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O Desenvolvimento da Ciência, o desemprego estrutural e o aumento da longevidade humana

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Com o título “O Desenvolvimento da Ciência, o desemprego estrutural e o aumento da longevidade humana”, eis artigo de João Arruda, sociólogo e professor da Universidade Federal do Ceará. “(…) se não nos prepararmos para o futuro imediato, discutindo a formatação de eficientes políticas públicas que funcionem como uma malha de proteção aos milhões de longevos brasileiros desamparados, o nosso futuro será funesto”, diz o texto. Confira:

Estamos assistindo, em escala universal, a uma acalorada discussão sobre as consequências, no médio prazo, do rápido desenvolvimento da ciência e da tecnologia sobre o mercado formal de trabalho e seus reflexos sobre a vida concreta do cidadão.

Na contramão da história, o brasileiro vivencia um momento de particular alienação, envolto em crenças messiânicas, em dogmas maniqueístas, extremo sectarismo e, em consequência, em muita irresponsabilidade e irracionalidade política. Infelizmente, a temática que trata do nosso futuro imediato não faz parte da agenda ou mesmo das preocupações dos partidos políticos, dos sindicatos, dos chamados movimentos sociais e, muito menos, das nossas universidades, todos encapsulados em um universo de fantasias, oxigenado por picuinhas estéreis e por motivações anacrônicas e politicamente microscópicas.

Enquanto isso, o quadro nacional de desemprego já é o maior da nossa história. Segundo dados do IBGE, divulgados em maio de 2018, o número de desempregados e subempregados já se aproxima dos 30 milhões e nada nos garante que essa realidade vai mudar, mesmo no cenário de um possível crescimento da economia. Esta situação é particularmente apreensiva. São recorrentes os registros da mídia sobre a exclusão do trabalho humano provocada pelo avanço da tecnologia em todos os ramos da economia. O desenvolvimento vertiginoso da tecnologia da informação e o salto conseguido pela inteligência artificial vêm aprofundando rapidamente o quadro de exclusão social, transformando os nossos trabalhadores em um exército de seres inúteis e descartáveis.

Há uma expectativa, quase consensual entre os estudiosos, de que nos próximos 20 anos ocorram mudanças radicais no mercado de trabalho, com a extinção da maioria das profissões hoje existentes e o surgimento de novas ainda não conhecidas. Esse quadro será agravado pelo fato da economia do século XXI ser crescentemente poupadora de mão-de-obra.

Paralela às mudanças no mundo do trabalho, o desenvolvimento da engenharia genética e da nanotecnologia vêm permitindo que a medicina regenerativa quebre paradigmas e tabus religiosos. Os laboratórios das grandes universidades e os grandes centros de pesquisa, contando com o apoio da impressora aditiva 3D e usando biotinta formada por células e nutrientes, já produzem tecidos orgânicos, ossos, cartilagens, músculos, ´peles, vasos sanguíneos, etc. Segundo publicação da revista Advanced Science, na sua edição de abril de 2019, pesquisadores da Universidade de Telavive acabam de produzir um coração vivo. Pelo visto, caminhamos para um aumento indefinido da longevidade humana, passando a morte a se tornar, no médio e longo prazo, uma questão técnica.

Refletindo esse desenvolvimento, o homem ciborg deixou de pertencer ao campo da ficção e já faz parte da nossa realidade. A engenharia cibernética vem conseguindo fundir o mundo orgânico ao inorgânico. Em muito em breve, preveem os cientistas, os nanorrobôs estarão navegando em nossas correntes sanguíneas diagnosticando doenças e corrigindo danos.

Ironicamente, o mesmo desenvolvimento científico que vem garantindo o crescimento progressivo da longevidade humana, permitindo que possamos sonhar com a imortalidade, uma utopia sonhada pela humanidade desde sempre – não podemos desconhecer que a geração de humanos que ultrapassará um século de existência já nasceu, e logo teremos a geração dos 130 anos, dos 150 anos, etc. – é a mesma que produz o desemprego em massa e que condena a sua velhice ao degradante papel de párias sociais.

Pela irreversibilidade dos fatos, é fácil concluir que, se não nos prepararmos para o futuro imediato, discutindo a formatação de eficientes políticas públicas que funcionem como uma malha de proteção aos milhões de longevos brasileiros desamparados, o nosso futuro será funesto. Se nos omitirmos agora, se continuarmos nesse mundo de alienação, seremos responsabilizados pela grande tragédia humana anunciada. Seremos, enfim, condenados como responsáveis pela miséria de dezenas de milhões de irmãos idosos condenados a vagarem como zumbis, em busca de misericórdia dos poderosos incluídos.

*João Arruda,

Professor da UFC e sociólogo.

(Foto – Arquivo)