Blog do Eliomar

General tucano apregoa a transformação do Ceará numa “Ilha de segurança”

Da Coluna Política do O POVO desta quarta-feira, assinadas pelo jornalista Henrique Araújo, com o título “A Ilha do General”:

Aposta da oposição na disputa pelo Governo do Estado, o general Guilherme Theóphilo deu a tônica ontem do que deve ser a espinha dorsal de sua campanha. Em entrevista ao jornalista Luiz Viana, da Rádio O POVO/CBN, o pré-candidato tucano disse que quer transformar o Ceará numa “ilha de segurança”. Acrescentou ainda que “falta autoridade” no Estado.

Ora, é justo o contrário. O crime atua hoje como um hub. Não é brincadeira. O banditismo vem agindo em rede há muito mais tempo do que as polícias. Quando o centro de inteligência prometido pelo governo do Estado era menos do que é hoje, ou seja, sequer era promessa, as facções já haviam transformado o Ceará num entreposto de conexões altamente sofisticadas.

Daqui partiam remessas de drogas e armamentos para o exterior. Aqui também passavam férias os expoentes das organizações criminosas e eventualmente fixavam residência. Caso dos ex-líderes do PCC mortos no início deste ano.

Em meio à crise que se seguiu às chacinas das Cajazeiras e às mortes dos “cabeças” da facção paulista, o ministro da Justiça de Michel Temer, num raro momento de sinceridade, chegou a dizer que quem conquistasse o Ceará, levaria também o Nordeste. Torquato Jardim não se referia ao turismo, mas à cadeia do tráfico de drogas, que havia criado tentáculos no sistema carcerário brasileiro. Do Rio e São Paulo, esses grupos espalharam-se pelo restante do País. Hoje, de dentro dos presídios, comandam negociações aqui fora. Expedem ordens de assassinato e toques de recolher. É assim que o crime funciona. Como uma empresa cuja lógica é o lucro que recorre a métodos de barbárie para manter os interesses dos negócios, praticando um capitalismo genuinamente selvagem.

É precisamente aí que desanda o sonho do general de instituir no Ceará uma ilha de segurança. Como as facções estão conectadas e atuam num esquema interestadual, qualquer tentativa de combatê-las que não parta de uma articulação nacional – uma força-tarefa dos entes federativos – será meramente o que é: promessa de campanha.

Mas há outro ponto na fala do general que merece atenção: a crítica a uma suposta falta de autoridade no Estado. É até possível que falte mesmo, e nisso opositores e governistas haverão de concordar: as facções ganharam um largo terreno no Ceará exatamente pela demora em entender a real extensão do problema que elas representavam. Era 2015, e talvez, naquele momento, fosse possível evitar que essas organizações ganhassem a capilaridade que têm hoje, mas o governo preferiu alimentar o discurso de que as sucessivas quedas no índice de homicídios eram resultado do acerto das políticas públicas. Logo descobriríamos que não era bem assim. Pagamos alto preço por essa negação da realidade.

Todavia, aqui estamos novamente diante de uma questão complexa que requer inteligência e efetividade no emprego de recursos – humanos e orçamentários. Não é caso somente de autoridade, como sugere a resposta voluntariosa do general. Do contrário, bastaria que cada estado brasileiro elegesse um militar e o pusesse no poder. Alguns até devem tentar neste ano. Os desafios do Brasil, porém, não cabem dentro dessa cartilha populista. Há de se destacar um terceiro aspecto na entrevista do pré-candidato: seu absoluto compromisso com o estado democrático de direito ao rechaçar qualquer hipótese de volta do regime militar. E também ao condenar expressamente a intervenção na segurança pública do Rio de janeiro. Para Theóphilo, trata-se de “decisão unilateral do Executivo” com objetivo “meramente político”.