A reinvenção da privacidade, e da falta dela

Da coluna Política, no O POVO deste sábado (19), pelo jornalista Érico Firmo:

No Brasil em geral e no Ceará em particular, 2013 foi marcado por vários episódios que colocaram em evidência, de diferentes modos, os limites da privacidade em tempos de redefinição da esfera pública.

No começo de abril, Cid Gomes (Pros) e alguns dos seus mais graduados aliados tiveram emails espionados. O deputado Eudes Xavier (PT) – sem revelar como teve acesso às informações privadas do governador e de seus interlocutores –, informou que a arapongagem contra a cúpula do governo do Ceará revelou plano para fazer com a oposição aquilo que adversários já faziam com eles: o Palácio da Abolição planejaria contratar a multinacional Kroll para espionar o ex-prefeito de Maracanaú, Roberto Pessoa (PR).

Polícia Civil e Polícia Federal investigam o assunto, computadores de Roberto Pessoa chegaram a ser apreendidos, sem que fosse encontrado nada que o incriminasse. Passados seis meses, não se sabe ainda quem espionou quem, mas é certo que algumas das mais altas autoridades do Ceará tiveram as vidas vasculhadas. Por ora, vai ficando por isso mesmo.

Em setembro, reportagem veiculada pelo programa Fantástico, da TV Globo, mostrou que documentos secretos vazados pelo ex-analista da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) Edward Snowden, revelaram que a presidente Dilma Rousseff foi alvo de espionagem americana.

Uma semana mais tarde, revelou-se que a Petrobras foi outro alvo da arapongagem da NSA. As revelações provocaram rebuliço diplomático, que levou ao cancelamento da visita que Dilma faria a Washington, na próxima quarta-feira (23), e que seria a mais importante de um chefe de Estado brasileiro aos Estados Unidos em mais de uma década.

Agora, a pendenga se dá fora da esfera do poder propriamente dito, mas com sua interface econômica. Trata-se da polêmica sobre a restrição a biografias. Um aspecto subjacente é o incômodo com o lucro alheio ao explorar a vida particular. Acho o debate cabível, mas a questão central é outra: o controle ou não do potencial biografado sobre a publicação de aspectos de sua vida privada. Não defendo que ninguém aceite a difamação, a injúria, a irresponsabilidade ou a leviandade. Além do próprio atingido, a sociedade como todo não pode tolerar tais posturas. Mas para isso existe a Justiça e a vítima pode e deve exigir seus direitos. Coisa bem diferente é instituir-se qualquer coisa que remotamente se aproxime de censura prévia. Igualmente inaceitável é tal nível de restrição editorial que só sejam permitidas as insípidas biografias autorizadas. É ilusão acreditar que restringir a liberdade é caminho para assegurar direitos. Nunca foi e nunca será.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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