Afinal de contas, quem quer doutrinar quem?

silvan

Em artigo no O POVO deste sábado (16), o jornalista Carlos Mazza comenta do projeto da deputada Dra. Silvana, que coíbe manifestações artísticas que “ataquem ou ridicularizem” religiões e seus símbolos. Confira:

Dizendo-se perseguida por sua atuação religiosa, a deputada Dra. Silvana (PMDB) propõe um seminário que debata na Assembleia as “diferenças entre Estado laico e laicista”. A discussão é complexa por si só e, permeada por interesses, torna praticamente impossível um debate franco, em que um lado de ideias pré-estabelecidas não tente apenas se sobrepor ao outro.

Não tenho razões para duvidar das boas intenções da deputada – em sua atuação, Silvana pode realmente se sentir perseguida por sua fé. A reflexão, no entanto, se faz urgente: O que é, de fato, um Estado “laicista”? Existe hoje no Brasil, País que a cada eleição apinha mais e mais pregadores entre bancadas no Congresso, uma onda para censurar a representação religiosa? Qual foi a última lei que feriu o direito à manifestação religiosa?

As perguntas, se respondidas com franqueza, derrubam por terra a tese do “laicismo”. Até a última semana, a Presidência da Câmara era ocupada por um dos mais notórios evangélicos do País. Ao longo do último ano, dezenas de planos municipais e estaduais de Educação em todo o País foram alterados por religiosos para remover trechos que não interessavam a “Jesus”.

Exemplos do tipo se multiplicam no debate público e, principalmente, nas urnas. Na prática, os que dizem representar a religião têm ficado geralmente mais no lado que delega do que no que é delegado.

No Ceará, a própria Silvana tem histórico nesse sentido. Em maio, a deputada atuou para remover do Plano Estadual de Educação o direito de transexuais do uso do nome social em documentos escolares – retirando do segmento um direito garantido em lei. Anos antes, deu parecer pela rejeição de um ramal de teledenúncia voltado para crimes homofóbicos. No mesmo dia, ela havia aprovado projeto igual, mas voltado para idosos.

Agora, Silvana apresentou projeto que prevê ação de PM e multas de até R$ 370 mil para manifestações artísticas que “ataquem ou ridicularizem” religiões e seus símbolos. Apesar da pesada pena, ela alega que o projeto não é censura. Deparada com a óbvia reação de setores contrários, a deputada que quer falir artistas se diz perseguida.

No caso do plano de Educação, bancada religiosa da AL alegava que a medida era “doutrinação” LGBT. Fica a pergunta: afinal de contas, quem quer doutrinar quem?

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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