Blog do Eliomar

Nova democracia: pós-democracia

Em artigo no O POVO deste domingo (1º), o professor universitário Manfredo Araújo de Oliveira avalia o processo de modernização da economia, quando o conhecimento passa a ser fonte de valorização. Confira:

Em que mundo estamos? Que significa o processo modernizante que legitima os projetos do atual governo brasileiro?

Muitos analistas do mundo contemporâneo consideram os anos 70 como início de um longo período de crise da forma de organizar nossa vida social que se aprofundou dramaticamente em 2008 e que aponta seus limites básicos. A questão fundamental é o que se poderia denominar “crise do trabalho”: o capital não consegue mais adquirir de sua principal fonte de valorização _ a exploração do trabalho_ a quantidade de mais valor que constituía a base de unidade de seus ciclos e ondas expansivas. Este processo se concretizou enquanto financeirização da economia. O resultado é a degradação revelada do sistema: massas de desempregados(no Brasil 13%), trabalho escravo, terceirização, precarização e flexibilização através da retirada de direitos, etc. Nossa economia estaria passando por um gigantesco processo de modernização ao fazer do conhecimento sua fonte de valorização, autonomizando-se do trabalho vivo o que significaria o alcance de sua etapa superior.

Como pensar Estado/Democracia neste novo contexto? O cientista político inglês C. Crouch propõe a expressão “pós-democracia” para a compreensão dos processos de transformação provocados por isto na esfera da política. Nosso momento é curioso: há um funcionamento formal pleno das instituições democráticas, mas a dinâmica democrática desaparece. Vê-se a presença de seus sintomas nas sociedades atuais: desaparecimento dos limites rígidos do exercício do poder, crescimento do pensamento autoritário com aprovação significativa de segmentos da sociedade, sociedade do espetáculo, decisões políticas se deslocando da arena democrática para pequenos grupos. Conserva-se a fachada democrática, mas as decisões, na realidade, são tomadas pela direção das grandes corporações transnacionais, pelos mercados, pelas agências de classificação, etc. Isto se torna mais problemático em países, como os da América Latina e da África onde a luta pela efetivação dos direitos básicos da pessoa humana está longe de se completar. No Sul global, para Crouch, torna-se mais evidente a ruptura com o Estado Democrático de Direito e com os valores da democracia liberal, até mesmo a fachada de democracia desaparece.

P. Dardot e Ch. Laval defendem a tese de que o Estado pós-democrático é o estado compatível com o neoliberalismo que transforma tudo em mercadoria e defende a tese de acabar com todos os limites ao exercício do poder econômico. A luta para repor estes direitos como referência fundamental de uma organização da vida societária se revela como o desafio político central de nossa época.