Blog do Eliomar

A Canonização de Dom Óscar Romero

Com o título “Canonização de Dom Óscar Romero”, eis o Editorial do O POVO desta quinta-feira:

Repercute nos meios católicos e democráticos da América Latina a canonização, no último domingo, de dom Óscar Romero, arcebispo de San Salvador, assassinado, em 1980, quando celebrava uma missa, depois de ter feito, no dia anterior, fortes críticas ao regime repressivo então vigente no país. Mártir da democracia e da justiça social, vitimado pelo fascismo latino-americano, sua chegada aos altares é vista como um antídoto à intolerância política que se estende pelo continente.

Dom Óscar Romero é o exemplo marcante do quanto a radicalização política de um país pode descambar para uma irracionalidade sangrenta e cruel e provocar vítimas aos borbotões, inclusive inocentes, como ele. Nomeado arcebispo de San Salvador, em 1977, viu-se, de repente, no meio de um acirramento político incontornável.

A democracia àquela altura estava muito combalida e faltava diálogo completo entre as forças políticas e sociais com vistas a um programa capaz de unir o país. Houve um crescendo de denúncias de repressão do governo contra os movimentos que reivindicavam reformas sociais. A repressão passou a atingir movimentos ligados à Igreja e logo dom Romero se confrontou com assassinatos de leigos e sacerdotes que se postavam ao lado da democracia e da justiça social.

Diante desse quadro, o arcebispo, até então considerado conservador, viu que não podia se omitir, e passou a denunciar as injustiças e perseguições, ao mesmo tempo em que fazia apelos em favor de uma solução democrática, onde todos pudessem apresentar seus pontos de vista e construir uma saída pacífica, negociada.

Fizeram-se ouvidos surdos a todos seus apelos.

O ódio era tanto, que dom Romero foi assassinado enquanto celebrava a missa, em 24 de março 1980, na capela de um hospital.

Na hora da elevação do cálice, recebeu um tiro no peito, dado por um atirador de elite do exército salvadorenho, treinado na Escola das Américas, que se escondera no coro da capela. A gota d’água havia sido um apelo que o arcebispo fizera no dia anterior, diretamente aos soldados: “Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: ‘Não matarás!’ Ninguém deve obedecer a uma lei imoral () “. A partir daí, soltaram-se todas as bestas da guerra civil entre a extrema direita e a esquerda guerrilheira que duraria 12 anos e custaria 75 mil vidas.

As investigações levaram ao mandante do crime: o político de extrema direita e ex-oficial do exército Roberto D’Aubuisson. Contudo, nunca foi punido. Quando, finalmente, se conseguiu sua condenação – em 2017 – haviam transcorrido 34 anos. E o criminoso já tinha morrido. Óscar Romero, no entanto, tornou-se imortal, como todos heróis da paz, da justiça social e da democracia.