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Artigo – “As Exigências do Mundo Digital e os Desafios da Educação Brasileira”

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Com o título “As Exigências do Mundo Digital e os Desafios da Educação Brasileira”, eis artigo de João Arruda, sociólogo e professor da UFC. No texto, um dado preocupante neste cenário: “Pesquisa da Universidade de Harvard, EUA, afirma que 44,5 milhões de trabalhadores brasileiros perderão seus empregos nas próximas décadas para a automação do trabalho.” Confira:

A humanidade vem testemunhando um processo de mudança sem precedente em sua história. A tecnologia da informação, motor da nova economia, vem se expandindo em escala planetária, impondo seu padrão tecnológico e substituindo as obsoletas formas de organização produtiva em todos os países do globo.

Nesse mundo conectado, ninguém está imune aos avanços e efeitos dessa nova tecnologia. O desenvolvimento exponencial da inteligência artificial – IA -, da nanotecnologia, da engenharia genética, da medicina regenerativa, da robótica e o surgimento constante de novas tecnologias disruptivas vêm impondo mudanças rápidas e radicais no mundo do trabalho, passando o futuro a ser incerto e desafiador.

As habilidades cognitivas, que antes nos garantiam superioridades absolutas sobre as máquinas, já fazem parte do passado. A IA começa a superar os humanos na maioria das suas habilidades, alijando milhões de trabalhadores por inadaptação ao mundo digital. Algoritmos inteligentes vêm substituindo, com eficiência, os trabalhos rotineiros dos humanos, avançando, inclusive, na compreensão da subjetividade humana.

Preocupada com os efeitos nocivos desse novo padrão tecnológico sobre os países em desenvolvimento, a chefe da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), Alicia Bárcena, alertou, na sede da ONU, que 65% de todas as crianças do planeta que entram hoje na escola primária terão empregos e profissões que ainda não existem. Na mesma direção, o relatório do Fórum Econômico Mundial, intitulado o Futuro do Trabalho, é categórico: 65% dos alunos que estão começando o Ensino Fundamental terão profissões hoje inexistentes.

Sobre os efeitos da tecnologia da informação sobre o mercado de trabalho brasileiro, o jornal O Globo, na sua edição de segunda-feira, 19.08, citando dados de pesquisadores da Universidade de Harvard, EUA, afirma que 44,5 milhões de trabalhadores brasileiros perderão seus empregos nas próximas décadas para a automação do trabalho.

O mais grave dessa tragédia anunciada é constatar que o Brasil não se preparou para o futuro que se aproximava. Mesmo com inúmeros alertas de que o sistema educacional brasileiro, da educação infantil à universidade, deveria estar preparando a nossa juventude para os desafios do mundo digital, a temática nunca foi pautada como prioridade pelos nossos governantes, pela sociedade brasileira. Os movimentos docentes e discentes, antes vanguarda da sociedade na defesa na qualidade da educação brasileira, hoje estão na retaguarda, todos envoltos em anacrônicas querelas ideológicas do meado do século XX.

O futuro chegou e o quadro da educação brasileira é assustador. Segundo o último PISA, Programa Internacional de Avaliação de Estudantes da OCDE, o Brasil é detentor de uma das piores educação básica do mundo. A UNESCO, braço da educação e cultura da ONU, divulgou que em um ranking com 127 países que mede o desempenho na educação, o Brasil ficou na vergonhosa 88ª posição.

Se a qualidade da educação básica é comprometedora, o mesmo ocorre com o ensino superior. Segundo ranking divulgado pela Times Higher Education (THE), organização britânica especializada em avaliações de universidades, das 1.250 universidades avaliadas de 86 países, somente 15 universidades brasileiras fazem parte do Ranking. O mais humilhante é não termos uma só universidade entre as 200 melhores.

A precariedade do nosso sistema educacional, do ensino básico à universidade, é inconteste: além da péssima qualidade do ensino, ele está alienado, havendo um enorme abismo separando a sala de aula e a realidade do mundo real. Nosso sistema educacional precisa ser urgentemente reinventado para poder enfrentar os desafios do mundo digital. Repetindo o que já é quase consenso entre os estudiosos da educação brasileira, nosso país tem um sistema educacional obsoleto e carcomido, tendo nossas escolas e universidades perfis do século XIX, com professores e conteúdos programáticos do século XX e com alunos e realidades do século XXI.

À exceção de algumas áreas de excelência, nossas universidades pararam no tempo e as aulas continuam baseadas na memorização e centradas na figura dos professores. Seus currículos continuam padronizados, regulamentados, fragmentados, sem nenhuma visão sistêmica e desprezando a importância da interdisciplinaridade. É triste constatar que os nossos alunos continuam sendo preparados para atuar em trabalhos repetitivos e em profissões que não mais existirão.

Temos que nos conscientizarmos de que no mundo dominado pela tecnologia da informação, o aluno passa a ser o grande protagonista da educação. O papel do professor de transmitir conhecimentos prontos e acabados, passou. A sala de aula deve ser o lócus da efervescência, ser mais laboratório e menos anfiteatro. Sua dinâmica não comporta mais os estreitos limites do caderno e do quadro negro. Neste ambiente de criação, o papel docente é de estimular a pesquisa, as habilidades de cada aluno, estimular a capacidade criativa e inventiva discente, preparando para resolver problemas complexos.

Afinal, se as universidades não estão conseguindo formar bem nossos jovens para profissões estabelecidas e há tempos consolidadas, como poderemos lhes proporcionar condições de empregabilidade num cenário de grande fluidez de conhecimento e de tecnologias disruptivas?

João Arruda

Sociólogo e professor da UFC