A carta na manga de Cid Gomes

Da coluna Política, no O POVO desta quinta-feira (20), pelo jornalista Ítalo Coriolano:

Quem acompanha a carreira política do governador Cid Gomes (Pros) sabe que ele é um estrategista de mão-cheia. Dono de paciência singular, ele espera os movimentos de seus opositores para só então mexer as peças de seu xadrez com jogadas quase sempre surpreendentes. De deixar seus adversários sem muita opção de escolha. A primeira fase de sua estratégia foi um tiro certeiro no alvo. PSB e PR mostraram suas armas para a disputa, apresentando os nomes, respectivamente, de Nicole Barbosa e Roberto Pessoa. Cid observa, dá um riso de canto de boca. Nada que lhe dispense muita energia. Coube ao irmão Ciro Gomes o comentário mais ácido. “O que reúne esse grupo aí é o cimento do ódio”, disparou.

A partida continua fácil. Atenções exclusivamente direcionadas para sua administração e as dezenas de obras que ele corre contra o tempo para tentar concluir. “Quem me dera mais seis meses de governo…”, tem dito o chefe do Executivo.

Entre um cafezinho e outro, o susto. Eunício Oliveira (PMDB), o senador que ele ajudou a eleger em 2010 e que conseguiu expressivos 2,6 milhões de votos, se coloca quase que de forma definitiva na disputa pelo Governo do Estado. No jornal, Cid lê em letras garrafais: “Eunício será candidato independente do apoio de PT e Pros, diz Raupp”. Trata-se de Valdir Raupp, presidente nacional do PMDB. É hora de fazer uma visita a Brasília.

Primeiro, uma reunião com o futuro ministro chefe da Casa Civil, Aloísio Mercadante, que, à época, ainda comandava a pasta da Educação. Em seguida, encontro com a cúpula do Pros, seu novo partido. O tema da conversa era a participação do grupo no Ministério sob reforma da presidente Dilma Rousseff. Estava quase tudo certo para a legenda recém-criada ficar com o cobiçado Ministério da Integração Nacional. Mas eis que Cid faz toda a comitiva ficar de olhos arregalados ao ignorar o espaço oferecido. Segundo ele, a indicação de um nome para o staff petista não é de longe uma prioridade. A aliança, garante, é ideológica. “Nunca tive o menor apetite por ministério”, declarou.

Não demorou muito para a presidente Dilma, de audição perfeita, chamar o senador Eunício Oliveira para uma conversa com Mercadante. E colocar em suas mãos o comando do Ministério da Integração Nacional. Isso pouco tempo depois de o PMDB espernear pela vaga e a própria comandante do Palácio do Planalto afirmar que ela era inegociável. O parlamentar cearense agradeceu o convite, mas rejeitou a oferta, deixando mais do que claro que não pretende recuar do projeto de chegar ao Palácio da Abolição. “Não seria correto ficar inelegível”, justificou.

Como todo bom jogador, entretanto, Cid Gomes tem uma carta na manga. Um plano B que já vem preocupando apoiadores, atuais e futuros rivais políticos. Ciente de que a superaliança que sustentou seu governo por sete anos está prestes a se esfarelar, ele trabalha para ao menos manter o PT sob seu guarda-chuva. Com uma candidatura do Pros isso ficaria bastante complicado, diante da ameaça do PMDB de abandonar a base da presidente Dilma, dificultando o projeto de reeleição. A saída seria, então, apoiar um nome do próprio Partido dos Trabalhadores. Mas não qualquer um. Alguém umbilicalmente ligado ao clã Ferreira Gomes. Conforme O POVO apurou, o perfil mais discutido é o do ex-secretário das Cidades Camilo Santana (foto). Vinculado ao deputado federal José Guimarães, que tem hoje ampla hegemonia dentro do PT do Ceará, Santana ajudaria Cid a matar vários coelhos numa cajadada só: isolaria Eunício Oliveira – que não teria mais como fazer ameaças e precisaria pensar duas vezes antes de se lançar na disputa-, manteria um palanque forte e, de quebra, barraria uma candidatura da arquirrival Luizianne Lins, que já se colocou à disposição do partido.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

4 comentários sobre “A carta na manga de Cid Gomes

  1. Acho até que é melhor o Eunício ser candidato sem esse clã corrupto. Ele tem uma vida política muito correta para se misturar com esses partidos sujos.

  2. A análise do Ítalo está correta, embora seja ousadia demais para ser assegurada antes do fato consumado. Mas faltou ele acrescentar um outro aspecto, importantíssimo: um nome do PT para o governo resolveria o “problema Guimarães Senador”. Com a vaga para governador, a do senado caberia ao Pros, eliminando todos os desgastes que traria à chapa a candidatura do Guimarães, um nome estigmatizado na capital por força do folclórico episódio dos dólares na cueca e murmúrios ruidosos sobre “causos” no Banco do Nordeste.

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