A apropriação das festas de fim de ano pelo mercado

Com o título “O Natal de cada um”, eis artigo do jornalista e sociólogo Demétrio Andrade. Ele aborda o clima natalino e a chance de todos se questionarem sobre o novo que pode nascer dentro de nós e nos dar felicidade. Confira:

Um dos desafios de quem trabalha com texto é justamente, quando chegam as chamadas efemérides – as datas comemorativas que se repetem –, tentar inverter a lógica do “mais do mesmo” e criar algo novo. Neste contexto, o Natal é, talvez, a tarefa mais difícil. Não só porque é um evento que ocorre todos os anos, mas principalmente porque se trata de uma data onde milhões de belas mensagens são criadas, a maioria expressando desejos sinceros de um mundo melhor. A emoção explode em cada palavra, mesmo naquelas pessoas que não gostam do período e criticam – com razão – a apropriação das festas de fim de ano pelo mercado.

Talvez observar a imagem de Jesus pequenino, num estábulo, seja o primeiro bom exercício de se tentar extrair dali algo novo. Mas tais imagens também são infinitesimalmente reproduzidas: a lição de simplicidade, de dignidade independente da condição social, de grandeza que vai além do que é aparente. Mas reside justamente aí a grande lição: a “novidade” está em pararmos e percebermos a quantas anda o Natal de cada um. A partir do Cristo, realizarmos também um movimento de renascimento. A “novidade”, paradoxalmente, não está no novo: ela permanece encravada em nós, escondida em algum lugar, desde os primórdios da raça humana.

O convite que o Natal nos faz é, a partir do exemplo do Cristo, extrairmos de nós o que parecia morto, esquecido num canto qualquer, colocado em segundo plano: a busca por nossa felicidade. Jean Paul Sartre, filósofo existencialista francês, ensinava que “a felicidade não está em fazer o que a gente quer, e sim, em querer o que a gente faz”. A pergunta de hoje é: “você quer fazer o que você está fazendo? É isso de fato o que lhe traz felicidade?”.

Fico imaginando agora quantos, há quanto tempo, não haviam tido coragem de se fazer este questionamento. O Menino na manjedoura dá a dica de que é possível ser feliz com pouco, não porque se quer o mínimo ou porque seja pecado desejar algo mais, mas porque, essencialmente, para quem sabe, no seu íntimo, o que quer na vida para ser feliz, o muito exterior não significa absolutamente nada. O Natal vendido pelo mercado mostra desejos como necessidades. Presentes como tarefas. Festas como obrigações. Não à toa muitos se deprimem. O ser humano não é um escravo dos quereres materiais. O ser humano, citando novamente Sartre, “está condenado à liberdade”. E a poetisa Cecília Meireles dizia que liberdade é uma palavra que não se explica, mas que não há quem não entenda.

Creio então que a mensagem de Jesus é esta: somos livres, independente de raça, cor, credo, posição social para escrever nosso caminho em busca da felicidade. Não somos escravos de um modelo de Natal imposto pela sociedade. Somos livres para construir, dia após dia, o nosso próprio Natal. E que ele venha com a descoberta, em cada um de nós, da nossa infinita capacidade de amar a si mesmo e ao próximo.

Feliz Natal!

* Demétrio Andrade,

Jornalista e sociólogo.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

Um comentário sobre “A apropriação das festas de fim de ano pelo mercado

  1. O problema do cristianismo é que lida com a hipocrisia que é feita em seu nome. O articulista remete ao consumismo numa festa que deveria primar pela exaltação dos princípios cristãos da humildade, da renúncia, da simplicidade, da austeridade, da fraternidade. Mas, sabe-se que o articulista é militante de um partido, o PT, ao qual serviu na administração fracassada da Luiziane Lins, que, através de seu líder maior, Lula, incensou o consumismo. Lula pregou: consumam, consumam, consumam. E ele deu incentivos às empresas capitalistas multinacionais – às quais ele é ligado desde o movimento sindical do ABC paulista na década de 70 – das montadoras de carros e a linha branca, a motos. Por quê o jornalista Demétrio não vai ao ponto e bate de frente com o “Barba”? Ora, ora, ora, deixe de lorota, homi. E eu digo é vôte!

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