23 adolescentes assassinados por mês no Ceará

“Grávida de seis meses, a adolescente completou 16 anos e mal teve tempo de celebrar. Minutos antes da festa surpresa, uma bala lhe atingiu o peito, tirando sua vida e a do filho que carregava. O acusado “todo mundo sabe quem é”. “Ele vende droga pro pessoal daqui das bocadas”, aponta a mãe da adolescente, diarista, de 39 anos, moradora da periferia de Fortaleza. Saído da prisão havia poucos meses, ele queria reatar um namoro que findou três anos antes. “Ela dizia que não queria que o filho (de um outro relacionamento) fosse sustentado com dinheiro de drogas”, chora a mãe.

Passados cinco meses, a mãe ainda tenta retomar a rotina normal. “Minha filha era tudo na minha vida. Era minha amiga, mãe, irmã. Nós não ‘tinha’ segredo uma com a outra. Eu só penso que ela vai voltar. Imagino que ela não morreu e quem morreu foi eu”, lamenta a mãe. A menina é uma entre os 164 adolescentes, de 12 a 17 anos, que foram assassinados no Ceará de janeiro a julho de 2010, de acordo com estimativa da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS).

Isso significa uma média de 23 adolescentes mortos por mês no período. O número corresponde ainda a 9,8% do total de homicídios (1.659) registrados neste ano no Ceará. O POVO inicia hoje uma série de matérias sobre estes jovens, que tão cedo, têm se tornado alvo da violência.

Em todo o ano de 2009, a SSPDS estima que 276 adolescentes foram assassinados. Faltando quatro meses para acabar, 2010 registra 59,4% do número de adolescentes assassinados no ano anterior. Já em 2008, foram 217 assassinatos de adolescentes. De acordo com a vice-presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Comdica), Flor Fontenele, por trás dessas mortes, existe todo um cenário de exclusão social e falta de políticas públicas. “A maioria dessas mortes tem relação com tráfico de drogas”, afirma.

O não acesso a direitos básicos, como educação, saúde, formação profissional, associado a desajustes familiares e ao uso de drogas, tem exposto os adolescentes à violência. Para Flor, bairros com altos índices de violência costumam ter o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). “São lugares onde mais morrem adolescentes e eles mais cometem atos infracionais. O adolescente cresce sem ter tido direitos na vida inteira e, sem oportunidade, a única coisa que sobra é virar bandido”, lamenta.

Para o advogado e assessor de defesa da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) de Fortaleza, Marcus Giovani, a violência não tem uma causa única. “A gente tem que se questionar sobre quem está morrendo e matando no Brasil. São pessoas de sexo masculino, negras e moradoras da periferia”, lamenta. Segundo ele, vivemos numa sociedade onde o consumo é uma ideia muito recorrente e para a pessoa fazer parte do tecido social tem que consumir. “E, infelizmente, muitos adolescentes vivem num contexto de distribuição de renda muito mordaz. Eles estão excluídos do direito a consumo, incluive, aos mais básicos”, reforça.

>> O POVO opta por não identificar a menina assassinada, bem como sua mãe, por motivo de segurança, já que o responsável pelo crime ainda não foi punido.

(O POVO)

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

Um comentário sobre “23 adolescentes assassinados por mês no Ceará

  1. Será esse o tal de “novo Ceará” que o Cid Gomes está construindo? Abandonou os jovens que hoje sem ter mais o que fazer(no governo Lúcio haviam vários cursos profissionalizantes realizados pela Secretaria de Empreendedorismo e várias atividades desenvolvidas pela Secretaria do Esporte e Juventude, que o Cid Gomes logo que assumiu extinguiu as duas secretarias e consequentemente suas atividades).estão entregue às drogas e a marginalidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 × 1 =