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O que querem os jovens das facções?

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Em artigo sobre o recrutamento de jovens para as chamadas facções no Ceará, o jornalista Nicolau Araújo avalia o perfil da juventude na criminalidade, diante da experiência na área policial no O POVO, Diário do Nordeste e TV Jangadeiro. Confira:

“VCS DAS Travessa tem que fora si nao Vai Morrer Seus Safado e não saiar nao praver si nu morre tudim”.

Mais que ameaça, creiam, a frase (?) acima é um pedido de socorro. Não somente dos moradores do bairro Barroso II – muitos, de fato, deixaram suas residências, em julho do ano passado -, mas também do jovem que pichou a fachada da casa da Travessa Seis. Sim, jovem, conforme o perfil para a função determinada pela sua facção.

E esse pedido de socorre é estendido a outras centenas de jovens com o mesmo – quase nenhum – grau de instrução.

Com raras exceções, o jovem não busca a criminalidade, tampouco é influenciado por amigos ou pelo consumismo. Esse último argumento por décadas foi apontado pelos anticapitalistas. Apesar da ortografia sofrível, da incapacidade de domínio das quatro operações da matemática e da indiferença com as demais ciências, o jovem na criminalidade possui consciência social. Claro, dentro das suas limitações.

“Dá para ver que o senhor foi de escola boa. Por isso fez faculdade e ganha a sua vida. Não temos escola. É faz de conta. Os professores têm medo da gente”, relatou um jovem, nos meados de 2010, integrante de assalto contra motoristas no cruzamento da rua Silva Paulet com a avenida Santos Dumont. O amigo levou um tiro no pescoço, efetuado por uma das vítimas. Mas sobreviveu.

Não, o jovem não estava preso ou apreendido. Não havia como precisar a idade, diante das marcas de sofrimento no rosto e do olhar sem perspectiva. Ele se misturou ao aglomerado de curiosos no local do crime. A frieza (ou coragem) me impressionou. Apontado por outros jovens da comunidade do Campo do América, a princípio negou participação no assalto. Mas, provocado na sua condição social, não se negou ao debate.

Cerca de três anos antes, a então titular da Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), Cândida Brum, chorou em desabafo ao O POVO sobre a situação dos adolescentes infratores. Para a delegada, as apreensões não eram de criminosos, mas de jovens tão vítimas quanto suas vítimas – guardadas as devidas proporções.

Ao final da entrevista de mais de uma hora, a delegada ponderou: “Cuidado com o que você vai escrever no jornal”. Voltei da porta de sua sala e condicionei: “Se a senhora me garantir que virá trabalhar, amanhã, com o espírito sossegado, não escreverei uma linha sequer do que conversamos”. “Escreva a sua matéria”, disse a delegada, afastada do cargo dias depois.

E é essa vitimização da juventude que a criminalidade se aproveita para aliciar jovens para as facções. Apesar de ser uma larga porta de entrada à cidadania, o poder público por si não é responsável pelo avanço da juventude na criminalidade. Não há caneta mágica nas mãos do governador Camilo Santana. Se tivesse, apostem, o problema já estaria resolvido.

Na realidade, as facções encurtam para os jovens aliciados um processo que deveria durar gerações. Eles saem de um futuro sem muitas perspectivas para um pseudo conceito de poder, de relevância, de importância, de atenção. E quando as facções encurtam esse processo, a morte precoce é uma realidade. O pior é que o jovem possui essa consciência.

A família, a primeira porta da cidadania, infelizmente, há muito está com a passagem comprometida nas classes sociais menos favorecidas. Não somente pela desestruturação familiar, presente em muitos lares, ou pelas dificuldades comuns à própria situação. Mas, principalmente, pelo processo inverso do respeito.

É o caso de uma menina de 13 anos, que programava se esconder com o namorado no Icaraí, em Caucaia, após ele e dois amigos espancarem uma senhora, com chutes e socos, durante um assalto. Ao descobrirem que a senhora era mãe de um miliciano, os três jovens tentaram deixar o bairro Vila Velha. Dos três, dois morreram a tiros na mesma noite.

Pela manhã, dezenas de jovens cercaram o carro da reportagem. E lá estava, aos prantos, a menina de 13 anos. “Quatro meses no Icaraí? E a sua escola?”, indaguei à menina. O silêncio a denunciou. “Ah, não tem escola”, deduzi. “Não, senhor”, confirmou.

De imediato, me reportei ao aglomerado. “Por favor, alguém pode me trazer a mãe dessa menina?”, pedi. Uma senhora se espremeu entre os jovens. “Sou eu”. “Senhora, por que a sua filha está sem escola?”, perguntei. “O senhor sabe, esses jovens de hoje”…

“Senhora, esses pais de hoje…”, corrigi. “Jovem é jovem em qualquer época”, completei. Nada mais procura que poder, relevância, importância, atenção…

China continua a envelhecer, apesar do fim da política do filho único

Dois anos depois do fim da política do filho único que durante décadas afetou milhões de mulheres na China, as taxas de natalidade do país continuam caindo, e agora são as próprias famílias, asfixiadas pelas pressões econômicas, que resistem a ter um segundo bebê.

Dados do Escritório Nacional de Estatísticas da China mostram que o número de nascimentos caiu cerca de 630 mil em 2017 na comparação com o ano anterior. No mesmo período, o percentual da população com mais de 60 anos passou de 16,7% para 17,3%. O fato de o país seguir envelhecendo sem parar disparou os alertas demográficos dentro do governo.

A reforma legislativa que encerrou quatro décadas de estrito controle de natalidade entrou em vigor no dia 1º de janeiro de 2016, permitindo que todos os casais chineses pudessem ter dois filhos. Segundo estimativas, a política do filho único evitou 400 milhões de nascimentos, contudo, provocou muitas distorções na pirâmide populacional.

Ficaram para trás as imagens das crianças abandonadas em cestos nas portas de orfanatos, mas hoje a China precisa de jovens para frear o envelhecimento da população. No entanto, o custo elevado da educação e novas prioridades trabalhistas das mulheres estão fazendo com que as famílias pensem mais na hora de ter um bebê. E mais ainda para dar à luz o segundo filho.

“Temos que nos preparar muito, ter muito planejamento e fazer os cálculos do quanto isso vai custar”, disse à Agência EFE Sun Zeyu, um jovem de 28 anos que é pai de uma menina e que gostaria de ter um segundo filho.

Para ele, o mais importante para os casais é contar com a ajuda dos pais. Ter filhos, disse Zeyu, exige muita dedicação, e, atualmente, as mulheres também querem trabalhar. “A China deveria criar políticas para promover a natalidade, proibir o aborto e solucionar a dificuldade das crianças de entrar nas creches”, sugeriu.

Pesquisas publicadas nas últimas semanas pela imprensa local apontam as preocupações econômicas, o impacto nas carreiras dos pais e a educação como as principais razões pelas quais as famílias evitam ter um segundo filho.

Um relatório do Comitê de Trabalho Psicológico Social de Pequim indica que só 10,8% dos casais têm dois filhos e que 58,6% gostariam de ter mais um bebê. Em 2001, porém, 70,4% tinham o desejo de ampliar a família com mais uma criança, uma época que a política do filho único seguia em vigor.

Para a Comissão Nacional de Saúde e Planejamento Familiar, no entanto, o sucesso da nova política adotada a partir de 2016 pode ser vista em outros dados: dos 17,2 milhões de bebês vivos em 2017, 51% têm irmãos, uma alta de 5% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Os especialistas em demografia acham pouco e defendem que a China deveria promover mais políticas para incentivar os casais a terem filhos. O professor James Ling, da Universidade de Pequim, sugeriu à agência Xinhua duas medidas: reduzir os impostos e oferecer subsídios para auxiliar nos custos de criar as crianças.

Se o governo não fizer nada para estimular as pessoas a terem filhos, a previsão é que a população da China perca 800 mil pessoas por ano na próxima década.

O que ajuda quem decidiu ter filhos no país atualmente são as famílias, como explica à EFE Ran Ran, de 29 anos, mãe de uma menina. “É muito importante ter familiares que ajudam a cuidar das crianças. Quando a mãe precisa voltar ao trabalho, se os avôs não são aposentados ou não estão bem de saúde, as despesas com uma babá são muitas”, disse.

Desde a educação básica, as crianças chinesas são submetidas a uma grande pressão por causa da falta de vagas nas creches, o que obriga muitas famílias a recorrerem a alternativas privadas, com custo bastante elevado. Por isso, o investimento na educação, especialmente nas creches, é outra das medidas apontadas como prioridades pelos demógrafos para que a China reverta o envelhecimento de sua população.

(Agência Brasil)

Pesquisa aponta que população do interior é a mais satisfeita com a vida

O Índice de Satisfação com a Vida, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), constatou que a população mais satisfeita com a vida reside nos municípios do interior do país. Foi lá onde se atingiu maior pontuação, 66,9 pontos, de uma escala de 0 a 100. Os menos satisfeitos são os que vivem nas periferias, 62 pontos. A pontuação obtida por residentes nas capitais ficou em 64,7 pontos.

Também é no interior onde se tem menos medo de perder o emprego, segundo o Índice de Medo do Desemprego. Lá o índice registrado ficou em 64,5 pontos, enquanto nas capitais e periferias esse índice ficou em 67,5 pontos.

O brasileiro estava com menos medo de perder o emprego em dezembro do que em setembro de 2017. No entanto, segundo o Índice de Medo do Desemprego e o Índice de Satisfação com a Vida, divulgados nesta sexta-feira (5) pela CNI, o brasileiro está mais preocupado com essa possibilidade, se comparado a dezembro de 2016.

De acordo com o levantamento, o índice relativo a medo de desemprego estava em 65,7 pontos em dezembro de 2017. O valor representa uma queda de 2 pontos em relação a setembro do mesmo ano. Na comparação com dezembro de 2016, no entanto, o índice representa uma alta de 0,9 ponto – o que significa que o medo do desemprego aumentou.

De acordo com a CNI, o valor está “muito acima da média histórica”, que é de 48,8 pontos, e que a alta de 0,9 ponto indica “persistência da insegurança em relação à recuperação do mercado de trabalho”. A economista da CNI Maria Carolina Marques justifica essa alta explicando que o emprego reage “de forma defasada” à recuperação da economia, e que as empresas contratam somente quando têm segurança de que o crescimento será sustentado.

“A população percebe essa demora na reação do mercado de trabalho e o medo do desemprego continua elevado. À medida que o crescimento econômico se mostrar sustentado, o resultado no emprego deve aparecer com maior intensidade e o medo do desemprego deve ceder”, disse a economista.

A pesquisa da CNI apontou também que a satisfação do brasileiro com a vida diminuiu entre setembro e dezembro do ano passado, atingindo 65,6 pontos em dezembro. O valor é 0,4 ponto menor do que o registrado em setembro e 1,2 ponto abaixo do registrado em dezembro de 2016. O Índice de Satisfação com a Vida é também inferior à média histórica, de 69,9 pontos.

O levantamento da CNI, realizado a cada três meses, foi feito entre 7 e 10 de dezembro de 2017, com 2 mil pessoas, em 127 municípios.

(Agência Brasil)

Lições de hipocrisia e um excurso sobre improváveis certezas

Em artigo no O POVO desta quarta-feira (3), o integrante do Instituto do Ceará, membro da Academia Brasileira de Educação e cientista político Paulo Elpídio de Menezes Neto comenta da judicatura do “nós contra eles” nas redes sociais. Confira:

Nesta época do ano, as pessoas decidem por serem felizes a qualquer preço, ainda que pelo exercício da catarse – e buscam fixar esse precário estado de espírito como forma de libertação. Esses impulsos desiderativos são parte, convenhamos, de um providencial kit de sobrevivência: a ele nos agarramos a exemplo do Velho Fidalgo para quem pouco valiam as ponderações de Sancho.

Tudo parece ter mudado com a expansão das redes sociais, mídia alternativa que conferiu ao homem comum, simples expectador, o poder de reconstruir a realidade a partir de seus íntimos desejos, pela força dos engajamentos da fé e ou da disciplina das persignações ideológicas.

Qualquer assertiva lançada de público ou entre amigos, argumento ou simples discrepância em dissensos eventuais, encontrará, de imediato, o seu contrário, a replica, no tom de engajamento guerreiro. Ganhou foros de judicatura implacável o “nós contra eles”, direita contra esquerda, como se conhecêssemos o que de fato uma e outra pleiteam e pelo que lutam; o público e o privado, com o Estado de permeio, carregado de dissensos; a verdade popular (“a voz do povo é a voz de Deus”…) contra as engrenagens do “sistema”.

Recentemente, “coxinhas” contra “mortadelas”; e a cavilosa oposição entre o combate à corrupção e seus efeitos “funestos” sobre a economia. A defesa da pureza da raça negra contra as tentativas de miscigenação impostas pelas elites; a reserva de vagas nas universidades como estratégia de socialização de oportunidades educacionais, com a inapelável condenação da meritocracia como instrumento da conquista do saber, denunciada como expediente fascista.

A proibição da fabricação de “pâté-de-foie-gras”, como abominável prática da cozinha burguesa e dos padecimentos infligidos aos gansos; agora, a proibição da carne às segunda-feira (o rito católico, a impunha às sextas-feiras, segundo antiga tradição mosaica); na luta pela Previdência Social, a contraposição entre funcionários públicos e trabalhadores privados; a liberação da arte como forma de expressão dos conflitos sociais, morais e sexuais, sem consideração mínima pelos valores estéticos da criação artística, de suspeito sabor burguês; a proibição da vaquejada pela piedade que inspira o sofrimento dos garrotes e bovinos crescidos, esquecidos que deles nos alimentamos, depois de os abatermos; a sublevação dos réus de “colarinho branco” contra o sistema judiciário, já que aos desvalidos de colarinhos não tocam as exceções pretendidas.

A cada uma dessas contraposições factuais corresponde uma classificação sem perdão: não basta denunciar o opositor, caído em pecado de heresia por grave dissensão de opinião, como retrógrado, reacionário, liberal, neoliberal, fascista ou comunista – há que desmoralizá-lo e os seus argumentos. Por que nos preocuparmos com esses desvios de conduta ideológica? Todo mundo, a rigor, está mentindo. Afinal, o segredo da mentira, para que as “fake news” ganhem o contorno de realidade e possam sugestionar a opinião política, está em não ultrapassar os limites da verossimilhança: “esta mentira é verdade?”.

O uso da “teoria da cegueira deliberada” na Lava Jato

Editorial do O POVO deste sábado (30) critica a “teoria da cegueira deliberada”, quando um juiz pode considerar culpada uma pessoa que movimentou dinheiro ilegal, mesmo sem que ela tenha conhecimento da natureza ilícita dos recursos. Confira:

O jornal Folha de S.Paulo publicou extensa matéria (28/12/2017) mostrando que os juízes à frente dos processos da Operação Lava Jato estão usando com frequência uma “doutrina jurídica estrangeira” para fundamentar condenações pelo crime de lavagem de dinheiro, quando se defrontam com provas frágeis para inculpar os acusados.

Essa doutrina, conhecida como “teoria da cegueira deliberada”, é mais utilizada nos Estados Unidos e alguns países da Europa, tendo sido formulada no século XIX, na Inglaterra. Por esse método o juiz pode considerar culpada uma pessoa que movimentou dinheiro ilegal, mesmo sem que ela tenha conhecimento da natureza ilícita dos recursos. Ou seja, durante o julgamento, o juiz reconhece não haver provas que o réu soubesse que o dinheiro era resultado de corrupção, mas o condena assim mesmo, sob o argumento de que ele tinha motivos para suspeitar da irregularidade.

Pelo levantamento do jornal, desde o início da Lava Jato, os juízes de primeira instância Sergio Moro (Curitiba) e Marcelo Bretas (Rio de Janeiro) condenaram 121 pessoas por lavagem de dinheiro, sendo 13 delas com a aplicação da doutrina da cegueira deliberada, incluindo João Santana, ex-marqueteiro do PT, e sua mulher Mônica Moura. Mas não é novidade a aplicação de doutrinas oriundas de outros países pelo Judiciário brasileiro, como foi o caso da teoria do domínio do fato, utilizada na ação penal 470, conhecida como “mensalão”.

Entende-se que o Judiciário queira combater a impunidade, principalmente quando se trata de crimes complexos, como lavagem de dinheiro, que deixam poucas pistas, restando ao juiz estudar o contexto para chegar a alguma conclusão. Mas há de se levar em conta que essas fórmulas não constam no Código de Processo Penal brasileiro e podem levar ao cometimento de graves injustiças.

Portanto, em tema de tamanha envergadura, o melhor seria ampliar o debate, levar o assunto ao Legislativo para que seja mais bem estudado. E, se for o caso, incorporar a doutrina ao ordenamento jurídico brasileiro com os cuidados necessários para não deixar aberta uma porta tão larga à subjetividade de cada julgador.

Presságio de um ano bom

Em artigo no O POVO deste sábado (23), o professor universitário e jornalista Magela Lima aponta perspectivas para 2018. Confira:

Gostar mesmo, eu não gosto, não. Fujo de filas. Diante do inevitável, porém, acabei desenvolvendo uma técnica de sobrevivência. Premeditadamente, elenco uns três ou quatro assuntos que rendam e ajudem a passar o tempo mais rápido. Dia desses, numa loja dessas de mulherzinha, já me preparava para falar da volta da Clara, quando fui surpreendido pela moça do caixa. Ao concluir cada pagamento, ela desejava aos clientes boas festas e dizia esperar que, em 2018, enfim, o Brasil superasse a crise.

Lá pelas tantas, uma das minhas colegas de fila resolveu encompridar a conversa. Eu adorei. A senhora tinha um prognóstico extraordinário para o próximo ano. Ela foi enfática: “2018 não tem história de crise, não”. E justificou: primeiro, o Carnaval é logo no início de fevereiro; depois, é ano de Copa do Mundo e a seleção nem se compara com a de 2014; lembrou ainda que 2018 tem eleição e tudo fica uma maravilha, porque é quando os políticos decidem trabalhar; por fim, garantiu que o inverno vai ser dos bons.

O mais surpreendente foi que nenhum outro cliente tomou para si o compromisso com o tal do contraditório. Por um instante, estávamos todos ali contagiados por aquela energia positiva, tão rara nos últimos tempos. Por um instante, imaginei um 2018 sem Michel Temer, sem Gilmar Mendes, sem Reforma da Previdência, sem recorde de homicídios… O Natal tem dessas coisas. Algo acontece e a gente recobra uma esperança que deveria nos acompanhar todos os dias. Quisera um ano recheado de natais.

Talvez, assim, tivéssemos passado por esse 2017 menos angustiados. 2017 foi um ano detox. Um ano em que tivemos que aprender a conjugar e viver o verbo expurgar. Um ano de felicitâncias, como diria minha amiga Namarcia, tão escassas e de dores tão persistentes. Um ano em que, praticamente, não experimentamos nenhuma grande felicidade coletiva. Para 2018, quero muito que a minha colega de fila seja bem-sucedida em suas previsões, mas quero um pouco mais. Quero um ano mais de abraços, ombros, mãos dadas e presenças. Quero um ano plural, que supere o excessivo singular desse singular 2017. Que assim seja.

Autorização para psicólogos aplicarem terapia de reorientação sexual é mantida

O juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, da 14ª Vara Federal de Brasília, decidiu hoje (15) tornar definitiva a decisão liminar (provisória) que havia proferido em setembro deste ano, autorizando psicólogos a atenderem eventuais pacientes que busquem terapia para mudar sua orientação sexual. A decisão garante aos psicólogos a “plena liberdade científica de pesquisa” para realizar estudos sobre transtornos psicológicos e comportamentais ligados à orientação sexual.

A ação popular foi aberta por três psicólogos que alegaram estar sendo alvo de perseguição pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). Segundo eles, por meio de uma resolução editada em março 1999, o CFP estaria tentando perseguir psicólogos que ofereçam terapia de reorientação sexual.

O texto da resolução proíbe os psicólogos de exercer qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, bem como de colaborar com eventos ou serviços que proponham o tratamento e a cura da homossexualidade. A determinação, segundo o CFP, baseia-se no entendimento da Organização Mundial de Saúde (OMS) de que a homossexualidade não é uma doença, um distúrbio, nem uma perversão.

Para os autores da ação popular que questiona a resolução, a iniciativa do CFP impede os psicólogos de atender eventuais pacientes que procurem ajuda para tentar reverter sentimentos ou comportamentos que lhes provoquem desconforto ou transtornos devido à orientação sexual. Eles alegam que a norma deixa como única alternativa de tratamento obrigar os pacientes a aceitar uma homossexualidade indesejada.

O juiz concordou com os argumentos. Ele afirmou que sua decisão de reduzir o alcance da resolução do CFP serve para que os psicólogos possam “exercer sua profissão de forma mais livre e independente”.

A decisão não revoga a norma, mas determina ao CFP “que se abstenha de interpretar a Resolução nº 001/1999, de modo a impedir psicólogos, sempre e somente se forem a tanto solicitados, no exercício da profissão, de promoverem os debates acadêmicos, estudos (pesquisas) e atendimentos psicoterapêuticos que se fizerem necessários à plena investigação científica dos transtornos psicológicos e comportamentais associados à orientação sexual egodistônica”.

Ele reforçou, no entanto, que qualquer terapia de reorientação sexual deve ser aplicada somente a quem a procura de forma voluntária, não devendo ser objeto de propaganda ou de oferta fora dos consultórios. “É evidente que o atendimento psicoterapêutico a pessoas em conflito com sua própria orientação sexual deve ser realizado de forma reservada, sem propagação (qualquer forma de propaganda), conforme já consignado na liminar, respeitando sempre o sigilo profissional, a vontade do paciente e, sobretudo, a dignidade da pessoa assistida”, diz a decisão desta sexta-feira.

Apesar de restringir o alcance da resolução do CFP, o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho determinou que os processos disciplinares que o órgão conduz sobre o assunto não sejam interrompidos, nem tampouco revertidas eventuais sanções já aplicadas.

(Agência Brasil)

Excessos da Polícia Federal têm de ser contidos

Editorial do O POVO deste sábado (9) aponta que “parece que a PF está se viciando em ações espetaculosas para atrair holofotes, sem se importar com os danos que isso possam causar a terceiros”. Confira:

A operação “Esperança Equilibrista”, que a Polícia Federal deflagrou para apurar supostos desvios na construção do Memorial da Anistia Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), remete à ação parecida em Santa Catarina, na UFSC. No mês de setembro, o então reitor da universidade, Luiz Carlos Cancellieri, foi preso pela PF, que investigava suposto desvio de dinheiro de programas de ensino à distância.

Cancellieri não era acusado de desvio dos recursos, porém suspeito de tentar encobertar a suposta fraude, que teria sido praticada pelo seu antecessor. Solto alguns alguns dias depois, mas proibido de retomar o cargo ou de frequentar a universidade, ele cometeu suicídio. Até hoje não se provou que ele houvesse obstruído as investigações.

Na UFMG foram conduzidos coercitivamente à sede da PF o reitor Jaime Arturo Ramirez, a vice-reitora Sandra Regina Goulart Almeida e também o presidente da Fundação de Desenvolvimento e Pesquisa (Fundep), Alfredo Gontijo de Oliveira.

Houve reação imediata de intelectuais, de ex-reitores da UFMG, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e de várias personalidades individualmente, protestando contra a forma como a operação foi conduzida.

A nota de oito ex-reitores e três ex-vice-reitores afirma que a condução coercitiva deu-se em confronto com o Código de Processo Penal. Mais duro, o documento da SBPC lembra que as ações da PF na UFSC e UFMG “remetem a tempos autoritários vividos anteriormente no país e contra os quais a SBPC e a sociedade brasileira lutaram com afinco”, comparação direta com o período ditatorial.

Não se cogita, por óbvio, querer limitar as ações da Polícia Federal ou estabelecer o que ou quem pode ou não ser investigado, sejam pessoas, sejam instituições. No entanto, são inegáveis os excessos cometidos pela PF nas duas ações nas universidades – e também por alguns delegados, em outras ocasiões.

O fato é que, tirando alguma possível razão oculta, que ainda não está clara, parece que a PF está se viciando em ações espetaculosas para atrair holofotes, sem se importar com os danos que isso possam causar a terceiros. E esse tipo de procedimento tem de ser contido, pois é inaceitável e perigoso para a democracia.

A meritocracia como ferramenta de desigualdade

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Em artigo no o POVO deste domingo (3), o sociólogo e professor universitário André Haguette aponta que “a meritocracia pode funcionar em ambientes específicos de trabalho que reúnem iguais, uma arma usada para consolidar uma desigualdade prejudicial a todos”. Confira:

No mês passado, sugeri neste espaço quatro políticas capazes de diminuir a obscena desigualdade de nossa sociedade, entre elas, a extinção da escola básica particular e do sistema de saúde privado em favor da universalização do ensino público e do SUS.

A sugestão de uma escola única pública reunindo alunos de todas as classes sociais foi positivamente recebida como compatível com a promoção de uma maior igualdade, embora o ceticismo em relação à sua possível adoção foi generalizado, não se acreditando que ela viesse a ser efetivada mesmo sabendo que essa política levaria à fundação de uma sociedade mais rica e melhor de se viver. Pensa-se que a burguesia e a pequena burguesia jamais irão largar o osso da produção de sua superioridade hierárquica: a escola particular como produtora de capital cultural e causadora de diferencial econômico, mesmo que isso mantenha baixa a produtividade da economia brasileira. Sabe-se hoje o quanto a igualdade é promotora de riqueza e paz social.

Ocorreu-me que nossa intensa desigualdade é também mantida e reproduzida pela difundida tese da meritocracia que argumenta que os benefícios e as recompensas sociais pecuniários ou de prestígio devem ser distribuídos segundo méritos individuais.

Essa tese é amplamente aceita e defendida pelas classes médias, apesar de sua evidente insensatez. Como escreve Jessé Souza no seu livro A Elite do Atraso: é insensato “imaginar alguém da classe média (ou alta, acrescento) como possuidor de um mérito individual que na realidade é socialmente construído sob a forma de privilégio herdado… A desigualdade típica da apropriação diferencial do capital cultural de todas as classes abaixo da elite financeira decorre da socialização familiar”. É evidentemente forçoso admitir que existem habilidades naturais diferenciadas entre indivíduos; a natureza biológica não é justa, nem democrática. Mas essas habilidades, para desabrocharem e frutificarem, precisam ser cultivadas e desenvolvidas em um ambiente societário e familiar favoráveis; em ambientes fortemente diferenciados como os nossos, essas habilidades florescem ou adormecem segundo o lugar ocupado pelo indivíduo no sistema hierárquico estabelecido. Joga-se então um jogo previamente jogado; os dados estão viciados. O indivíduo não é uma ilha e seus talentos não afloram naturalmente, espontaneamente; são excitados ou congelados pelas condições materiais e simbólicas que lhe são ofertadas.

No que diz respeito ao capital cultural e à escolaridade, é evidente que os filhos das classes altas e médias são estimulados a um bom desempenho desde muito novos, como escreve ainda Souza. O hábito de leitura dos pais, o estímulo à fantasia por meio de livros, jogos e histórias contadas pelos pais, a familiaridade com línguas estrangeiras despertada desde cedo, tudo milita a favor. Na família dos excluídos, tudo milita em sentido contrário.

A ideologia da meritocracia pode funcionar em ambientes específicos de trabalho que reúnem iguais, como num colegiado de professores universitários, entre gerentes de empresas, entre bancários e outros profissionais congêneres, mas referida à sociedade como um todo, ela é uma hipocrisia, uma falácia, uma arma usada para consolidar uma desigualdade prejudicial a todos.

Ódio, intolerância e descrença

Em artigo no O POVO deste domingo (26), o psicanalista Valton de Miranda Leitão avalia que o o vertiginoso avanço do “mercado livre”, que privilegia uma minoria em detrimento da grande maioria, está retirando direitos debaixo da capa do formalismo jurídico. Confira:

O mundo vive o avanço de uma onda conservadora, cujo Seismo (o deus marinho dos terremotos e maremotos) é o ódio alimentado por toda sorte de preconceitos que a brutal ignorância se encarrega de acolher, criando álibis para a destrutividade.

A história registra as mais diversas manifestações da crueldade humana, tanto nas inúmeras guerras, cuja carnificina mostra toda a dimensão da periculosidade do homem, enquanto, por outro lado, tenta conter seus impulsos bestiais, punindo o crime com castigos mais horripilantes. Atirar um condenado ao mar dentro de saco cheio de serpentes, triturá-lo numa roda de esquartejamento, desmembrá-lo com cavalos disparados para várias direções tendo pés e mãos amarrados, enforcamentos, cadeira elétrica, morte química e outras “bondades” da natureza humana. Durante o século XIX, a luta contra a pena de morte não era simplesmente pela ineficácia da medida, mas pelo ódio que a prática cultivava.

O sistema educacional mundial usou durante séculos o açoite com chicote e palmatória para estruturar o caráter dos futuros cidadãos, alimentando com igual intensidade a violência que estourava nas guerras. Foi somente no início do século XX que a maioria dos Estados civilizados conseguiu abolir a pena de morte e o açoite sob os protestos de partidos nazifascistas e religiosos apegados à Lei do Taleão, do Velho Testamento. A Bíblia está cheia de passagens, nas quais a correção do mau comportamento admite o castigo corporal, embora enfatizando o amor como suprema virtude.

O mundo está dividido politicamente entre os que acreditam na força comunitária do bem público e os que afirmam a primazia do privado capaz de engendrar transformações benéficas para o conjunto da população. Essa última ideia foi tematizada por Adam Smith, no século XVIII, com a noção de uma mão invisível que distribuiria os lucros dos muito ricos com o povo e, naturalmente por ineficaz, o conceito se tornou letra morta. Os socialistas, ao contrário, sempre apostaram no igualitarismo e no Estado distributivista que floresceu após a Segunda Guerra Mundial e agora entra em colapso. Essa queda está acontecendo atualmente no mundo e no Brasil com o vertiginoso avanço do “mercado livre”, que privilegia uma minoria em detrimento da grande maioria de seres humanos, cujos direitos duramente conquistados estão sendo usurpados e retirados debaixo da capa do formalismo jurídico.

O ecocídio que atinge a natureza planetária equipara-se ao genocídio desse holocausto que a matrix-mídia esconde com sua capacidade invencível para a mentira. O relativismo ético incorporado ao discurso político usa Deus como avalista do Estado de Exceção. A descrença em todas as instituições corrompidas desmobiliza a população, enquanto o fascismo ataca o centro produtor do saber, a Universidade.

O absurdo da atual situação brasileira é que nasceu gigantesca insegurança jurídica com a desmoralização do Poder Judiciário, alimentando a descrença na mudança em benefício do povo.

A Ética Enlouquecida

Em artigo no O POVO deste domingo (29), o psicanalista Valton de Miranda Leitão diz que o Brasil vive uma inversão do sistema ético-jurídico-político-midiático. Confira:

Os retóricos sabem que a semântica de uma palavra pode ser modificada pela natureza persuasiva de um bom orador, pela má consciência de um político, sacerdote e/ou pastor, pela filosofia e, atualmente, pela perversão midiática.

Espinosa usou a retórica contra a própria retórica na sua Ética para mostrar como era fácil essa inversão, quando a virtude esconde o vício da arrogância.

A imprensa brasileira abusa do termo “liberdade” com desfaçatez, culminando na perversão da Globo. Atualmente, a palavra tomou dimensão tão aviltada que o bandido Marcola, numa entrevista, referiu-se claramente à ética do PCC.

Grandes empresas, como a Volkswagen e a fabricante de airbags Takata, são o exemplo mais gritante de que não pode existir ética concorrencial no mercado, pois este é estruturalmente corrupto e depende fundamentalmente da mentira e da fraude para sobreviver.

O consumo, filho do mercado, paira sobre a sociocultura mundial e brasileira com sua força corruptora, invadindo os poderes da República. Kant pretendia que o homem seria possuidor de uma ética a priori, portanto, a noção de dever e justiça já estaria na razão humana, isso é algo que a realidade sociocultural planetáriadesmente completamente.

O Brasil vive uma inversão do sistema ético-jurídico-político-midiático de tal monta que não pode haver dúvida sobre a vigência do estado de exceção, que funciona sob a máscara da democracia. Debaixo do beneplácito da lei, direitos de negros, indígenas e mulheres são ameaçados, enquanto domicílios são invadidos e prisões coercitivas feitas ao arrepio da ordem. Instala-se o “jus manipulandis” que permite a sobreposição da convicção do juiz à interpretação objetiva das leis.

Os atos institucionais que em 1964 permitiam aos militares invadir casas, queimar livros e prender pessoas sem ordem judicial agora estão reeditados a partir do imperativo categórico ético de um (a) juiz (a) que autoriza a brutalidade policial.

A aparência democrática dá origem a um estado de estupor na consciência social que não percebe o tamanho da inversão econômica praticada sob o comando de um farsante para incrementar privilégios injustos de banqueiros e capitalistas, enquanto penaliza a classe média e a minorias.

Weber escreveu a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, e suas conclusões são muito atuais no Brasil. A participação do protestantismo pentecostal na (des) ordem brasileira atual é tão clara que até as pedras já sabem.

O mais recente ato da parte (des)ordeira do Judiciário foi a condução forçada e prisão do reitor da Universidade de Santa Catarina sem que nenhuma prova de culpabilidade existisse, humilhando um profissional e invadindo o espaço universitário que em qualquer parte do mundo é preservado até pelas ditaduras mais ferozes.

Humilhado e ofendido, o professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo cometeu suicídio. A educação e o pensamento no Brasil estão sob ataque constante, tanto no ensino médio quanto universitário, empobrecendo a capacidade crítica, própria do saber universitário.

Obra que retrata a “cearensidade” é relançada na Câmara Federal

O que é a “cearensidade”? Esse é o tema do livro “O Cearense”, de autoria do ex-governador, ex-ministro do Governo JK, advogado e jornalista Persifal Barroso, que foi reeditado 48 anos depois de seu lançamento.

Nesta quarta-feira (18), na Câmara dos Deputados, o empresário Igor Queiroz Barroso, neto do autor do livro e Membro Benemérito da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (ACLJ), apresentou a obra que retrata a construção cultural e social do povo cearense.

O deputado federal Raimundo Gomes de Matos (PSDB-CE) autor do requerimento do relançamento do livro, em Brasília, no salão nobre da Câmara Federal.

(Foto: Divulgação)

O massacre de Las Vegas

Em artigo sobre a tragédia em Las Vegas, o médico, antropólogo e professor universitário Antonio Mourão Cavalcante avalia o comportamento do assassino. Confira:

Las Vegas é uma cidade muito estranha. Nela trafegam pessoas cheias de sonhos. A imensa ilusão do dinheiro: ficar rico. Milionário. Contrastando com o desespero dos imediatamente empobrecidos. Pelas ruas há um constante desfile de limousines, luxo e glamour, flanando com os párias – quase sempre drogados – que pedem moedas para sobreviver… Pode-se verificar a existência de uma prostituição desenfreada. Em qualquer mesa que você chega ou telefone público, há panfletos com mulheres oferecendo seus corpos para encontros: “Se você quer passar uma noite feliz, me telefone. Estou lhe esperando.”

Na avenida principal há a distribuição de imensos hotéis, intensamente iluminados, prometendo alegria e felicidade. Sucesso. Todos estes hotéis apresentam imensos salões de jogos. Dão a impressão/sentimento de estarmos em um ambiente muito mórbido. O barulho, estranha sinfonia de máquinas caça-niqueis em um tilintar de moedas caindo. Ensurdecedor. Aquelas pessoas lentas, sonolentas, diante daquelas luzes piscando, dá a impressão de algo dantesco. Estranhamente, todo tempo fumando e comendo guloseimas.. Muito depressivo. Muitas pessoas obesas. Bólidos de gorduras. Não gostei. Senti, digamos assim, um ambiente muito pesado. Doentio. Ali pessoas se afogam e perdem fortunas…

Tudo alimentado pela grande ilusão de – imediatamente – ficar rico. Você pode ser sorteado e ganhar milhões de dólares…. Uma cidade muito pesada. Muito carregada. Completamente destituída de autenticidade. Uma alegria falsa. Uma possibilidade de sucesso ilusório.

Fechando essa hipótese – ninguém é sem culpa – ouso afirmar que o assassino de Las Vegas não atirou naquelas pessoas… Ele atirou na alegria. Atirou na festa. No grupo. Ele atirou na suposta felicidade. A mesma que ele não tinha e nem nunca teve. Não esboço uma defesa, mas tento encontrar um senso. É como se ele rejeitasse: isso não pode existir. Tenho que destruir. É tudo uma farsa. Mentira! Então, ele pega as armas mais possantes que ele pôde encontrar. A polícia já encontrou 42 armas em sua casa e no local do crime. O tresloucado colocou até um dispositivo nas armas, permitindo disparar toda a munição.

O que ele queria destruir? Por que o ódio feroz? Simples: pessoas felizes, que cantavam, dançavam…Alegres. Aquilo que ele não pôde ter. E, ao final, como ele não conseguiu exterminar, destruir literalmente tudo aquilo que lhe causava tanto desespero, ele se mata. É a metáfora dessa história.

Do ponto de vista individual, pode-se afirmar que a alma de um indivíduo assim, está despedaçada. O lado emocional, sentimental, estava estilhaçado há muito tempo. Dentre as poucas informações que circularam, chamou-me atenção a que referia ter ele, em criança, experimentado um ambiente familiar caótico. Muitas brigas e violência. Alguém dirá, se todo mundo que foi batido na infância, que teve ambiente familiar violento, for apresentar essa reação, o mundo está ferrado. Nele, a reação foi essa. Existem pessoas que são mais sensíveis. Emocionalmente mais instáveis. Além de outros episódios que seguramente serão revelados mais para frente.

Logo após o episódio, a imprensa começou a divulgar os dados estatísticos de mortos e feridos. O Governo interveio e pediu que não fossem dadas informações desse tipo: foi o mais espetacular, bateu todos os recordes, etc. Isso estimularia outros a repetir o episódio, tentando bater novos recordes. Fica evidenciado o espírito competitivo da sociedade americana. Do vencedor. Do campeão. Ou como sugere o Presidente Trump: América first!

A nudez de Lulu

Em artigo no O POVO deste sábado, o jornalista e professor universitário Magela Lima comenta da tolerância da nudez por parte da população de Várzea Alegre. Confira:

Sempre que a realidade objetiva me assusta, procuro refúgio numa realidade subjetiva que, talvez, só exista na saudade. Naturalmente, fujo da crueldade de uma Fortaleza de corpos esquartejados e carbonizados aos quatro cantos. Fujo também de uma São Paulo, o maior centro do País, que me surpreende com uma violência simbólica que criminaliza uma mãe por levar sua filha, ainda criança, ao museu e coincidir de verem juntas a performance de um artista nu. Fujo e vou parar numa cidade hoje invisível, onde convivi com pessoas extraordinárias.

Entre as figuras ilustres da minha Várzea Alegre, Lulu tem lugar de destaque. Foi o maior jogador de xibiu que eu já vi. Portador de Síndrome de Down, quiçá o primeiro da cidade, Lulu era muito, muito, muito popular. Entrava e saía de qualquer casa, a qualquer hora do dia. Não tinha isso de alheio para ele. Fosse onde fosse, Lulu matava a fome, a sede e, se o calor batesse, não se furtava a tomar banho para se refrescar. Um transeunte mais desavisado poderia se indignar: “Tem um homem nu no jardim de fulano de tal”. De imediato, alguém mais experimentado na cidade rebateria: “Não é homem nu, não. É Lulu!”.

Na Várzea Alegre dos meus tempos de menino, a nudez de Lulu nunca foi polemizada. Não lembro nada que pudesse remeter a pudor. Definitivamente, aquele corpo não tinha nada de erótico, de sensual. Lá em casa, por exemplo, aquele nu foi pretexto para que nós fôssemos, desde cedo, habilitados a conviver e respeitar os limites do outro. Lulu tinha idade de ser nosso tio, era conhecido da nossa mãe há muito tempo e, sem muito rebuscamento ou retórica, ela nos ensinou com maestria a lidar com a diferença.

A nudez de Lulu, de todo modo, marcou minha infância. Aquela situação era engraçada, sem ser ridícula. Era simples, sem ser banal. Lembro daquilo como um gesto de liberdade, de espontaneidade, de tolerância. Quando tinha calor, Lulu tomava banho. Pronto. Nunca precisou ninguém me explicar por que isso era permitido a ele e negado a tantos outros. Lulu conquistou o direito de ser, de viver, de praticar algo diferente. Como é bom ser diferente! Talvez, fosse isso que a mãe da menininha de São Paulo quisesse exercitar naquela ida ao museu: a diferença. Todos nós devíamos fazer isso mais vezes.

O hábito da censura

Em artigo no O POVO deste sábado (14), o jornalista Marcos Sampaio aponta que a qualidade da arte está nos olhos de quem a vê, não somente na intenção do autor. Confira:

Estava entrando no ensino médio quando recebi um convite da direção do colégio onde estudava. Diante do número gritante de pichações e objetos quebrados pelos alunos, me pediram para fazer um trabalho de conscientização contra aquela situação. A ideia é que eu usasse a arte para mostrar o tamanho do prejuízo que o colégio tinha para consertar aquilo tudo. Não foi dada nenhuma orientação, apenas teríamos liberdade para construir algo que impactasse. Mais de 20 anos se passaram e ainda não entendi por que a missão foi confiada a mim. Mas reuni uma turma de colegas e pomos mãos à obra.

Com o colégio a nosso dispor durante um fim de semana, fomos verificar onde o “vandalismo” agia com mais força. Vendo que os banheiros é que mais sofriam, fotografamos todos os palavrões escritos nas paredes e ainda os transcrevemos em cartolinas. Esse foi o ponto de partida para uma instalação gigante colocada no corredor principal daquela escola católica. Além de cartolinas repletas de recados para mães e irmãs e desenhos das mais criativas posições eróticas, o cenário foi composto pelas cadeiras, descargas, equipamentos esportivos e vários outros objetos quebrados.

Os olhos arregalados e as caras de vergonha na segunda-feira seguinte são inesquecíveis. Se a instalação atingiu o objetivo que a escola queria, não sei. Mas lembro que muitos se envergonharam e se impactaram de ver suas brincadeiras adolescentes, provocadas pela explosão hormonal, expostas para quem quisesse ver. Parece que as brincadeiras passaram a ser relativizadas e repensadas quando deixaram de escondidas.

Os cartazes cheios de palavrões causaram espanto e, imediatamente, foi pedido que fossem retirados da obra. Eu nem sabia o que era uma instalação artística, mas já aprendi rápido sobre censura. Sem querer, o que deveria alertar para um problema que afetava a todos, tornou-se uma discussão sobre comportamento e se a boa educação permitia ou não duas ou três palavras sujas. Ninguém ali era exemplo de retidão, mas o que acontecia dentro dos banheiros deveria permanecer ali. Com o trabalho mutilado, não demorou para que ele fosse tirado do corredor. Então, pudemos voltar à rotina e às depredações. Mas a isso já estávamos acostumados.

Minha casa, minha vida

Em artigo no o POVO deste domingo (24), o psiquiatra Cleto Pontes aponta que “aventureiros, mal intencionados, porém habilidosos, dirigentes brasileiros conseguem liderar multidões ao descalabro”. Confira:

Nascemos para a liberdade. É condição atávica do ser humano, prisioneiro do determinismo genético e cultural. Um pássaro no ovo já está programado para voar, enquanto os mamíferos dependem de maior tempo pós-parto para se garantirem no mundo. Humanos hoje mais do que nunca necessitam de apoio afetivo e ensinamentos intelectuais, sob o risco de se tornarem eternos prisioneiros de suas limitações. Três fenômenos acompanham o nosso processo civilizatório: religião, dinheiro e império.

Na época nômade de viver de caça e colher frutos da terra sem domicílio fixo, a população do globo girava em torno de 1% da atual de 7 bilhões de habitantes. Pagamos altos tributos às religiões e aos impérios no apogeu de suas ideologias e, mais ainda, em seus declínios, com base no paradigma germina, floresce, engrandece ao ponto de fenecer. O politeísmo, por exemplo, começou a declinar 1.700 anos a.C., abrindo espaço para o judaísmo monoteísta e o cristianismo. Em tempos atuais, a reinvenção hegemônica do islamismo, como diria J. Lacan, busca um retorno aos fundamentos. Do “obscurantismo e medievalismo”, a filosofia impôs o iluminismo, legitimando uma fusão de impérios com religiões “laicas”: cientificismo, marxismo, capitalismo, freudismo, etc. “Igrejas temáticas” foram geradas como neobarrocas, neogóticas, pós-modernas, stalinismo, chavismo, petismo etc.

Cidades, metrópoles e megalópoles reacendem o instinto de prisioneiro e, conseguintemente, o anseio do homem por liberdade, levando a novos conceitos de incluídos e excluídos do mundo material, carentes de respaldo ideológico. No império romano, alguns escravos se achavam incluídos e outros não. Aqueles revoltados ameaçadores da estabilidade do status quo, eram capturados pelo “poder público” para serem engolidos por leões em arenas meio a uma plateia ávida de insatisfação. A ética era muscular.

A palavra representa um grão de areia, pensavam os sábios chineses, diante da montanha quase intransponível das muitas ações humanas. Os ocidentais que acreditam em marketing salvador lançaram ideias como o “Fome zero” e o “Minha casa, minha vida”, programas sociais recentes no Brasil. Aventureiros, mal intencionados, porém habilidosos, dirigentes brasileiros conseguem liderar multidões ao descalabro. O cupim não trabalha só e, sim, com o seu exército. Os “autoexcluídos” ricos e poderosos hoje encarcerados motivam-nos a pensar em um novo modelo de celas, financiadas por jogos de azar e construídas nas terras cobiçadas pelo MST. Os criminosos da elite seriam obrigados a colocar a mão na massa em prol de um novo programa de cadeia para todos. Assim, suas fortunas indevidamente acumuladas voltariam ao sistema produtivo. A utopia não deve ser banalizada, apesar do paradoxal sentimento de descrença reinante. Nova Zelândia é um exemplo de redução de corrupção. Questão moral difícil de resolver, é preciso cultivar o típico sul-americano tamanduá-bandeira em extinção, a fim de debelar de uma vez por todas o cupinzeiro instalado na nossa amada terra brasilis.

Grupos extremistas fortaleceram-se com Trump, dizem especialistas

Instigado pelo Congresso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, promulgou uma resolução que condena supremacistas brancos no violento episódio de Charlottesville – que há um mês terminou com a morte de uma ativista antirracismo. Internamente, questiona-se qual o papel do próprio Trump no fortalecimento de grupos extremistas, já que relatórios mostram aumento de 17% dos grupos extremistas desde que ele assumiu o poder.

O levantamento foi feito pela Southern Poverty Law Center (SPLC, sigla em inglês para Centro de Lei de Pobreza do Sul, em livre tradução, uma organização não governamental, que monitora e combate a ação de grupos extremistas. A resolução bipartidária – aprovada por democratas e republicanos no Congresso – levou o presidente da República a reconhecer a participação de grupos racistas nos protestos.

O texto que Trump assinou diz que o governo norte-americano “rejeita os nacionalistas brancos, os supremacistas brancos, a Ku Klux Klan [organização racista], os neonazistas e os outros grupos que defendem o ódio”.

A doutora em sociologia do Instituto de Estudos Urbanos Deirdre Oakley disse que, embora as tensões raciais nunca tenham deixado de existir, alguns dos grupos se fortaleceram com Trump. “O racismo neste país é estrutural e está bem vivo desde seus primórdios. O Movimento dos Direitos Civis e a legislação apenas o fizeram mais sutil”, afirmou.

O professor Daniel Pasciuti, da Georgia State University, concorda que protestos como o de Charlottesville, ocorrido recentemente, são de extremistas dentro da maioria branca, insatisfeitos com os “ ganhos reais das minorias [especialmente os afro-americanos)] nos Estados Unidos”.

Na campanha, Trump se voltou para a parcela da sociedade que se ressentiu da vitória e dos avanços da agenda de Obama na área dos direitos civis. O professor exemplificou com a própria eleição de Obama, primeiro negro na Presidência dos Estados Unidos, e a aprovação do casamento gay. “Parte da população branca, historicamente privilegiada, viu sua posição econômica e política se deteriorar, ao mesmo tempo em que percebia o fortalecimento de outros grupos”.

(Agência Brasil)

Romper com o ciclo da exclusão

Em artigo sobre como a política e uma gestão pública de qualidade podem transformar para melhor a vida da população, o ex-prefeito de Sobral, Veveu Arruda, ressalta a história do casal Antonio Zé e Lourdes, quando seus filhos romperam com o ciclo de pastoreio de gado e agricultura, que há gerações era imposto à família. Confira:

Lourdes e Antonio Zé, filhos de um vaqueiro e de um pequeno agricultor, respectivamente, são casados e têm três filhos. O casal é analfabeto. Assim como seus pais, avós, bisavós e demais antecedentes. Seus ancestrais, como eles também, tiravam a sobrevivência pastoreando gado alheio ou arrastando terra para cima de seus pés, com enxadas nas mãos, fazendo os seus roçados em terras alheias, sob regras feudais, para colherem o milho e o feijão; muitas vezes, insuficientes para a sobrevivência de suas famílias, sempre numerosas. Há tempos de fome em suas vidas. Nos centros urbanos, outros personagens, noutras atividades têm a mesma história.

Pois bem! Carol, Silvestre e Luana são os filhos do Antonio Zé e da Lourdes. Todo o percurso formativo deles tem sido em escolas públicas, em Sobral. Carol, a mais nova, está concluindo o Ensino Médio; Silvestre, o do meio, está concluindo o curso de Geografia e Luana, após o Ensino Médio Integrado, é técnica de enfermagem e trabalha na Santa Casa, hospital filantrópico. Ou seja, eles estão rompendo com a fatalidade do ciclo de miséria e de exclusão que lhes foi imposto. Superam o destino sem novos horizontes que já estaria definido para eles quando nasceram. Não haveria alternativas, a exemplo de seus antepassados.

Lourdes tem 54 anos e a sua filha Luana tem 24. O que aconteceu para ambas, mãe e filha, terem possibilidades tão diferentes, se nasceram sob o mesmo céu e sobre o mesmo chão? Em pleno semiárido cearense, aonde a natureza tem características singulares, muito próprias, como pouca água, pouco solo, pouca flora. De muito, só o sol e a força dos sertanejos. Características que são álibis fortes e recorrentes para justificar o fracasso das ações governamentais de governos que terminam por ser causa e efeito desta mesma realidade.

A resposta está na política e na gestão pública, firmadas numa concepção de princípios democráticos e republicanos, fundada em valores como a pluralidade, a solidariedade e o humanismo. O foco é a busca de superação de uma velha cultura política de privilégios, do fisiologismo e do paternalismo, e a construção de uma nova cultura política afirmativa de direitos e deveres, num processo participativo, criativo e inovador.

Na nossa opção pela construção e fortalecimento da democracia no território municipal, não poderíamos deixar de priorizar a Educação, o instrumento mais poderoso para realizar as transformações estruturais de qualquer nação. Sobretudo, quando queremos enfrentar e resolver o gravíssimo problema das terríveis desigualdades socioeconômicas também presentes em Sobral, e que fazem do Brasil o País mais desigual entre as economias organizadas do mundo.

Por certo, não era somente o roçado do Antonio Zé que iria assegurar a cidadania, a emancipação econômica e o bom futuro para sua família, seus filhos e netos. E certamente não será do chão (dos minérios e grãos) ou do fundo do mar (do precioso Pré-sal) que o Brasil assegurará vida digna a todos os brasileiros, tornando-se, assim, uma grande nação, com uma economia pujante, desconcentrada social e territorialmente.

É da cabeça dos brasileiros, da sua inteligência e do seu conhecimento científico, de seus condicionantes socioemocionais e de sua capacidade crítica e inovadora, que um novo projeto de desenvolvimento nacional se realiza. A educação é o caminho para livrar o Brasil das amarras da Casa Grande e, assim, levantar-se um País verdadeiramente livre e democrático.

Com esta convicção, e por causa dela, a educação vem sendo a prioridade de Sobral há 20 anos. É um exercício permanente de garantir as conquistas asseguradas pelas políticas públicas, aperfeiçoá-las e, ainda, inovar na prática política e no jeito de administrar. O que queremos é assegurar às famílias sobralenses, muito especialmente às mais empobrecidas, as oportunidades que a educação de qualidade cria para as pessoas. E perseveramos na luta contínua que tem como horizonte a oferta de um excelente itinerário formativo para as crianças, adolescentes e jovens.

Deste esforço podemos almejar outra certeza, que muito nos anima: uma geração mais bem formada está melhor preparada para superar o perverso ciclo da fatalidade histórica que condenaria os filhos dos Antonio Zé e das Lourdes. E além de ser protagonista de uma condição de vida mais digna e próspera, esta geração poderá constituir uma força social e política que promova com mais vigor o movimento de transformação da sociedade.

Em Sobral, pode-se dizer que, antes de executarmos, sonhamos juntos e planejamos coletivamente o que precisa ser feito. Elegemos prioridades, estabelecemos focos, definimos objetivos e metas, identificamos parceiros e aliados, compartilhamos autonomias e responsabilidades. E, óbvio, enfrentamos os percalços, as interrupções e as limitações que se apresentam no caminho.

O Ministério da Educação divulgou os resultados do Ideb/2016, em que Sobral atinge o nível 8,8, sendo o melhor resultado entre os 5.574 municípios brasileiros. Isso fortalece nossa percepção de que estamos no rumo certo mas, principalmente, a convicção de que a rede municipal reúne condições de enfrentar e vencer os ainda sérios problemas e desafios do presente.

Lá no início dos anos 2000, começamos a lutar para resolver o problema do analfabetismo escolar. Os alunos eram condenados ao fracasso escolar dentro do sistema, sob as barbas de todos que direta ou indiretamente deveriam responder por aquilo. Fizemos frente, com a progressiva adesão de valorosos profissionais e parceiros, às crenças e preconceitos que normalizavam o fato dramático da não aprendizagem e que atribuíam à pobreza e às famílias a causa de um problema praticamente sem solução.

As escolas de Sobral são os lugares das aprendizagens dos nossos alunos, mas promovem também as aprendizagens dos profissionais e o contínuo aperfeiçoamento das práticas pedagógicas. Ou seja, aprendemos com o que fazemos. Se, anteriormente, parecia não ser possível fazer da sala de aula um lugar da real aprendizagem dos alunos – pouca crença, ou nenhuma, igual a água na seca do sertão – hoje nós sabemos que somos capazes de alçar voos cada vez mais altos. E isso sem considerarmos condições normais de temperatura e pressão. Na verdade, ainda enfrentamos sérias adversidades.

Os números mais recentes do IBGE mostram que Sobral é um município pobre, com graves insuficiências e distorções econômicas, ao indicar que o Ceará contribui com apenas 2,1% para o PIB brasileiro, enquanto Sobral representa 3,1 % do PIB cearense e apenas 0,064% do PIB brasileiro. Situação agravada pelo fato de que os 20% mais ricos de Sobral detêm 61% da renda e os 20% mais pobres possuem apenas 3,1%.

O resultado da aprendizagem produzida pela rede pública de Sobral provou que é possível alcançar o topo dos indicadores de qualidade nos níveis brasileiros, mesmo em contextos tão severos. Esta é a chave para que possamos buscar novos e mais ousados desafios.

Com certeza, essas conquistas jamais teriam sido alcançadas se não tivéssemos rompido com o mito de que pobre não aprende. Ou ainda que deveríamos “parar o mundo” para suprir, em primeira mão, todas as gravíssimas insuficiências socioeconômicas da população. Ou principalmente, se estivéssemos seguindo a agenda neoliberal, com a falácia do Estado mínimo e suas desastrosas consequências, a exemplo do congelamento de gastos públicos e da reforma trabalhista, enquanto grandes fortunas permanecem sem tributação.

A lógica política nascida nos salões e alpendres da Casa Grande, que de golpe em golpe, galopa o Poder para manter seus privilégios – seja com Temer, Maia ou assemelhados – e faz a cada galope um Brasil menor e mais excludente. Assombra-nos o retorno da fatalidade reservada para a Lourdes e o Antonio Zé e seus antecedentes: ignorância, miséria, sofrimento, ausência de horizontes promissores, enquanto nosso País será uma Colônia para os rentistas se perfumarem.

Vejo uma resistência prática e criativa a essa velhíssima política a partir de muitas experiências de êxito, exemplares, acontecendo em muitos municípios, em todas as regiões do nosso País, com resultados muito positivos e inovações nas diversas áreas das políticas públicas. O Brasil tem muito o que ganhar se conseguirmos enxergar e aprender com estas experiências do poder local, na inarredável tarefa de construirmos um novo projeto de desenvolvimento nacional. Talvez aí residam os melhores modelos para um novo Brasil.

Em Sobral, a base política que sustenta este movimento inovador é uma aliança política que junta partidos e lideranças com distintas trajetórias de vida e política, fundada com base num projeto estratégico, de longo prazo, construído com a sociedade civil. Este projeto se mantém, apesar das turbulências da política, porque se renova sempre, por meio de pactos políticos e sociais focados nos objetivos definidos estrategicamente, visando a melhoria permanente da qualidade de vida das pessoas, protagonistas da sua prosperidade e felicidade.

É um caminho…

Veveu Arruda é professor e advogado. Foi secretário de cultura em Sobral (1997-2004), vice-prefeito (2004-2010) e prefeito do município (2011-2016)

Pesquisa revela insegurança do brasileiro em relação ao futuro

Os brasileiros estão inseguros em relação aos próximos meses, não só em relação à sua situação pessoal, mas à situação do país, diante do atual panorama político e econômico, revela a pesquisa inédita O Consumidor Brasileiro e a Crise – Perspectiva de Futuro, divulgada hoje (1º) pelo Instituto Locomotiva.

De acordo com o levantamento, feito entre os dias 10 e 15 de julho com 1.421 brasileiros acima de 16 anos de idade em 50 cidades de todo o país, 69% dos entrevistados manifestaram preocupação com a possibilidade de perder o padrão de vida e 71% afirmaram que pretendem consumir menos.

Enquanto 51% dos brasileiros disseram estar satisfeitos com sua própria vida na esfera privada, apenas 4% externaram satisfação com o Brasil, em geral, na esfera pública e 25% dos consultados estão satisfeitos com a própria renda.

A consequência do medo e da falta de perspectiva que a vida vai melhorar é que os pessimistas consomem menos que os otimistas, constatou a pesquisa. Os pessimistas compram menos 21% em supermercados que os otimistas, menos 14% móveis e menos 18% produtos eletroeletrônicos, mostra a sondagem.

(Agência Brasil)

Fortaleza reduz em 36% número de fumantes passivos no ambiente familiar

Os moradores da capital do Ceará estão fumando cada vez menos em casa e evitando expor familiares aos riscos do tabagismo passivo. Foi o que apontou a última edição da pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel).

Em oito anos, o índice registrou queda de 36,9% no número de fumantes passivos no domicílio, caindo de 14,6%, no ano de 2009, para 9,2% no ano passado. O dado foi divulgado pelo Ministério da Saúde, em comemoração ao Dia Nacional de Combate ao Fumo.

(Agência Saúde)