Blog do Eliomar

Ninguém solta a mão de ninguém

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Em artigo no O POVO deste sábado, a jornalista Letícia Alves aponta que a rejeição popular a Bolsonaro não deve se sobrepor ao desejo de um País melhor. Confira:

A frase que intitula este artigo começou a ser compartilhada no domingo mesmo, após a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência do Brasil ser confirmada. A rejeição inicial ao candidato eleito por parte dos que não o escolheram é natural e, desde que não seja também uma rejeição à democracia, legítima. Afinal, o pleito não define só quem comandará o País, mas também quem ocupará o papel de oposição. Se Bolsonaro foi escolhido para presidir o Brasil, sobrou ao PT de Fernando Haddad ocupar as fileiras de combate no Congresso Nacional. É assim que a política funciona lá em Brasília.

Essa rejeição popular ao novo presidente, porém, não deve se sobrepor ao desejo que todos devemos ter – seja quem votou em Bolsonaro, em Haddad ou nulo – de um País melhor. Dia desses vi um colega que compartilhou nas redes sociais “ninguém solta a mão de ninguém” publicar que não torce para que Bolsonaro faça um bom governo. Na gana egoísta de poder dizer “eu avisei” ao fim do mandato, ele soltou a mão dos milhões de desempregados e dos milhares que morrem todos os anos vítimas da violência e da falta de estrutura dos hospitais públicos.

Convenhamos, não é essa a atitude que se espera de um cidadão que respeita a democracia e que se preocupa com o seu País. Ao longo da semana, deparei-me com vários outros exemplos de falas antidemocráticas e, inclusive, histéricas. Publicações que incitavam o medo nas pessoas, medindo o perigo não de acordo com situações reais que se apresentavam, mas com o próprio temor que se sentia. Observei que, muitas vezes, o pânico era de estar errado.

Do outro lado, vi gente eufórica pregando o fim dos seus adversários – ou melhor, inimigos políticos e corroborando com o pavor criado. Vi colegas da imprensa sendo humilhados e até agredidos fisicamente em nome do pedido de uma “imprensa imparcial”. Li notícias de violência relacionada ao contexto político.

Concordo com a tal frase. As eleições acabaram, e é tempo mesmo de dar as mãos. Todos nós, seja lá em quem tenhamos votado, sofremos com brigas na família, fomos chamados do que não somos e perdemos amizades, nos últimos meses, por causa de política. O momento agora é de união: se todos votamos acreditando que a nossa escolha era a melhor para o Brasil, é possível ter esperança de um País seguro, rico e feliz. E, quem sabe, ainda manter o interesse político para cobrar o cumprimento de promessas e protestar contra o que não é bom. Ninguém solta a mão de ninguém.

Letícia Alves, jornalista do O POVO