestão, por parte dos técnicos, de que a linguagem desse material complementar pudesse ser “acessível tanto aos alunos quanto aos professores”.

Você deve estar se perguntando: existe algum problema nisso? Por que os professores não deveriam receber esse material de apoio? Os paratextos são prejudiciais aos alunos que recebem os livros? Essa não é uma resposta fácil, mas nesse caso específico concordo inteiramente com o presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), Marcos Pereira, ao afirmar, durante o encontro, ser necessário estabelecer a diferença entre estratégias de marketing das editoras e uma política nacional de “instrumentalização da literatura”, imposta oficialmente por meio de editais.

Vou um pouco além. Quando a diretora do FNDE admite que um professor da rede básica não sabe lidar com um livro de literatura, isso já representa uma tragédia para o País num momento em que as novas gerações têm o desafio de competir com máquinas. Quando a solução oferecida para esse estágio de “desletramento” nacional concentra forças em manuais e paratextos é possível perceber o fosso das desigualdades se ampliando ainda mais.

No próprio edital vê-se certa incongruência que ronda o novo projeto literário para a rede pública. Enquanto o documento estipula que a leitura da literatura deve incentivar os estudantes a fazerem “uma reflexão sobre si próprios, os outros e o mundo que os cerca”, os acessórios impõem uma leitura única do texto, cercada de apetrechos pedagógicos que já provaram — não apenas no Brasil, mas na França, Inglaterra, Estados Unidos —, que não tornam a leitura um hábito prazeroso nem formam leitores de uma vida inteira.

Do ponto de vista pedagógico, reconheço ferramentas que contribuem de forma decisiva para a mediação da leitura. Mas isso é muito diferente de tratar a literatura como algo que pode ser enquadrado em manuais. Não apenas a literatura corre perigo. Uma nova geração de leitores — ainda que poucos — pode simplesmente desaparecer.