Blog do Eliomar

Governo Bolsonaro confunde as coisas: apoio não é favor

331 5

Da Coluna Política, no O POVO deste sábado (5), pelo jornalista Érico Firmo:

O governo Jair Bolsonaro (PSL) demonstra duas posturas distintas em relação à crise no Ceará. O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, e o secretário nacional de Segurança Pública, general Guilherme Theophilo, mostraram abertura, postura de colaboração e disponibilidade. Rapidamente disponibilizaram apoio e autorizaram o envio da Força Nacional. Foi a esfera técnica e a postura foi irretocável. Já na política?

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) e o vice-presidente, general Hamilton Mourão (PRTB), tiveram postura inadequada, como não se dando conta de que já estão nas funções para as quais foram eleitos. O presidente disse: “Ele (Moro) foi muito hábil, rápido e eficaz para atender ao Estado, cujo governador reeleito é uma oposição radical à nossa”.

Bolsonaro prossegue: “Nós jamais faremos oposição ao povo de qualquer estado. E o povo do Ceará precisa nesse momento. As medidas já foram tomadas. Faltava por parte do governo do Ceará se enquadrar, e via ofício informar, da real necessidade da presença da força pela sua incapacidade de resolver o problema”.

Já Mourão, segundo o site O Antagonista, chutou o balde para a lua. “O problema é do governador, que sempre tratou mal a PM. E pelas informações que recebemos, 40% do efetivo da polícia está de férias agora. Como ele pode deixar isso?”. Completou: “Ele quer jogar no colo da gente. É a velha tática do PT”.

Bolsonaro confunde as coisas e Mourão erra feio. O presidente faz menção descabida ao fato de ser governo opositor. Na esfera administrativa, na relação federativa, isso não deve vir ao caso, jamais. Dizer que não fará oposição ao povo de nenhum estado não é favor, é obrigação. Nem é novidade.

Presidentes e governadores sempre trataram de tentar preservar relações federativas, sem prejuízo de divergências políticas. Fernando Henrique Cardoso (PSDB) tinha ótima relação com Zeca do PT, do Mato Grosso do Sul. Quando era governador de Minas Gerais, as pessoas esquecem, a relação de Aécio Neves (PSDB) com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) era também muito boa.

E nem precisam gostar uns dos outros. O Governo Federal tem atribuições nos estados. Governadores devem demandar a União, dentro dos papéis institucionais. Não me recordo de o presidente da República politizar de tal forma a relação administrativa com Estado, ressaltando como mérito o fato de não praticar preconceito ideológico.

Quanto a Mourão, errou a mão feio. Nem discuto se o diagnóstico está certo ou errado. Ele é vice-presidente da República. Não condiz com sua função comprar briga com governador de Estado em crise, no quarto dia de mandato. Que belo cartão de visitas! E politiza a questão de modo que Bolsonaro diz não fazer. “Ele quer jogar no colo da gente. É a velha tática do PT”. O PT tem tática de jogar as coisas no colo do Bolsonaro? O partido estava na Presidência até 2016 e Bolsonaro era deputado. O que jogava no colo dele? Não tem nem lógica.

O governo Camilo errou? Claro que errou. É o quatro ano de mandato, sucedendo oito de governador aliado. Se chega a tal situação não é como resultado de trabalho exemplar. É até pertinente que o novo Governo Federal aponte os problemas que vê numa questão na qual foi chamado a intervir. Mas isso precisa ser conversado. Não cabe em bravata para a plateia. No calor da crise, o momento é de resolver.

Como escrevi ontem, o segundo governo Camilo tem teste que pode definir, desde já, o sucesso ou fracasso do mandato inteiro. A depender da resposta que for capaz de dar. Mas o governo Bolsonaro também está em teste. Muita gente, inclusive no Ceará, votou nele na esperança de ter mais segurança. Também é primeira situação na qual precisará mostrar como irá se portar.