Agonia

Em crônica enviada ao Blog, o jornalista Nicolau Araújo faz homenagem ao Dia do Amigo, neste domingo (20). Confira:

Era noite da véspera do casamento da sinhazinha Maria com o seu noivo Alberto, quando ouvi um barulho na janela do quarto da noiva, que ficava na parte de cima da casa.

Com cuidado, subi as escadas e entrei escondido no quarto. Era Alberto, que forçava a janela segurando um crucifixo em uma das mãos.

– Eu não falei que encontraria o crucifixo de minha mãe! Sorriu o satisfeito noivo, diante da preocupada noiva, que temia em interromper o sono do pai, coronel Andrade, famoso no sertão por preservar o moral e os bons costumes, além de já ter surrado mais de cinquenta homens, dentre os quais cinco ex-noivos da sinhazinha.

– Pois é. Tive que cometer esta ousadia em invadir o seu quarto para manter a tradição da minha família. Noiva na minha família tem que casar com este crucifixo para ter um lar feliz. Foi assim com minha tataravó, com minha bisavó, minha avó, com mamãe e agora você! Sorriu novamente o noivo, com a sensação da missão cumprida.

– Você é louco, quer acordar o meu pai?! Não dava para esperar pela manhã? Desesperou-se a noiva, tratando de empurrar o noivo de volta para a janela.

– Calma, você sabe que eu sou supersticioso. O noivo não pode ver a noiva no dia do casamento, antes da cerimônia. Além disso, seria muito azar o seu pai acordar. A gente não está fazendo nada… Justificou Alberto.

– Que barulheira é essa, aí? Gritou um vozeirão do outro lado da parede, já se deslocando para o quarto da sinhazinha.

Naquele instante não sei o que estrondava mais, se as passadas do coronel, com seus dois metros de altura e 140 quilos de peso, ou se as aceleradas batidas dos corações dos noivos.

Com um metro e sessenta e cinco centímetros de altura e pouco mais de sessenta quilos de peso, Alberto saltou para debaixo da cama de sinhazinha, como um campeão olímpico de mergulho. Ao cruzar seu olhar com o meu, o noivo quase não consegue sufocar o grito de pavor.

– Que murmúrios eram esses que eu ouvi do meu quarto? Reclamou o coronel, com um chicote na mão.

Com as mãos trêmulas, olhar assustado e apertando o crucifixo contra o peito, sinhazinha gaguejou: – Eu apenas estava rezando para a felicidade de nossa família, painho…

Olhando para os quatro cantos do quarto e com uma respiração ofegante, o coronel insistiu: – Antes de entrar no quarto eu ouvi um barulho debaixo desta cama, vamos ver o que é…

Antes que o terror aumentasse, sai debaixo da cama e comecei a fazer a maior bagunça no quarto, inclusive rasgando o tapete persa pelo o qual o coronel pagou uma fortuna.

– Cachorro maldito! O que você faz no quarto da minha filha, quando deveria estar cuidando da segurança da fazenda?! Chutou-me o coronel para fora do quarto, ainda aplicando-me duas seguras chicotadas.

No dia seguinte não me surpreendi ao ficar de fora da festa que salvei. Preso no canil, sentia o cheiro do churrasco no ar. Porém, quase no final da festa, não pude esconder a emoção ao ver sinhazinha Maria e o seu noivo Alberto entrarem no canil com um grande pernil de porco. Senti-me recompensado.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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