Ah, que saudade da Igreja Católica mais altiva!

Com o título “O amém à ignorância”, eis artigo do jornalista e sociólogo Demétrio Andrade. “Tenho saudade da Igreja que luta pelos pobres, que se preocupa com mais vigor com a desigualdade social e que tem opiniões mais fortes em relação aos desmandos políticos do país”, diz o articulista no texto. Confira:

Dia desses me peguei conversando com meu filho mais velho sobre religião. Sempre incentivei em minhas crias a postura do questionamento. E – vou dizer – a cada dia, aumentam as razões para que as pessoas – principalmente os mais jovens – que tenham o mínimo espírito crítico desconfiem das instituições e personagens ligados à religião, nas suas mais diversas manifestações. É bom lembrar que, apesar de manter índices superiores a 50%, as igrejas também entraram no rol de descrédito das instituições brasileiras.

Como católico, tenho que confessar: não tá fácil convencer ninguém. Tenho saudade da Igreja que luta pelos pobres, que se preocupa com mais vigor com a desigualdade social e que tem opiniões mais fortes em relação aos desmandos políticos do país. Acho profundamente lamentável parte dos que se dizem seguidores de Jesus endossarem manifestações contra exposições artísticas em museus ou reclamando de conteúdos publicitários ou televisivos, defendo absurdos inócuos como “escola sem partido” ou “ideologia de gênero”, em nome da “tradição, família e propriedade”, enquanto o país afunda. Paciência tem limite.

Além do que, os debates por aí andam tão acirrados e de baixo nível que fica difícil conversar mantendo uma argumentação razoável. Mais do que isso: retomam polêmicas do século passado, coisas que eu pensava que já haviam sido varridas para o lixo da história. Para onde me viro, vejo pessoas tentando rotular umas às outras, usando diferentes formatos de preconceito e discriminação, num lamaçal de intolerância de onde parece que ninguém consegue sair.

É fácil perceber que, pintado este quadro tosco, há duas consequências que considero graves para as instituições religiosas. A primeira, o afastamento natural de quem possui uma formação libertária e democrática, acostumado a conviver com diferenças. A segunda, tão ruim quanto a anterior, é a aproximação de pessoas que se identificam com este tipo de discurso de quinta categoria. Nesta dinâmica, a onda medieval ganha respaldo institucional.

Este tipo de pessoa de veia retrógrada varia seu comportamento entre o despreparo intelectual e a má-fé, pois é incapaz de realizar uma exegese – se é que sabe o que isso significa – num texto bíblico, apelando para interpretações fundamentalistas para as mais variadas situações do cotidiano. São indivíduos que não conseguem separar fé e razão, ciência e religião. Não enxergam que é prejudicial à sociabilidade humana misturar convicções íntimas com políticas públicas. Atacam quem não consideram “normal” – como se tivessem autoridade divina para determinar o que diabo seria isso – só porque não comungam dos seus pensamentos. Sobra para praticantes de religiões minoritárias, orientações sexuais alternativas, artistas que ousam não se enquadrar na mediocridade e por aí vai.

Pessoalmente, acho a falta de fé um problema. Mas nada é pior do que um ignorante que se acha inteligente só porque acredita em Deus. Temos problemas graves, à sua escolha: ração pra pobre, volta da escravidão e da censura, empoderamento de traficantes, destruição da natureza, precarização do trabalho, destruição da soberania nacional, cortes orçamentários na ciência e na cultura, quebra do estado de direito e da democracia. Quem não enxerga isso, e está mais ocupado em reparar detalhes da vida alheia, está dizendo amém à uma postura cínica, hipócrita e, aqui pra nós, bem longe daquele tal mandamento do “amai-vos uns aos outros”, atualmente talvez esquecido atrás de algum boleto dizimista.

*Demétrio Andrade,

Jornalista e sociólogo.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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