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Os alunos não querem nada

Em artigo no O POVO deste domingo (26), o sociólogo e professor titular da Universidade Federal do Ceará (UFC), André Haguette, diz que estudantes das escolas municipais regulares não desejam aprender, o que não ocorre nas escolas profissionalizantes. Confira:

Quem frequenta escolas públicas estaduais e municipais ou convive com professores dessas instituições certamente ouviu dos professores, repetidas vezes, que os “alunos não querem nada”, o que explicaria que a média dos anos de estudos é menor no Brasil do que no Mercosul e entre os Brics. Resultados da Prova Brasil 2015 que acabam de ser publicados mostram que, no País, 50% dos estudantes das escolas públicas estaduais e municipais não possuem um aprendizado adequado em português e que 61% estão na mesma situação em matemática; no Ceará, as percentagens são, respectivamente, de 43 e 58. Devemos nos alegrar de estar acima da média brasileira ou nos entristecer de tão frágil e deprimente desempenho?

O sistema educacional brasileiro padece de uma fratura estrutural: uma grande fragmentação. A fratura é a decisiva separação entre a escola particular e a escola pública, que, é sempre bom lembrar, somente foi democratizada (aberta às classes carentes) nos anos 1960 e universalizada, nos anos 1990 do século passado. Talvez essa falha não fosse tão desesperadora se as classes sociais não fossem tão apartadas no Brasil, fazendo com que a classe trabalhadora e os marginalizados no sistema não tivessem nem sequer a oportunidade de entender a importância da escolaridade numa sociedade moderna.

Numa pesquisa em 10 escolas, em 2015, Márcio Pessoa, Eloisa Vidal e eu constatamos uma segunda separação no sistema educacional cearense: escolas profissionalizantes versus escolas regulares. Corroboramos a queixa dos professores de escolas regulares: de fato, os estudantes não desejam aprender, o que não ocorre nas escolas profissionalizantes pesquisadas. Como bem diagnosticou um vigia de uma das escolas profissionalizantes: “estuda aqui somente quer aprender”, tal a exigência da jornada escolar de dois longos turnos. Ficou, portanto, nos pesquisadores o questionamento de saber por que alunos da mesma classe social se diferenciam na vontade de estudar e aprender; o que leva uns a valorizar o estudo e outros, a ignorá-lo? Nossa hipótese foi a seguinte: a atitude dos pais face ao estudo dos filhos.

Numa dissertação defendida na semana passada, Harlon Santos apresentou uma pesquisa junto a pais de escolas profissionalizantes de Fortaleza. Os resultados são robustos: os pais desses alunos não somente querem que os filhos estudem como sabem da importância da aprendizagem para uma vida melhor de seus filhos, se sacrificam para proporcionar-lhes condições de estudos e acompanham seus progressos.

Os resultados dessa pesquisa são absolutamente relevantes para orientar decisões de políticas educacionais. Já que a sociedade se nega a criar um sistema educacional em que filhos de famílias de todas as classes sociais estivessem na mesma escola, é preciso empenhar-se em convencer os pais das escolas públicas regulares sobre a absoluta necessidade do estudo para que seus filhos tenham uma vida melhor do que a deles. Somente essa convicção dos pais é capaz de criar um ambiente doméstico em que haja lugar para que brote o desejo e a vontade prática de estudar; somente assim, a aprendizagem nas escolas públicas encontrará um nível adequado. Claro, isso supondo que os professores queiram ensinar e que as escolas ofereçam meios qualificados.

Papa quer ordenar homens casados

Editorial do O POVO deste domingo (26) diz que papa pensa em ordenar homens casados, diante da escassez do clero. Confira:

O período da Quaresma para a Igreja Católica Romana, embora com menor intensidade do que no passado, ainda continua a mobilizar um grande número de fiéis em demanda de sacramentos e de cerimônias religiosas prescritas para essa época. Trata-se de um período de grande sobrecarga para o clero, sempre insuficiente, em termos numéricos, para atender à multidão de fiéis. Frente a escassez do clero, o papa pensa em ordenar homens casados. A revelação foi feita há poucos dias durante entrevista ao jornal alemão “Die Zeit”.

A prática é muito antiga no ramo oriental da Igreja (tanto na Igreja Ortodoxa como na Igreja Católica Oriental ligada a Roma); ao lado de um clero celibatário há um outro, formado por homens casados. Contudo, os bispos dessas igrejas são retirados do clero celibatário (monges). Nem sempre foi assim: nas comunidades cristãs primitivas, os bispos também eram casados (é o caso de São Pedro e, supostamente, vários apóstolos) e também escolhidos diretamente pelos fiéis. O celibato católico é uma tradição tardia, do início do século XII. Durante todo o período da Igreja Indivisa (primeiro milênio), antes do Cisma de 1054 que separou a igreja ocidental da oriental, o celibato obrigatório nunca foi aceito. Houve uma tentativa de impô-lo, no I Concílio de Niceia, em 325 d.C., Mas foi rejeitada, paradoxalmente, por um bispo celibatário, São Pafúncio: “Não devemos impor uma carga pesada desse tipo sobre os ombros de quem não tem vocação para o celibato”. A intervenção foi acolhida por todos e assim permaneceu até hoje no cristianismo oriental.

Como os últimos papas reconheceram, o celibato sacerdotal não é um dogma, na Igreja Romana, mas apenas uma disciplina que poderia ser revogada se o papa julgar oportuno. Mas se tornou uma tradição na igreja latina. Francisco, no entanto, ainda não a entende como opção para os atuais seminaristas. Para os padres já ordenados, não seria mais possível, já que a tradição não permite sobrepor o sacramento do Matrimônio ao da Ordem. Mas, sim, ordenar homens já casados e aposentados, de longa vinculação com a Igreja (viriprobati), isto é, homens provados.

Trata-se de uma boa notícia para os católicos.

Que venham logo.

Carne Fraca: em quem confiar?

Editorial do O POVO neste domingo (19) aborda a operação Carne Fraca, deflagrada pela PF, há dois dias, contra grandes frigoríficos brasileiros. Confira:

Habituados à rotina de escândalos, revelados a cada fase da operação Lava Jato – na qual os políticos são apontados como os principais transgressores -, os brasileiros foram surpreendidos com mais um escândalo que atinge pelo menos duas das maiores empresas privadas brasileiras, ambas no ramo frigorífico: a JBS e a BRF, nas quais, segundo investigações da Polícia Federal, elas desempenham o papel de protagonistas.

Pelas siglas, pouca gente tomaria essas empresas como próximas do dia a dia de milhões de brasileiros, mas, pelo nome das marcas que controlam, pode-se supor que sejam conhecidas da maioria: Friboi, Seara e Swift (marcas da JBS) – e Sadia e Perdigão (da BRF). Além dessas marcas, elas dispõem de dezenas de outros produtos alimentícios dos mais conhecidos, nos quais consumidores aprenderam a confiar.

Na chamada Operação Carne Fraca, a Polícia Federal investigou uma rede criminosa que adulterava os produtos e os validava com certificados sanitários emitidos de modo fraudulento por fiscais agropecuários do Ministério da Agricultura.

Descobriram-se coisas como a utilização de carnes podres e reembalagem de produtos vencidos; sendo que uma partida do produto, devolvida por autoridades sanitárias europeias – por estar contaminada com a salmonella – foi reaproveitada no Brasil. A salmonella é uma bactéria que pode provocar graves danos à saúde humana. Além disso, carne adulterada foi distribuída para a merenda de estudantes de escolas públicas do Paraná.

Claro que há funcionários públicos e políticos envolvidos, pois uma fraude dessa natureza não ocorreria sem esse concurso. Mas desta vez será muito difícil que os empresários envolvidos possam argumentar, como muitos fazem na Lava Jato, terem sido “obrigados” a fazer parte da estrutura da corrupção ou seriam impedidos de trabalhar para o governo.

As empresas negam as irregularidades, reação comum a todos os investigados pela Polícia Federal. Mas a JBS e a BRF terão de responder pela acusação de terem abusado da confiança de seus clientes, conforme aponta a investigação da Polícia Federal.

Infelizmente, vive-se uma situação em que não se sabe em quem confiar. De positivo, verifica-se ser cada vez mais difícil que os crimes fiquem impunes.

Os valores que unem Ciro Gomes e o Brizolismo

Em artigo enviado ao Blog, o presidente estadual do PDT, deputado federal André Figueiredo, aponta convergências nos valores defendidos por Brizola e Ciro Gomes. Confira:

Leonel Brizola e Ciro Gomes são lideranças históricas do cenário político brasileiro que defenderam, ao longo de suas trajetórias, apesar de em caminhos próprios, basicamente a mesma matriz de pensamentos e de valores.

Separados em corpo, mas juntos em pensamento, buscaram, cada um no seu tempo e do seu modo, defender e lutar por um bem comum: o empoderamento do Brasil e do povo brasileiro.

O momento agora é ímpar para o País, o fortalecimento de um casamento entre os valores defendidos por nosso saudoso Brizola e por nosso presidenciável Ciro Gomes.

Brizola defendeu a ideia de um Estado forte, respeitado, acatado e racionalizado. Colocando a educação como pilar central das suas administrações, também defendia que a base para a construção de um Brasil melhor estava (e ainda está) no trabalho do povo brasileiro. Manteve-se na luta constante pela defesa dos interesses nacionais e do trabalhador.

Ciro Gomes, por sua vez, traz, entre seus princípios, os valores do socialismo democrático. Defensor da questão nacional, Ciro se posicionou sempre contra as privatizações das riquezas estratégicas do Brasil e vem lutando por um modelo de desenvolvimento que tem como pilar central a preocupação com quem trabalha e produz. Além disso, tem sido um aguerrido combatente contra o capital especulativo e defende a fundamental redução de juros como caminho para combater a concentração de renda em nosso País.

Se questões históricas, por um lado, não haviam permitido que essas duas forças se encontrassem anteriormente sob a mesma bandeira partidária, Ciro e as lutas de Brizola, antes tarde do que nunca, encontraram finalmente um ponto de comunhão partidária.

Vale lembrar que Ciro Gomes foi o último candidato à Presidência da República que recebeu o apoio direto de Brizola e do PDT nas eleições de 2002.

É de suma importância para o País ter agora a combinação dessas forças que chega a um momento de grande necessidade para o Brasil.

Além disso, sabemos que estes ideais defendidos por Ciro e Brizola não vão navegar sozinhos. Vamos caminhar juntos com diversos outros movimentos, organizações, partidos e lideranças, partilhando dos mesmos valores, na luta por um Brasil forte e voltado verdadeiramente para o povo brasileiro.

André Figueiredo

Presidente da Executiva Estadual e

Vice-Presidente da Executiva Nacional do PDT

Sindetran/CE lamenta em nota publicação do Detran sobre máfia de servidores no processo da CNH

Em nota enviada ao Blog, o Sindicato dos Trabalhadores na Área de Trânsito do Estado do Ceará aponta assédio moral contra servidores, por parte do Detran, quando o órgão aponta que o sistema de monitoramento do exame para a obtenção da CNH seria para impedir a eventual ação de uma máfia, acostumada a fraudar o processo. Confira:

O SINDETRAN/CE lamenta e repudia os atos anti-sindicais promovidos contra esta entidade e demais servidores pelo Superintendente do DETRAN/CE, Sr. Igor Vasconcelos Ponte, tanto em nota veiculada na data de 11.03.2017 quanto presencialmente na cidade de Sobral/CE, quando representantes sindicais compareceram ao Detran daquela cidade para, numa manifestação pacífica, registrar a implantação do sistema de monitoramento do exame de habilitação do Órgão, que não contou com o devido treinamento e qualificação dos servidores, colocando em risco a regularidade do procedimento.

O quadro de assédio moral no Órgão é preocupante e sua prática tem sido reiterada, em especial contra servidores integrantes da estrutura sindical, que lutam por dignidade e independência da categoria em todas as suas frentes.

Sábado passado, dia 11 de março, o Detran/CE fez publicar em seu site uma nota onde afirma que o monitoramento servirá para “impedir que eventual ação de uma máfia, que estava acostumada a fraudar o processo de obtenção da carteira de habilitação”, decidindo “começar esse sistema por Sobral, como uma resposta à ação de investigação do Ministério Público Estadual, que prendeu, no dia 19 de maio de 2016, três servidores do Detran e instrutores de duas autoescolas da cidade. Dois servidores foram demitidos e uma autoescola foi cassada, além da suspensão de 30 dias a um servidor e a uma autoescola”.

Essa informação repassada pelo Detran/CE em grande parte é falsa. Os servidores referidos na nota em nenhum momento foram demitidos dos seus cargos, atualmente os mesmos encontram-se apenas respondendo a processo administrativo disciplinar, ora em grau de recurso, sendo que um deles recebeu como penalidade administrativa apenas uma suspensão de 90 (noventa) dias, ou seja, foi absolvido das acusações. Some-se a isso o fato de que as supostas irregularidades teriam se dado na realização de provas teóricas para habilitação de condutores, e não em prova prática de direção veicular.

O que se percebe é que o Detran/CE, a exemplo de outras experiências do campo político do país, tenta justificar a exacerbada terceirização do órgão sob o argumento de corrupção, e o pior, de forma generalizada, como se todos os trabalhadores fossem, em sua totalidade, corruptos, o que não corresponde à realidade.

Hoje o Detran/CE mantém em contratos de terceirização mais de R$ 285.177.847,85 (duzentos e oitenta e cinco milhões, cento e setenta e sete mil, oitocentos e quarenta e sete reais e oitenta e cinco centavos), sendo que apenas o contrato da empresa de monitoramento em questão, FG CONSULTORIA E GESTÃO EMPRESARIAL E EDUCACIONAL EIRELI – EPP, alcança o valor de R$ 12.913.000,00 (doze milhões e novecentos e treze mil reais), sendo que estes serviços dizem respeito a atividade fim dos servidores, o que precariza a relação de trabalho pela falta de qualificação e precária remuneração, além de onerar ainda mais os usuários com o repasse de taxas embutidas nos valores cobrados pelas autoescolas a seus alunos.

Portanto, os servidores, através da entidade sindical SINDETRAN/CE, informa a toda sociedade que vai continuar no exercício do seu direito constitucional de reivindicar os direitos de sua categoria e dos usuários em geral, lutando pela suspensão de tamanha irregularidade nos âmbitos administrativo e judicial, a exemplo do que ocorreu recentemente com a determinação expedida pelo Ministério Público Federal na data de 08 de março de 2017 ao Superintendente do Detran/CE, acatando denúncia do Sindicato para recomendar que o Órgão se abstenha de aplicar exames de direção em vias que não disponham de condições de sinalização e conservação adequadas.

Reiteramos que o SINDETRAN/CE tem sido um guardião da honra e da dignidade do servidor público do Estado do Ceará, promovendo iniciativas que coíbam todo e qualquer ato que limite ou cerceie o direito dos seus pares.

SINDETRAN/CE

Celebrar a chegada da água ao sertão

Em artigo no O POVO deste sábado (18), o deputado federal José Guimarães reclama os benefícios da transposição das águas do São Francisco para os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff. Confira:

Por mais de 500 anos, o povo do sertão nordestino conviveu com a seca, miséria, fome e a degradação causadas pela estiagem prolongada. Só quando o País elegeu um filho do Nordeste, que conhece na pele o que é viver sem água, essa realidade começou a mudar. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomou como missão cumprir uma promessa dos tempos do Império: levar água – e dignidade – ao sertanejo, com a transposição do rio São Francisco.

Por isso, nada mais justo que o próprio Lula venha agora comemorar com seu povo essa imensa conquista, juntamente a presidente Dilma Rousseff. Foi no mandato de Dilma que as obras chegaram a 86,3% concluídas.

Ao começar a obra, Lula recebeu críticas de todos os lados. De burocratas que nunca saíram de suas salas geladas, da mídia grande e de políticos adversários – os mesmos que agora, de forma cínica e oportunista, tentam tirar proveito do trabalho que antes execravam.

Ao todo, Lula e Dilma destinaram R$ 9,6 bilhões à transposição. Empenharam 92,4% e pagaram 87,5% da obra. Na nossa concepção de governo, o Nordeste não é problema, mas parte importante da solução para os problemas do País. Essa visão se concretizou em inúmeras políticas públicas, como Bolsa Família, microcrédito direcionado e valorização do salário mínimo vinculado à aposentadoria, por exemplo.

Como resultado, mesmo neste longo período de estiagem registrado na região – cinco anos -, não somos mais confrontados com as cenas chocantes de pessoas esquálidas de fome e sede, saques no comércio local em função do desespero e paus de arara cheios de retirantes rumo a outras regiões. Graças a muito trabalho e investimento social, essas imagens fazem parte do passado. E agora, com as águas do São Francisco, não voltam mais.

Depois de percorrer 477 quilômetros, o “Velho Chico” vai beneficiar 390 municípios e suas águas vão chegar a 12 milhões de nordestinos. O sertão vai virar um mar de prosperidade e esperança. E neste domingo vamos celebrar com Lula e Dilma a nossa maior conquista.

Água para o Nordeste

Em artigo no O POVO deste sábado (18), o presidente Michel Temer destaca a integração das águas do rio São Francisco. Confira:

As águas do rio São Francisco avançam céleres pelo projeto de integração que vai beneficiar 12 milhões de pessoas em 390 municípios de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Acabam de inundar o açude Poções, em Monteiro, na Paraíba, estrutura final dos 217 quilômetros de extensão do Eixo Leste do projeto.

O Nordeste é prioridade. Por isso, nosso governo retomou obras paradas e elevou, em 2016, para 96% o percentual de execução das obras físicas do projeto. Os repasses para o Eixo Leste aumentaram 23%, com desembolso de cerca de R$ 379 milhões.

O Eixo Norte da integração do São Francisco, que está com 94,52% de execução, será inaugurado ainda neste ano. Já repassamos R$ 224 milhões às obras, atingindo mais de 602 milhões.

Outras obras estão sendo tocadas com o mesmo comprometimento. A atenção especial ao projeto São Francisco foi estendida ao Cinturão das Águas do Ceará, à Adutora do Agreste Pernambucano, à Vertente Litorânea Paraibana e ao Canal do Sertão Alagoano.

A integração do São Francisco é uma obra redentora para toda a região. Assim como as reformas estruturantes vão revitalizar a economia brasileira, a água vai revitalizar o Nordeste. Vamos entregar a transposição ao fim de 2018, quando também teremos um país melhora quem venha assumir o governo.

Nosso trabalho pelo Nordeste não se restringe ao projeto de transposição do São Francisco. Lançamos, no ano passado, o Programa de Revitalização da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco. É investimento de cerca de R$ 7 bilhões, até 2026, para recuperar o que foi degradado e evitar que o uso do solo e das águas prejudique o volume e a qualidade da água do São Francisco.

Estamos, também, expandindo os níveis de saneamento e de abastecimento de água nas comunidades da região. O Ministério das Cidades tem 327 obras em andamento, totalizando investimentos da ordem de cerca de R$ 12 bilhões.

A força do povo nordestino é como a força das águas do São Francisco, nada pode contê-la. É como a força do Brasil!

Nada pode impedir nosso país de ser grande.

Friboi e Sadia: Qual o limite da responsabilidade do garoto propaganda em campanhas publicitárias?

Em artigo enviado ao Blog, o advogado Frederico Cortez questiona a responsabilidade dos garotos propaganda na divulgação de produtos. Confira:

Quem nunca espera o dia de sábado ou domingo para fazer aquele churrasco em volta de amigos e familiares? E passo importante e fundamental no processamento do churrasco está na compra da carne.

Os principais meios de comunicação do país noticiaram sobre uma ação da polícia federal nas dependências de uma das maiores empresas de processamento de carnes do mundo, a JBS, também conhecida como Friboi.

Nessa investigação, a PF identificou adulteração nas carnes comercializadas, estando fora da validade e contendo até pedaço de papelão embutido nas carnes processadas.

E agora, saindo um pouco da seara policial cabe nos indagar, o que achar então da falta de declarações dos artistas Tony Ramos, Roberto Carlos e Fátima Bernardes quanto a esse fato, onde todos estrelaram campanhas publicitárias milionárias, cujo objetivo comercial era dotar a propaganda publicitária de credibilidade e segurança.

Ora, se o Tony Ramos, Roberto Carlos e Fátima Bernardes vem a público atestarem que “se é carne, é Friboi” ou “ se é Sadia, é bom”, há que se esperar por parte do público consumidor que esses produtos são cercados de total segurança em níveis de higienização e procedência.

No entanto, ao que parece, logo depois dessa “bomba” explodir os atores que foram pagos por cachês milionários para darem suas caras às marcas Friboi e Sadia estão querendo pular fora do barco quanto à sua responsabilidade sobre os produtos.

Bem, independentemente dos protagonistas dizerem que são apenas contratados por agências publicitárias e que não tem responsabilidade sobre os produtos comercializados para encabeçarem essas campanhas de marketing, se faz necessário estabelecer um marco para se aferir qual o limite da responsabilidade dos atores de uma campanha publicitária e a qualidade do produto que eles propagam para o público.

Ainda assim, creio, que se o ator recebeu um valor para fazer a peça publicitária há sim que responder por eventual dano que venha a ocorrer por inspirar os consumidores a consumir aquele produto específico indicado pelos atores, já que estes estão ali justamente para certificar a qualidade e credibilidade de tais produtos, uma vez que são pessoas famosas e formadores de opinião, sobretudo.

Caso venha a figurar que o ator ou garoto propaganda não tenha nenhuma responsabilidade sobre os danos causados pelos produtos por eles indicados em peças publicitárias, ao meu sentir caracteriza-se enriquecimento ilícito, já que fora pago para certificar um produto e que em razão do seu status de celebridade, leva milhões de consumidores a comprar esse mesmo produto indicados por eles, acreditando que se trata de um produto de boa qualidade, procedência e livre de doenças ou riscos para o consumo.

Louvor a um ato de coragem e altruísmo

Editorial do O POVO deste sábado ressalta a homenagem a três militares e dois civis que salvaram um bebê e um menino, durante i Carnaval, durante um acidente automobilístico que vitimou os pais dos dois irmãos. Confira:

É preciso destacar a significativa atitude do governador do Estado, Camilo Santana, ao abrir a primeira reunião do Comitê de Governança do Pacto por um Ceará Pacífico com homenagem a três militares e dois civis que praticaram um ato de coragem e solidariedade, salvando um bebê e um menino de 10 anos, depois de um acidente automobilístico no qual morreram os pais das crianças. O carro em que viajava a família perdeu o controle e caiu no Canal de Integração, ficando submerso nas águas. Não fosse a ação rápida e corajosa desses abnegados, as crianças teriam tido o mesmo destino dos pais. O desastre aconteceu na localidade de Lajedo, em São João do Aruaru, no município de Morada Nova, no fim de fevereiro, no período de Carnaval.

Os bombeiros militares Thiago de Lima Bezerra (cabo), Eduardo Rodrigues de Brito (cabo) e Fellipe Vasconcelos Cordeiro (soldado) estavam fora de serviço e viajavam os três no mesmo veículo quando pararam na rodovia devido à aglomeração provocada pelo acidente. O carro da família já estava submerso e eles iniciaram o processo de salvamento auxiliados pelo estudante de Enfermagem Toni Rafael da Silva Lima e por José Sampaio Filho, morador da comunidade do Lajedo. Conseguiram retirar as crianças, que foram encaminhadas ao hospital, e hoje estão bem de saúde, na casa de parentes.

Os cinco receberam a mais alta condecoração dos Bombeiros (concedida a militares ou civis), que tem o nome de Medalha João Nogueira Jucá, que guarda outra história de heroísmo, acontecida no ano de 1959. Jucá era então um estudante de 17 anos quando passava em frente Hospital Geral César Cals. O edifício estava em chamas, mas ele enfrentou o fogo e retirou do local vários recém-nascidos e suas mães. Em uma das buscas, foi atingido por uma explosão, ficando ferido gravemente. Morreu poucos dias depois.

Em um momento em que se vive um clima de violência e intolerância, o ato altruísta daqueles que salvaram as duas crianças e o exemplo do jovem Jucá mostram que persiste a bondade no âmago do ser humano, reveladora da identificação desinteressada com as dores e as dificuldades dos semelhantes. E é nesse potencial restaurador que todos devemos nos apegar quando tudo o mais parece desvanecer.

Nossos parabéns aos novos heróis, a melhor homenagem que a memória de João Nogueira Jucá poderia receber.

O Ceará em tempos de PIB

Em artigo enviado ao Blog, o leitor e estudante universitário Rodrigo Santos Almeida comenta do desempenho do PIB do Ceará nos últimos governos. Confira:

A chamada “Era Tasso” garantiu ao povo cearense um crescimento nominal de 0,24 pontos na participação do Ceará no PIB Nacional, saindo de 1,72% em 1987 e atingindo a marca de 1,96% em 2002.

No governo Lúcio Alcântara (2003-2006) o Ceará estagnou com o recuo de 0,01 ponto, indo de 1,96% a 1,95% depois de ter se recuperado da sua mínima de 1,90% da metade do seu governo.

Já a “Era Cid” garantiu um crescimento de 0,32 pontos, indo de 1,89% do início do seu governo a 2,21% quando da sua conclusão.

Ou seja, em apenas oito anos, Cid Gomes garantiu um crescimento 33% superior ao período de Tasso (16 anos – englobando aqui também um mandato de Ciro Gomes) à frente do executivo estadual. Um interessante crescimento na metade do tempo.

Nos últimos dois anos, a forte crise da economia não deixou de fora o Ceará que acompanhou a retração nacional com um resultado negativo de 3,99%, mas que ainda assim se mantém como um dos estados mais equilibrados e com um dos maiores volumes de investimentos no Brasil neste momento

Em época de PIB e de combate às “fake news”, os números comprovam que o maior crescimento real do Estado do Ceará nos últimos 30 anos aconteceu na gestão do ex-governador Cid Gomes que, vale lembrar, não precisou vender nenhuma Coelce para conquistar tamanho resultado.

Respeitem os direitos dos estudantes

Em artigo sobre a financiamento estudantil, o Mestre em Administração e gestor educacional Lourenço Damata critica a concorrência predatória de instituições na busca alucinada por novos alunos. Confira:

De acordo com o Ministério da Educação (MEC), há no Brasil cerca de 8 milhões de universitários distribuídos em 2.364 instituições, das quais 45 estão em Fortaleza. Em muitas delas, mais de 40% dos alunos utilizam o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

Porém os regulares atrasos nos repasses do Fies causaram estragos nas instituições que recorreram a empréstimos bancários e outras fórmulas. As instituições de médio porte ficaram em maus lençóis e algumas delas podem até sucumbir.

A visão mercantilista da maioria das instituições somada a uma legislação superada e falsa demanda originada pelo Fies empurraram as instituições a uma busca alucinada por novos alunos.

A concorrência, que já era predatória, tornou-se desonesta e vem crescendo de forma acintosa com a oferta de descontos que chegam a 70% para alunos que se transferirem de faculdade. O resultado é que os alunos perderam uma série de variáveis e diferenciais competitivos no processo da mudança – entre elas, a visão metodológica, a demora para conclusão e a mudança no foco para o qual o curso foi projetado.

Quem também perde são os alunos remanescentes nas faculdades que fizeram o processo seletivo e pagam suas mensalidades sem desconto, a maioria com muita dificuldade, pois foi deixado de lado o princípio da isonomia quando concedem descontos àqueles que se transferiram. Do ponto de vista moral e ético, os alunos originários são os que deveriam ser agraciados com maior qualidade de ensino e tratados com respeito.

Não será surpresa se, um dia, todos os alunos remanescentes acordarem e exigirem seus direitos constitucionais pelo princípio da isonomia, obrigando as instituições a reverem suas práticas comerciais e respeitarem este povo já bastante sofrido com o desmantelamento da ética e da cidadania.

Campanha da Fraternidade 2017: não ao modelo predatório

Editorial do O POVO neste domingo (5) sugere o cultivo do coração humano e do sistema social para uma ética comprometida com uma ecologia integral. Confira:

A Campanha da Fraternidade lançada anualmente pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), no início da Quaresma, tem como tema, neste ano, “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” e como lema, “Cultivar e guardar a criação”. Em foco, a degradação dos seis biomas brasileiros: a Mata Atlântica, a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa, com a convocação das autoridades públicas, da sociedade civil e da comunidade cristã a se mobilizarem em torno do assunto.

Dois desses ecossistemas – Caatinga e Mata Atlântica – incidem no Ceará e nos interessam de perto. A Caatinga ocupa 7,4 milhões da cobertura florestal do Ceará, que é de 8,5 milhões de hectare, no total. É um bioma único no mundo, com uma rica biodiversidade. No entanto, 80% de sua cobertura original foram alterados, em especial por causa de desmatamentos e queimadas e a produção de lenha e carvão para olarias, padarias, churrascarias etc. Isso agrava o processo de desertificação que se intensifica com a mudança climática em curso e inviabiliza a situação das populações que dependem do bioma para sobreviver.

Já a Mata Atlântica, resiste apenas numa área total de 1.873 km², no Ceará. Essa relíquia está sendo devorada pela especulação imobiliária, uso incompatível do solo associado à expansão de complexos turísticos e culturas de crustáceos.

Desde Paulo VI até Francisco, os papas vêm dando ênfase à questão ambiental, a eles se juntando o Patriarca Ecumênico da Igreja Ortodoxa, Bartolomeu I. Todos alertando para a destruição paulatina do planeta como consequência de um modelo econômico predatório, concentrador de riqueza, que sacrifica tudo à busca desenfreada de lucros, destruindo a natureza, disseminando a pobreza e degradando a dignidade humana, segundo eles.

Assim, seria preciso cultivar no coração humano e no sistema social uma ética comprometida com uma ecologia integral que abarque o cuidado com as múltiplas formas de manifestação da vida no planeta, inclusive a humana, que depende disso para sua sobrevivência como espécie. Isso implicaria modelar outro sistema socioeconômico e institucional capaz de favorecer a vida e dar-lhe precedência em tudo.

Injustiças do Imposto de Renda

Editorial do O POVO deste sábado (4) aponta que o pagamento de impostos no Brasil acontece de forma injusta, apenando os segmentos mais pobres da população e a classe média. Confira:

Já está aberto o prazo para a entrega da declaração do Imposto de Renda (IR) referente ao ano-base 2016 – portanto, um bom motivo para refletir sobre esse tributo e as taxações, de modo geral, que incidem sobre os brasileiros. É sabido que a distribuição do pagamento de impostos se dá de forma injusta, apenando os segmentos mais pobres da população e a classe média.

Os pobres, pois a incidência da alta tributação sobre o consumo e serviços atinge mais fortemente esse setor; a classe média por pagar imposto de renda de forma desproporcional ao que aufere com o seu trabalho, em contraposição àqueles no topo da pirâmide social.

O caso torna-se mais grave, pois a tabela do IR vem sendo corrigida em percentuais abaixo da inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), resultando em uma defasagem acumulada de 83%, desde 1996, segundo estudo do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Sindifisco). O problema, portanto, atravessa governos sem que providências sejam tomadas para evitar um verdadeiro sequestro na renda de milhões de brasileiros, que têm o desconto diretamente em seus contracheques.

Essa distorção resultou na redução da faixa da imunidade, a tal ponto que um trabalhador que recebeu R$ 1.903,99 por mês no ano de 2016 (pouco mais de dois salários mínimos) ficou sujeito à taxação do IR. Se a tabela houvesse sido corrigida de acordo com a inflação, o valor da isenção seria de R$ 3.484,30. Sem dúvida, seria um alívio para a classe média, pressionada a pagar por serviços que, obrigatoriamente, deveriam ser fornecidos, com qualidade, pelo Estado, como saúde, educação e segurança, em contrapartida aos impostos recolhidos.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entrou com ação direta de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a correção da tabela do IR. Para a entidade corrigi-la abaixo de índices inflacionários, fere a Constituição. As centrais sindicais de trabalhadores também reivindicam a correção da tabela.

Porém, esses apelos sempre encontram os ouvidos moucos dos governos, que veem no IR um modo fácil – ainda que injusto – de arrecadar imposto de assalariados, que não têm como fugir das garras do Leão.

A ocasião revela o ladrão

Em artigo no O POVO deste sábado (4), o oficial da Polícia Militar do Ceará e Mestre em Planejamento de Políticas Públicas (Uece), Plauto de Lima, avalia comportamentos de pessoas durante a greve da OM no Espírito Santo. Confira:

Segundo Bauman, segurança sem liberdade equivale à escravidão, enquanto que a liberdade sem segurança significa desorientação, eterna incerteza, o caos. E foi justamente o caos que se instalou no estado do Espírito Santo quando a Polícia Militar decidiu paralisar as suas atividades.

De acordo com relatos imprecisos, estima-se que houve mais de uma centena de mortes em decorrência da falta de policiamento nas ruas daquele Estado. Se somarmos a esses números a quantidade de roubos e furtos, certamente iremos ultrapassar a casa dos milhares. Mas o que me impressionou não foi a quantidade de ocorrências, e, sim, os protagonistas dessas ocorrências.

As cenas de pessoas aparentemente honestas ou sem histórico criminal arrombando as portas das lojas, atravessando ruas com televisores, sofás ou qualquer outro objeto que pudessem surrupiar, tal qual larápios, revela que a falta da força policial faz manifestar um surto de ausência moral em pessoas tidas como probas, expondo toda a grosseria de um corpo social em plena crise civilizatória, fazendo valer a afirmação de Machado de Assis: “A ocasião revela o ladrão”.

Naqueles dias, o brasileiro retornou ao seu “estado de natureza” hobbesiano, a natureza bestial, em que as leis e os limites impostos pelo Estado foram desrespeitados com a saída do seu mecanismo regulador, a polícia.

Para aqueles que defendem o fim da Polícia Militar, como sugeriu o Conselho de Direitos Humanos da ONU, em 2012, proponho que esperem mais um pouco, pois nós ainda não evoluímos o bastante para vivermos sem uma força policial nos vigiando. Sem ela, é impossível que a sociedade coexista pacificamente. Mas há esperança. Afinal, alguns voltaram para devolver os objetos roubados. Talvez tenham olhado para as mãos e percebido que existe nelas o polegar opositor.

Da obrigação legítima de ser pessimista

Em artigo no O POVO desta quarta-feira (1º), o cientista político Paulo Elpídio de Menezes Neto aponta que a sociedade pode fazer a democracia sobreviver à mediocridade do sistema político. Confira:

De analistas políticos ou de intelectuais não engajados, que não têm receita pronta para os males da sociedade, diz-se que são, em geral, pessimistas. Houve quem os classificasse, por aqui, como criaturas perigosas, para quem o pior é o melhor. Norberto Bobbio (“O dever de sermos pessimistas”, 1977) enxergou no pessimismo a manifestação legítima do dever civil. Por esse tempo, como se sabe, a Itália se contorcia nos estertores de grave crise institucional. Bobbio distinguia, em face da fragilidade do Estado italiano, a diferença entre “ser pessimista” e o “dever ser pessimista”: “quando me abandono aos impulsos de minha vontade de desejar, sou otimista”. Somos otimistas por temperamento ou inclinação. Devemos ser pessimistas quando buscamos entender pela razão… A visão crítica dos fatos sociais (e políticos, por extensão) traduz, como diria Bobbio, “o pessimismo da inteligência, perfeitamente compatível com o otimismo da vontade”. Pessimista é aquele que teme; derrotista o que espera (autoflagelação?) o pior…

Os governos desta frágil latinidade continental têm muito em comum: economias combalidas, levadas à ruína por políticas equivocadas e alianças corrompidas; a inépcia dos seus governantes, amparados por velhas muletas ideológicas de há muito abandonadas, quando já se exaurira o poderio terreno da Fé; a corrupção e o compadrio, compartilhados em alianças suspeitas. Essas formas canhestras de “democraturas” latino-americanas confundem frágeis instrumentos democráticos e republicanos com os aparelhos eficientes do autoritarismo, perfilam imagens semânticas progressistas, corrompem as palavras e falseiam os conceitos. Democraturas são governos saídos de golpes dissimulados ou de eleições manipuladas, à esquerda ou à direita, e os movimentos revolucionários quanto os reacionários, mergulhados em suas certezas pós-ideológicas. E o populismo que fala, fundo, à insatisfação das massas com suas falsas revelações salvadoras.

Os partidos perderam o sentido real de suas funções, transformaram-se em máquinas político-burocráticas processadoras de candidaturas concebidas por estreitas afinidades entre o capital empreendedor e o trabalho de agentes públicos… E, por terem assim se multiplicado, por simples cissiparidade de interesses, assenhorearam-se da governabilidade do Estado com os atavios das coalizões. Não que devam ser de todo exemplares as pessoas capazes de assegurar o bom governo das sociedades. Esse equilíbrio duvidoso tende a realizar-se, entretanto, à medida que o sistema político se estrutura solidariamente, induzido pela força de uma “inteligência” coletiva. Fortalecem essas estruturas de poder regras, normas, procedimentos, instituições equilibradas, mecanismos efetivos de governo e representatividade política, essenciais ao ordenamento constitucional em uma democracia. Esses são os ingredientes que fazem a sociedade resistir aos maus políticos.

A democracia tem chances reais de sobreviver à mediocridade de seus atores. Basta que a sociedade seja bem governada e contida diante da sedução de desvios pressentidos pela “inteligência” coletiva do sistema político. De Bobbio para arrematar essas amargas desesperanças: “Se penso, tenho medo, e se me abandono ao desejo, posso esperar; mas como homem de razão, tenho medo”.

A ditadura dos paredões

Editorial do O POVO desta quarta-feira (1º) comenta da atuação dos paredões, onde o problema é maior no interior do Estado. Confira:

Ao fim do Carnaval, mais uma vez se torna necessário chamar a atenção da sociedade e das autoridades para o abuso dos paredões de som. O problema ocorre principalmente nas cidades do Interior, onde a força policial é menor e raramente há a presença do juiz e do representante do Ministério Público tanto nos fins de semana quanto nas festas, como é o caso do período carnavalesco.

O maior problema costuma ser causado pelos sistemas de som de grande potência instalados em carros particulares. Os proprietários destes equipamentos se acham no direito de impor o som a todo volume a qualquer hora e em qualquer lugar. O fato foi verificado em diversas cidades. Várias reclamações chegaram ao comando das forças de segurança, que até orientava a repressão, mas sem o devido resultado.

Trata-se de um problema de saúde pública. O som importuna a vida de quem prefere ficar em casa, dos mais velhos, de crianças e até de quem quer divertir-se de uma forma saudável e de baixo potencial de conflito. Como esses delitos costumam ocorrer nas praças das cidades, invariavelmente cercadas de residências, até o simples ato de assistir TV se torna impossível. A dormida, então, é um tormento.

É também uma questão de segurança pública. O entorno desses veículos com paredões de som costuma ser um aglomerado de problemas com boas chances de gerar conflitos físicos, inclusive entre os que cometem a infração da poluição sonora e os que são importunados pela violência do barulho.

O uso desses equipamentos é um traço negativo de um comportamento social bem típico do Brasil. Um desvio comportamental que não respeita o espaço público e o direito de quem quer o sossego. É claro que as sociedades com maior histórico de civilidade não toleram esse abuso que aqui se repete com imensa frequência.

Nesse ponto, Fortaleza avançou bastante. A sociedade reclamou com veemência e o setor público reagiu com a necessária firmeza. As virtudes reveladas na Capital precisam chegar com força às cidades do Interior. A ditadura dos aficionados pela poluição sonora precisa ser derrotada. Não faltam leis para isso. Basta que sejam aplicadas.

Saques, moral e religião

Em artigo no O POVO deste domingo, o professor titular da Universidade Federal do Ceará (UFC) e sociólogo André Haguette avalia a questão da “natureza humana” nas populações. Confira:

Nos últimos dias, poucos eventos tiveram um impacto tão grande sobre a população quanto os saques que ocorreram no Espírito Santo durante a greve disfarçada dos policiais militares. Os saques chocaram milhões de brasileiros que ficaram sem entender como a simples ausência temporária do poder coercitivo nas ruas pode provocar uma reação criminosa de tão grande envergadura. O fato, na realidade, é somente ilustrativo de que ocorre cotidianamente na nossa sociedade. Imaginemos por um instante vestibulares ou concursos públicos sem vigilância, declarações do imposto de renda sem fiscalização, contratos sem o poder judiciário, trânsito sem guardas, bancos sem seguranças, aposentadoria e pensões do INSS sem auditoria etc.). Seria cada um por si, a lei do mais forte ou do mais esperto. Muitos culpam a natureza humana por essa situação; deixada a si mesma, ela levaria ao caos, até a guerra civil.

Não acredito nessa explicação hobbesiana e popularizada. Não é uma questão de natureza humana boa ou ruim, já que, simplesmente, não existe tal coisa que chamamos de natureza humana a nos estruturar. Pelo contrário, nosso agir é moldável e moldado pelas instituições da sociedade, pela convivência social, por nossas transações afetivas, racionais e éticas com os outros. Se é verdade que nosso comportamento depende da presença de um aparelho normativo e repressivo (leis, poder judiciário, polícia, exército), ele depende mais ainda da estrutura econômica (classes sociais) e do aparelho ideológico societário (família, escola, igreja, cultura) que nos moldam e nos preparam para viver com os outros desta ou daquela maneira.

Há povos e pessoas mais éticos do que outros. Essa variabilidade derrota a tese de uma rígida “natureza humana” como explicação. Se uma população ou uma pessoa, se nós precisamos do poder repressor na rua para agir de acordo com a lei ou, melhor, de acordo com valores morais aceitos, é que nossas instituições ideológicas (educativas) falharam e não nos levaram a internalizar a solidariedade, a generosidade, o respeito ao outro. A cidadania não foi interiorizada; nossa consciência moral é frouxa, feito biruta ao vento, sem embasamento sólido em princípios éticos.

A casa grande e a senzala como instituição originária de nossa sociedade não podiam proporcionar uma educação doméstica baseada na igualdade dos homens e no respeito ao outro e a leis impessoais. A igreja católica com seus próprios escravos e sua submissão ao senhor de engenho não era habilitada à formação da consciência moral; assim, produziu uma religiosidade ingênua e afetiva totalmente dissociada da vida material e dos afazeres dos negócios. A escola, por ser apartada em privada e pública, não pode oferecer uma educação republicana, cidadã.

Tudo isso nos levou a uma cultura individualista numa economia capturada por uma pequena classe possuidora. Os saques de Vitória, no Espírito Santo, tal como a Lava Jato, além de mostrarem a necessidade de um poder repressivo constante, nos ensinam a urgência de uma reformulação de nossas instituições de base no fortalecimento de nossa consciência moral coletiva, a partir de cima da escala social. No mínimo, nossas instituições formadoras de caráter individual e coletivo necessitam de uma requalificação.

Direitos Humanos e Polícia

Em artigo no O POVO deste sábado (25), a vereadora de Fortaleza pelo PPL e advogada Larissa Gaspar afirma que é errado o conceito que “o pessoal dos direitos humanos no Brasil defende bandido”. Confira:

Durante sessão na Câmara Municipal de Fortaleza, declarei que a Comissão de Direitos Humanos daquela Casa está à disposição dos agentes de segurança e de suas famílias. Na condição de integrante e atual presidente da Comissão, entendi ser oportuna essa minha declaração, pois ela respondia a uma afirmação recorrente e errada: a de que “o pessoal dos direitos humanos no Brasil defende bandido”.

Não é que a Comissão da Câmara Municipal de Fortaleza, ou qualquer outra, por algum dia esteve fechada para policiais e suas famílias. Nenhuma esteve nunca. Na verdade é que se faz necessário reafirmar que direitos humanos são para toda e qualquer pessoa, sem distinção. É água para quem tem sede, sem considerar de quem é a garganta seca.

No Brasil, esse antagonismo que se prega entre direitos humanos e polícia tem origem no Regime Militar. De um lado, agentes de segurança como mão abusiva e repressora do Estado. Do outro, defensores dos direitos daqueles que se opunham à ditadura. E com o passar dos anos, mesmo após a reabertura política, um fator fez com que essa tensão ganhasse novos tons: a desigualdade social. Pobreza e violência, polícia e violação de direitos. Esse cenário, ao mesmo tempo em que exigiu ainda mais atuação de defensores dos direitos humanos, engrossou a voz dos conservadores e reacionários. Demonizam os direitos humanos e defendendo militarização como solução para algo que é socioeconômico.

Todos perdemos com essa rivalidade semeada ora nos programas policialescos, ora no parlamento. O caminho para Justiça é a preservação dos direitos humanos. Ser julgado e cumprir sua pena conforme a lei é o correto. Não se toleram abusos de qualquer origem e contra nenhum tipo de pessoa. Qualquer ação que viole um direito tendo por justificativa violação anterior nega a Justiça como vontade comum de nossa sociedade. E isso seria nosso fim enquanto civilização.

Foro especial, um privilégio que precisa ser revisto

Editorial do O POVO deste sábado (25) avalia que autoridades se escondem no foro especial para fugir de julgamentos mais rápidos. Confira:

Entre as muitas vantagens da democracia sobre os regimes autoritários, estão os mecanismos que o sistema oferece para sua autocorreção. Essa possibilidade se amplia à medida que o amadurecimento da democracia obriga os poderes da República ao dever da transparência, proporcionando aos cidadãos o escrutínio de todos os seus escaninhos.

Até há pouco tempo havia parcos debates sobre o foro especial por prerrogativa de função, popularmente chamado de “foro privilegiado”. Esse item da Constituição determina que certas autoridades não podem julgadas por cortes de primeira instância, em caso de cometimento de crimes, indo diretamente o processo ou para a segunda instância ou para os tribunais superiores, dependendo do cargo.

Hoje, esse debate está na ordem do dia devido à permissividade de tal instituto, favorecendo juízes, integrantes do Ministério Público, prefeitos, governadores, deputados, senadores e ministros de Estado. Levantamento do jornal O Globo em 20 países da América, Europa, África e Ásia mostra que, em nenhum deles, o benefício tem tamanha dimensão. Nos Estados Unidos nem mesmo o presidente da República goza de tal direito.

Porém, se por um lado é razoável que os chefes dos três poderes da República – também abrangidos pela lei – tenham direito ao foro especial, torna-se inaceitável que o direito seja estendido a mais de 45 mil pessoas – estimativa da Associação dos juízes federais – como acontece no Brasil.

O importante é que – à exceção do boquirroto senador Romero Jucá (PMDB-RR), que defendeu uma “suruba” geral para o caso – é difícil encontrar quem defenda a permanência do foro especial da forma atual, pois se tornou uma indevida de proteção, atrás da qual algumas autoridades se escondem para fugir de julgamentos mais rápidos, com muitos casos sendo arquivados por decurso de prazo.

Talvez por isso à nomenclatura oficial tenha se sobreposto o termo “foro privilegiado” para definir esse benefício. Portanto, não resta a menor dúvida de que esse item da Constituição precisa ser revisto – e talvez seja melhor que o Congresso tome a tarefa para si, para evitar deixar nas mãos do Supremo Tribunal Federal a resolução da pendência.

Lágrima sobre o monociclo

Eis a redação da aluna Nicolle Carneiro, do 9º Ano do Colégio Deoclécio Ferro, mostrando que os jovens estão atentos aos problemas das grandes cidades. Confira:

Quem nos vê nos inúmeros semáforos de Fortaleza pode pensar que queremos uma vida fácil entre uma apresentação e outra à cata de algumas moedas durante o sinal vermelho. O trânsito tumultuado e a pressa dos motoristas em retornar às suas estressantes rotinas, mal fazem nosso “respeitável público” perceber as horas doloridas sobre o monociclo e as câimbras nos braços de tanto joga e agarra pinos coloridos de boliche. Outras horas foram gastas nos ensaios, além de mais uma ou duas na pintura do rosto.

Sim, sou um dos quinze a vinte palhaços espalhados pelos cruzamentos mais movimentados da cidade. Apesar da possibilidade de ser confundido com os outros artistas, sou o único na arte do circo. Não por causa do meu equilíbrio no monociclo, mas pelo roubo de corações. Mulheres, claro.

O belo físico e a alegria contagiante me rendem mais moedas do que propriamente a apresentação de manusear pinos de boliche sobre uma roda. Moedas de condutoras e também de passageiras, na maioria.

O que nenhuma percebeu, ainda, é que a maquiagem de cor forte em meus olhos carrega uma lágrima. E essa lágrima tem nome: Michelle.

A ausência de Michelle na esquina da avenida Bezerra de Menezes com a rua José Cândido mais dói que as inúmeras vezes em que ela embarcou em um carro qualquer para também vender a sua arte.

Para confortar a dor, cheguei a pensar que Michelle , enfim, havia encontrado um cliente legal que a tomou como esposa. Quisera eu ser esse cliente, mas nunca quis dela o sexo antes do amor. E amor não tem preço.

Mas, como tudo que se apresenta na rua não possui o valor reconhecido, a história de Michelle em nada tem de especial. Soube por meio de um garçom que Michelle era amante de um traficante e que juntava dinheiro para sustentá-lo no presídio. Em uma semana de apurado ruim, tentou compensá-lo com drogas nas partes íntimas. E acabou presa.

Quem nos vê nos inúmeros semáforos de Fortaleza pode pensar que queremos uma vida fácil…

*Nicolle Carneiro

Aluna do 9º Ano do Colégio Deoclécio Ferrro.