Blog do Eliomar

Cobrança de responsabilidades

Com o título “Cobrança de responsabilidades”, eis o Editorial do O POVO desta sexta-feira 12/09:

Brasileiros e estrangeiros de todos os quadrantes estão abismados e horrorizados com a intensificação do clima de violência e de intolerância políticas, no Brasil, durante as últimas semanas, mas que já espocara muito antes do período eleitoral. A bestialidade já contabiliza espancamentos, lesões físicas, tentativas de morte e até a consumação de assassinatos por puro ódio a quem pensa diferente. Discussões que antes eram apenas expressões de discordâncias normais passaram a ter grande possibilidade de desfecho sangrento. Agride-se até quem apenas porta um símbolo de seu ideário, ou quem ostente gênero, classe social ou cor da pele não assimiláveis por olhos preconceituosos.

Esboça-se um perfil tão brutal e tosco de convivência, só visto – em alguns aspectos – em episódios de ruptura muito localizados, na história nacional. E nunca como uma ameaça capaz de generalizar-se, como agora, desatando um medo difuso que se infiltra por todos os poros da sociedade. Nada justifica tamanho desembestamento.

Antes que as coisas cheguem a um ponto de não-retorno é preciso que vozes ponderadas da sociedade (e as instituições legitimadas para isso) entrem em cena para apaziguar os ânimos, traçar diretivas e suscitar um clima de trégua democrática. Evidentemente, a imagem de homem cordato atribuída como parte da constituição cultural do brasileiro já era desmentida nos desvãos da sociedade “bom-mocista”. Mas, se pode dizer que isso comumente era tido como surtos de anomalia – e continua sendo assim entendido pela maioria dos cidadãos – mas, não dá para esconder a História. Basta lembrar a degola de prisioneiros em insurreições regionais ou contra o cangaço. Não se deve brincar com monstrengos do ódio acorrentados em escuros porões da sociedade, e sempre capazes de aproveitar qualquer brecha para escapar.

Não vamos brincar com isso, imaginando que sempre teremos o controle.

Antes que os segmentos lúcidos e pacificadores entrem em campo, é preciso que os cabeças das forças concorrentes sinalizem muito claramente para seus seguidores que não validam e até condenam explicitamente eventuais comportamentos agressivos, desrespeitosos e antidemocráticos por parte de seus correligionários. E devem, eles próprios, ser o exemplo referencial. Pois já o são, de qualquer forma, para o bem ou para o mal.

A democracia não pode aceitar correr o risco de ser destruída pela irracionalidade e falta de abertura humana e democrática de quem quer que seja. A sociedade tem a obrigação de enquadrar quem não assuma suas responsabilidades para com o conjunto da cidadania. Aos recalcitrantes, o peso dos instrumentos e dos mecanismos da democracia. Sobretudo, da autoridade maior: a Constituição.

(Editorial do O POVO)