As razões da insegurança

Da coluna Política, no O POVO deste sábado (20), pelo jornalista Érico Firmo:

O que torna uma sociedade mais violenta que outra? Não há resposta única, simples ou exata. Os mesmos fatores podem ter efeitos diferentes em lugares distintos. Pobreza e falta de educação são comumente apontados como determinantes. Mas a Índia, por exemplo, tem indicadores de miséria mais extremos que os do Brasil e piores números de escolaridade. E a criminalidade é incomparavelmente menor. Haiti, Nigéria e Gabão são outros exemplos de locais com taxas de homicídios menores. Apontam-se também as desigualdades sociais como causa preponderante. Mas também a Índia é tremendamente desigual, inclusive com sistema de castas, que ainda perdura.

No caso brasileiro, a desigualdade diminuiu de modo gradual nas últimas décadas, mas a violência avançou na direção contrária. Assim como costuma se dizer que avião não cai por um único motivo, dificilmente um fator isolado levaria a colapso na segurança pública como se vive no Brasil, em particular no Ceará. É o caldeirão com alguns desses ingredientes e outros mais que constrói o cenário. Processo que quase sempre ocasiona aumento da criminalidade é a metropolização, sobretudo porque o crescimento é desordenado como regra.

No caso de Fortaleza, há como componente extra a estratégia de reação individual à insegurança, sobretudo nas áreas nobres, que são muros mais altos e calçadas e espaços públicos vazios. Característica que costuma estar sempre presente é a Polícia e Justiça ineficazes em identificar autoria de crimes e punir os responsáveis. Tal aspecto é preponderante para o avanço de formas mais sofisticadas de crime, como sequestros e assaltos a banco, que eclodem de forma cíclica no Ceará. E cujas causas não se enquadram no uso de crack, o “mordomo” da vez para explicar todas as mazelas da segurança pública no País.

Nessa multiplicidade de motivos, entre os mais relevantes – até porque produto de muitos dos citados acima – está a tensão social. Resultado, sim, da miséria, da desigualdade, da falta de oportunidades, do medo. Mas, também da forma de relação que se constrói com o aparelho de segurança. No mundo todo, os exemplos mais bem-sucedidos de combate ao crime passam pela relação de confiança da população em relação à sua Polícia. Sentimento de proximidade e proteção, não de temor. Por isso é tão ruim que a perspectiva de polícia comunitária do Ceará tenha sido abortada sem nem sequer ter sido adotada de fato. Ao invés de instrumento de paz, o braço do Estado na segurança é ingrediente extra para ampliar essa tensão.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

Um comentário sobre “As razões da insegurança

  1. Mais uma vez o brilhante Érico Firmo nos brinda com matérias corajosas que não são discutidas por nossos vereadores, deputados e senadores.

    E ele já mostra a causa de tudo:
    “Resultado, sim, da miséria, da desigualdade, da falta de oportunidades, do medo’.
    Acrescento somente a impunidade.

    E também essa matéria do jornalista Lula Vilar.

    A revista semanal VEJA aponta uma radiografia de Murici e diz que a cidade “parou no tempo”; atribui ainda uma causa: o domínio dos Calheiros na região.

    Mais uma reportagem para a lista de denúncias e reflexões para Calheiros e aliados se explicarem. Uma informação dada pela revista (ao menos) é incontestável: a família do senador Renan Calheiros se reveza no poder em uma cidade que é bem agraciada por verbas federais e – como a realidade da maioria dos municípios alagoanos – ainda sofre com a miséria; com a dependência destes recursos.

    Claro que a miséria no interior do Estado de Alagoas não é exclusividade de Murici. A própria capital alagoana sofre com isto. É gigante a parcela de maceioenses abaixo da linha da pobreza. Aliás, o Estado como um todo é pobre e sobrevive de repasses, convênios e empréstimos. O que é alvo de crítica de opositores, inclusive de peemedebistas locais.

    Mas, em linhas gerais, quem foram sempre os mandatários do poder? Quem sempre esteve ocupando cargos importantes enquanto esta história era construída? São os mesmos que a cada quatro anos possuem a coragem de se apresentarem como novidades.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

10 − 6 =