Acquario será monumento ao absurdo

Da Coluna Fábio Campos, no O POVO desta quinta-feira (4):

Retorno das (sempre) curtas férias. A volta ao trabalho impõe a leitura do que passou. Deparo-me com a seguinte notícia no O POVO (24/05): “Não haverá empréstimo para o Acquario, segundo Eunício Oliveira”. É grave. Muito grave. Muito menos pelo fato de não haver empréstimo, mas sim pela sequência de decisões que, segundo o senador, fará com que o mesmo não seja aprovado.

Sim, Eunício foi derrotado na eleição para governador. Está na oposição. Tem motivos para implicar. Porém, é um senador importante. Já presidiu a Comissão de Constituição e Justiça do Senado, é líder do PMDB na Casa e, há anos, compõe a cúpula do PMDB.

O ponto central da argumentação do senador para justificar o seu ponto de vista é o seguinte: o Governo Federal não pode aprovar financiamentos de obras que já estão em andamento. Os pedidos de empréstimos públicos só financiam obras em fase de projeto.

Por isso, na versão do senador, o pedido de empréstimo (R$ 330 milhões) internacional que o Ceará apresentou ao Eximbank dos Estados Unidos, nem sequer será enviado pelo Ministério do Planejamento para avaliação do Senado. Entendem a dimensão do problema?

Aqui, tenho apontado a irresponsabilidade e a temeridade que é iniciar uma obra pública, ancorada em empréstimo internacional, sem que o mesmo nem sequer houvesse sido liberado. O mínimo de austeridade e compromisso público teria evitado a barbeiragem.

Vejam a situação: o Governo do Ceará iniciou a obra sem que o empréstimo fosse aprovado e gastou toda a parte que lhe cabia de contrapartida (U$ 45 milhões). Hoje, a obra está parada e, segundo o senador, não haverá dinheiro do pretendido empréstimo internacional.

Caso a assertiva do senador seja verdadeira, a obra do Acquario vai virar um monumento ao absurdo. Dificilmente será finalizada e não se prestará a outra coisa que não seja a demolição. Assim, será enterrada a decência, além dos 45 milhões de dólares solenemente sugados do bolso dos cearenses.

O projeto do Acquario é exclusivamente fruto da mente do ex-governador Cid Gomes. A ideia saiu de sua cabeça. Os fundamentos técnicos, todos superficiais, vieram em seguida por encomenda de quem decidiu tocar o projeto.

O projeto arquitetônico beira a vulgaridade. Tudo em plena praia de Iracema, em meio a um singelo casario, à beira mar. Até hoje, mesmo que o empréstimo fosse real e a obra tivesse prosseguido, não se sabe qual o modelo de gestão do sofisticado e complexo equipamento.

Meses atrás, já havia se dado outra surpresinha. O Acquario precisava de um imenso estacionamento. Bobagem, não? Resolve-se assim: desapropria-se o prédio residencial que fica em frente. Este será demolido para dar lugar aos carros e ônibus.

Não ficou nisso. O Acquario é grandioso. O maior da América Latina. Não basta ligar na tomada pra funcionar. Foi então que se descobriu a necessidade de uma usina termelétrica para fazer o grandioso equipamento funcionar e manter as temperaturas constantes e ideais dos habitats dos 35 mil animais.

Problema? Qual nada. Simples de resolver: é só montar uma termelétrica a gás em plena Praia de Iracema. Ora, não liguem para os impactos que isso terá naquela delicada área da cidade. Pegam-se mais R$ 16 milhões do bolso dos ricos cearenses e pronto.

É inacreditável a sucessão de imperícias que cerca o caso.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

2 comentários sobre “Acquario será monumento ao absurdo

  1. Sobre o prisma da essência do exercer a Política, que é FAZER O BEM COMUM, esse “Aquário” contrasta por ser uma prova cabal do descuido e do absurdo, da incompetência (administrativa, técnica e ambiental), do descaso, da incerteza e do desperdício do dinheiro do erário público, que todo brasileiro pagou e ainda deve está pagando, e não só os cearenses. E isso no momento em que os cearenses sofrem sérias restrições de recursos hídricos com as sucessivas secas verdes. É isso que dá a velha e lamentável tradição cearense de baixar a cabeça para o rei do momento. Se ninguém contesta o rei, este provavelmente vai fazer o que lhe der na sua telha/mente. E isso não é bom. O resultado está aí. E a tão desejada refinaria!?.

  2. Tudo isso aconteceu porque o governo anterior que é o chefe do Executivo, engessou os poderes Legislativo e Executivo com cargos comissionados, criação de gratificações absurdas e por aí vai. Enquanto isso a população cearense está agonizando por falta de água, segurança e saúde. E essa crise vai longe.

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