Blog do Eliomar

A gestão empresarial fazendo a diferença na expansão do agronegócio

Em artigo sobre economia, o consultor financeiro Fabiano Mapurunga, Mestre em Administração com ênfase em Finanças e MBA em Gestão Financeira e Controladoria, aponta que sem o uso de uma gestão técnica com foco em resultados, não há como extrair o necessário para a sustentabilidade do negócio. Confira:

Variáveis macroeconômicas e microeconômicas, nacionais e internacionais, variações climatológicas, complexidade da matriz tributária brasileira, dentre outros, são alguns dos pontos que fazem parte do contexto de assuntos a serem administrados pelos atores do Agronegócio no Brasil. Fica bem evidente que sem o uso de uma gestão técnica com foco em resultados, não há como extrair o necessário para a sustentabilidade do negócio.

O complexo emaranhado de ações comerciais nacionais e internacionais, vem causando fortes variações nas expectativas de resultados dos empresários, nos resultados econômicos e na rentabilidade das empresas. Os produtores que não estiverem se adaptando a tais realidades, não conseguirão se manter neste mercado globalizado. Não há mais como contar apenas com a experiência e o empirismos dos produtores, pois os baixos preços dos produtos finais, proveniente da entrada de novas tecnologias e do oligopsônio na venda da produção, somado ao aumento dos preços dos insumos, às estruturas e os custos financeiros e à elevada carga tributária praticada, determinam a necessidade do uso de uma gestão empresarial efetiva para se obter o necessário para a sustentação do agronegócio brasileiro.

Vários fatores como as escalas produtivas mal utilizadas, retiradas de caixa desproporcionais, endividamento além da capacidade de geração de caixa, o que pode inviabilizar o futuro da empresa. Pouca capacidade de gerenciamento e total falta de planejamento para suportar os períodos de preços baixos e custos altos, além da não existência de distinção entre as funções familiares e empresariais, fazem aumentar de forma exponencial os riscos da produção.

Vamos agora fazer uma descrição global de algumas das variáveis que precisam ser oportunamente, gerenciadas, para que se tenha um agronegócio com gerenciamento mais eficiente.

A – MISTURA DE ASSUNTOS ENTRE A EMPRESA E A FAMÍLIA

Em empresas ligadas ao agronegócio, normalmente verificamos uma forte dificuldade em se dividir os assuntos familiares e os empresariais. Muitas vezes se constata uma sobreposição dos problemas familiares sobre os problemas da empresa. Fica muito complicado se classificar com clareza a origem dos problemas e suas causas, logo fica muito difícil se encontrar as possíveis soluções para o equilíbrio do funcionamento da estrutura.

Não vamos fugir do fato de sempre ter existido uma completa mistura entre a família e a empresa, mas vamos convir que com os avanços das atividades econômicas e sociais, as empresas têm sido cobradas, cada vez mais, a serem mais competitivas. Logo precisamos entender, que as relações que os comportamentos que mantém uma família unida, são bem mais diferentes em uma empresa que precisa ser rentável. A estrutura deve ser montada em função da capacidade profissional de cada componente da família.

É preciso se entender que uma empresa só existe para gerar lucro e benefícios sociais aos seus componentes.

A própria composição de variáveis de riscos (climáticos, financeiros, mercadológicos, etc) fica mais complexa ainda, quando se entende que o risco administrativo ou gerencial, pode conduzir tudo a bancarrota total.

É muito importante se definir quais os direitos e deveres de cada componente da família que pretende trabalhar na empresa. Estipular horários de trabalho, atividades a serem desenvolvidas, retiradas financeiras bem como ter uma regra bem específica para tomada de decisões. Pode-se criar uma espécie de Conselho Consultivo, onde as decisões poderão ser tomadas com as participações de gestores familiares e consultores externos.

Muito importante também, programar a capacitação contínua dos integrantes da família e de seus colaboradores, em áreas que vão desde a tecnológica até a empresarial ou de gestão.

B – VEJAMOS OS PROCESSOS DE GESTÃO

Salientamos que concentrar esforços apenas em produzir pode ser necessário, mas não suficiente. Precisamos entender que os resultados de qualquer empresa não são definidos apenas produzindo de uma maneira contínua. É necessário que se empregue uma visão global do macro e do micro ambiente da empresa para se assegurar sua viabilidade atual e futura. Vemos aqui que se faz necessário e imprescindível, ter informações muito atualizadas e organizadas para que se consiga administrar de maneira mais eficiente os recursos produtivos, e assim atingir todas as metas e objetivos traçados no planejamento da empresa.

Entende-se que a Gestão é um processo que atua de forma circular e contínuo, que precisa ter como ponto de início a Análise e o Diagnóstico, dos resultados produtivos, econômicos, financeiros e patrimoniais do último exercício, bem como as causas dos resultados e os recursos produtivos que estão à disposição. Daí o processo se reinicia pela retro-alimentação oriunda das informações produtivas e econômicas do exercício anterior para o atual.

Visualizando a figura acima, podemos entender que a análise e o diagnóstico proporcionam o conhecimento sobre o passado da empresa e assim conhecer suas limitações e seus pontos positivos (fortes e fracos). Já com o planejamento e a decisão, nos permitem descobrir as alternativas de produção no futuro e assim decidir, de forma estratégica, quais as nossas melhores opções econômicas e financeiras.

A organização e a execução do plano produtivo que escolheremos, responderá quando, como e quem conduzirá o processo e quais informações deverão ter registro. Ao final e durante o processo do exercício presente, deveremos realizar o controle e avaliação dos resultados, o que nos dará a base necessária para a análise e o diagnóstico do próximo exercício.

C – ADMINISTRAÇÃO DO RISCO AGROPECUÁRIO

Precisamos agora buscar dirimir riscos e aumentar as certezas.

Possuímos dois grupos de riscos nas empresas agropecuárias: riscos da atividade e riscos financeiros. O primeiro nasce das características peculiares da atividade e o segundo nasce pela estrutura financeira da empresa.

Vamos agora subdividir os riscos:

De Atividade:

• Riscos de produção ou técnicos: são os pertinentes às atividades produtivas, os quais podem gerar diferentes resultados no seu produto final. Exemplo: riscos climáticos, riscos sanitários, etc.

• Riscos de mercado e preço: referentes às variações nos preços dos produtos ou insumos durante o ciclo produtivo.

• Riscos tecnológicos: a possibilidade de as tecnologias utilizadas hoje, serem obsoletas amanhã.

• Riscos legais ou sociais: são concernentes às possíveis mudanças que supostamente poderão ocorrer nas políticas impositivas, comerciais, creditícias e ambientais.

Financeiros:

• Riscos de liquidez: possibilidade que a empresa possui em não cumprir suas obrigações e curto prazo. Ele pode acarretar em um sequencial endividamento de longo prazo, e pode levar a liquidação ou venda da empresa.

• Riscos de insolvência: é a possibilidade de não se atender à cobertura das dívidas ou obrigações financeiras pela venda dos seus ativos. O resultado disso é uma indisponibilidade de crédito, o que obrigará a desenvolver suas atividades apenas com os seus saldos de caixa diários. Isso dificulta a reestruturação da parte financeira da empresa;

• Riscos de falta de reserva de crédito: se constitui da possibilidade de não possui crédito em um momento específico por estar com todas as suas garantidas já comprometidas. Neste caso a empresa precisará suas contas contraídas, para reestruturar sua condição creditícia.

Vamos agora entender como dirimir estes riscos

Após termos feito a devida identificação dos nossos riscos, precisamos agora montar uma estratégia, ou um conjunto de estratégias para diminuir cada risco existente. Para melhor entendimento, vamos classificar essas estratégias em:

PRODUTIVAS, COMERCIAIS e FINANCEIRAS.

Estratégias Produtivas:

• Seleção e definição da atividade produtiva;

• Determinação de onde será desenvolvida essa atividade;

• Diversificação de atividades;

• Uso de tecnologias provadas;

• Seleção de práticas tecnológicas;

• Modelos de incentivos ao trabalho bem realizado;

• Sistema de produção flexíveis para responder a situações de risco;

• Melhorias na produção.

Estratégias Comerciais

• Escolha de atividades com baixa variabilidade de preços;

• Armazenamento e venda do produto em diferentes momentos;

• Programar vendas ao longo do ano;

• Fixação de preços com antecipação (mercado de futuros/ a termo e opções);

• Contratos para compra de insumos;

• Sistemas de produção flexíveis para responder rapidamente às situações de risco;

• Integração vertical;

• Desenvolvimento da marca.

Estratégias Financeiras:

• Redução de custos (fixos e variáveis);

• Estabelecer uma maior proporção de ativos como ativos líquidos;

• Proporcionar a coincidência dos pagamentos das dívidas com a geração de receitas;

• Investir em financiamentos de longo prazo (parcelas anuais mais cômodas);

• Manter uma boa margem de endividamento;

• Constituir um aumento de patrimônio em relação à dívida;

• Alugar ou terceirizar ativos (maquinários, equipamentos e terra);

• Diversificar capital (outras opções de investimentos).

Estrategicamente o foco é a obtenção da eficácia plena em seus resultados, já a eficiência fica mais a cargo do nível operacional, pela utilização dos recursos disponíveis.

D – INFORMAÇÕES DA EMPRESA

Assim como em qualquer outra empresa, a informação se constitui como um dos maiores ativos da empresa agropecuária, primando sempre pela quantidade e pela qualidade dos fatores produtivos disponíveis, dos níveis de produtividade atuais e potenciais, da tecnologia utilizada, da capacidade empresarial, dentre outros.

As informações servirão para se administrar os níveis mínimos necessários para o desenvolvimento das atividades da empresa. Vamos classificar essas informações em:

• Produtiva/ técnica;

• Econômica;

• Financeira;

• Patrimonial.

Vejamos agora exemplos de indicadores da empresa:


Hoje o empresário do agronegócio deve responder a três questões de importância econômicas básicas:

• O quê produzir?

• Como produzir?

• Para quem produzir?

Antes responder apenas ao COMO, era suficiente, mas a complexidade dos mercados exige bem mais para se tomar decisões.

O próprio processo de produção exige avaliação do antes, do durante e do depois, para que se possa extrair uma grande quantidade de fatos que podem influenciar nos resultados da empresa. Logo, continuamente vão sendo gerados dados para tomadas de decisões.

Para termos mais esclarecimento, vamos dar alguns exemplos de dados: quantidade de milho e soja produzidos, quantidade de sementes utilizadas na semeadura, dosagem dos herbicidas e inseticidas utilizados, receitas geradas pela venda do milho e da soja, etc.

Os dados de maneira bruta não nos indicam muito, logo é necessário se estabelecer uma ordem e sentido para que sejam transformados em informação.

Quando os registros dos dados se dão após o acontecimento do fato e nos posicionamos longe do tempo do processo que os originou, o registro poderá vir sem muito valor agregado.

As informações deverão receber a classificação de técnicas ou produtivas, econômicas, financeiras e patrimoniais, para se estabelecer um melhor processo de tomada de decisões. Desta maneira cada fato ocorrido na empresa, gerará informações que servirão de bases para as tomadas de decisões pela geração de indicadores.

D. 1 – Informações Técnicas

Precisamos entender a qualidade e a quantidade dos recursos produtivos que a empresa conta: terra, capital e trabalho. É necessário que se faça um inventário ordenado e detalhado dos fatores de produção.

Como exemplo o fator terra: precisamos saber a quantidade total disponível para produção, a a qualidade de seus solos, a capacidade e a condição atual de uso.

No fator Capital, avaliamos as informações sobre melhoramentos realizados, maquinários, instalações, estoques de produtos e insumos, tomando cuidado para registrar quantidade, data da aquisição, etc.

Para o fator Recursos Humanos, levamos em conta o conhecimento sobre o tempo de ocupação, bem como a capacidade de mão de obra permanente e temporária.

Determinar sempre:

COMO são utilizados os fatores produtivos;

QUAIS atividades são realizadas;

QUANTO;

COMO são realizadas.

Vamos dividir as atividades em dois grandes grupos:

A. AGRICULTURA: soja, milho, etc.

B. PECUÁRIA: bovinos de corte, suínos, ovinos, leite, etc.

D.2 – Informações Econômicas

Veja que a informação técnica permite determinar, controlar e avaliar como foi e como poderá ser o resultado durante o próximo exercício produtivo. A informação econômica permite quantificar do ponto de vista econômico ao resultado financeiro.

O modelo mais utilizado para se determinar o resultado econômico é o método das margens brutas parciais ou totais, também conhecido como margem de contribuição, que poderá se dar por produto, por atividade ou pela margem bruta global.

Logo, precisamos ter consciência que o resultado econômico, é dependente das receitas e dos gastos diretos e indiretos que são gerados pela produção na propriedade.

+ RECEITAS DIRETAS: receitas em dinheiros que surgiram da comercialização durante o exercício produtivo.

+ RECEITAS INDIRETAS: corresponde à produção daquele exercício produtivo, que não foi vendida em dinheiro, tendo como exemplo, os produtos consumidos pelos funcionários da fazendo e proprietários, ou as diferenças de inventário das atividades de bovinos e dos estoques de produtos agrícolas e pecuários.

– GASTOS DIRETOS: correspondem aos pagamentos em dinheiro em função das compras de bens ou serviços. Exemplo; insumos, mão de obra, etc.

– GASTOS INDIRETOS: são todos os gastos que não possuem como contrapartida a saída de dinheiro. Exemplo: amortizações, depreciações, juros, etc.

MARGEM POR PRODUTO, POR ATIVIDADE E GLOBAL DA EMPRESA

Determinaremos os gastos diretos pela verificação dos gastos com maquinário defensivos, sementes, mão de obra, amortização direta (corresponde ao valor econômico da depreciação, colheita, comercialização, frete, custos de seguro de risco por preço e clima).

Para os custos diretor pecuários levaremos em conta: sanidade, alimentação, mão de obra, reposição do gado, amortização, frete, etc.

RECEITA BRUTA – GASTOS DIRETOS = MARGEM BRUTA POR PRODUTO (soja, milho, etc)

Somando estes últimos, chegaremos às margens por atividades Agrícola e Pecuária, que somadas darão a Margem Total da empresa.

RESULTADO OPERACIONAL = GASTOS INDIRETOS – MARGEM BRUTA TOTAL

Importante salientarmos que os gastos indiretos se darão independentemente das atividades produtivas realizadas. Ou seja, produzindo ou não, estarão presentes no custo total da empresa. Exemplo: Impostos Territorial Rural, mão de obra de estrutura, gastos administrativois, telefone, etc.

MARGEM LÍQUIDA = RESULTADO OPERACIONAL – DEDUÇÕES EM DEPRECIAÇÕES DE INVESTIMENTOS E MELHORIAS

RENTABILIDADE = MARGEM LÍQUIDA / ATIVO MÉDIO UTILIZADO NO EXERCÍCIO

Importante informar que todos os indicadores, com exceção da rentabilidade econômica, deverão ser expressos em valores totais e por unidade de superfície (Margem Bruta/ ha, Gastos Diretos/ ha, Receita/ ha, Margem Líquida/ ha).

Um dos cálculos mais importantes é o do PE (Ponto de Equilíbrio), bem como a relação Receita Líquida/ Gastos Diretos.

O Ponto de Equilíbrio constitui a produção mínima a ser alcançada para que se possa cobrir os custos diretos do processo produtivo.

A relação Receita Líquida por Gastos, demonstra que, por cada Real gasto em insumo quantidade de reais que gastamos, quantos Reais obtemos de receita.

Mede o grau de risco com o qual estamos produzindo. Por exemplo, para o caso da soja essa relação deveria ser 2:1.

INTERPRETANDO OS INDICADORES

• MARGEM BRUTA/ ha: permite avaliar a eficiência econômica de uma empresa de forma comparativa, ao longo do tempo e, também entre atividades e produtos. Podemos avaliar a eficiência da produção tomando como base os objetivos a serem atingidos.

• MARGEM LÍQUIDA/ há: medida que, se mantido o sistema de produção estável, poderá ser utilizada para avaliar pagamento de dívidas, retiradas dos proprietários e projeções de crescimentos por intermédio de investimentos. Um baixo valor deste indicador leva à descapitalização da empresa e à redução do seu nível de vida. Caso a empresa não leve em consideração as amortizações ou depreciações, para reserva de capital, esta não possuirá capital próprio disponível para realizar investimentos.

• MARGEM BRUTA TOTAL: é o resultado das margens de cada atividade

Algumas questões que podem ser respondidas com a ajuda dos indicadores acima:

A. O que ocorrerá se a produtividade das culturas for menor do que a estimada?

B. O que ocorrerá se os preços diminuírem?

C. O que ocorrerá se o endividamento for mais elevado do que o projetado e tivermos que pagar arrendamento?

AGORA VAMOS ENTENDER UM POUCO SOBRE A ESTRUTURA DE CAPITAL DA EMPRESA

1. ATIVO: Capital total da empresa. Pode ser constituído da seguinte forma:

• Disponibilidades: capital efetivo em dinheiro. É o mais líquido disponível (Caixas, Bancos, Investimentos, poupanças, etc)

• Créditos de terceiros: contas a receber, retiradas e créditos.

• Estoques: produtos e insumos que serão comercializados no futuro

CAPITAL CIRCULANTE: Disponibilidades + Créditos + Estoques

2. PASSIVO: partes do Ativo que não são propriedade da empresa.

• Dívidas comerciais;

• Dividas Financeiras;

• Outras dívidas.

3. PATRIMÔNIO LIQUIDO: Diferença entre o ATIVO e o PASSIVO, e representa o capital próprio da empresa.

O Patrimônio varia por três razões:

• Pelo resultado econômico da Produção (Margem Líquida);

• Pela oscilação da valorização dos bens em relação à inflação;

• Pelo manejo financeiro da empresa.

Bem, acredito que esse agrupamento de informações vá ajudar a fazer uma melhor gestão do seu agronegócio e assim conseguiremos cada vez mais aumentar a participação deste tema no PIB Brasileiro.

Fabiano Mapurunga

Consultor em Finanças e Negócios. Mestre em Administração com ênfase em Finanças. MBA em Gestão de Negócios. MBA em Gestão Financeira e Controladoria. Professor Universitário