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ONU Mulheres condena assédio promovido por brasileiros na Rússia

O escritório brasileiro da Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres) divulgou nota nessa sexta-feira (22) condenando as práticas de assédio e constrangimento promovidas por torcedores brasileiros na Copa da Rússia.

“É inaceitável a intenção deliberada de alguns torcedores brasileiros de assediar sexualmente mulheres durante a Copa do Mundo, valendo-se de constrangimento, engano, e assim violando os direitos humanos das mulheres”, afirmou a representante da entidade, Nadine Gasman, no comunicado.

Segundo ela, ao utilizar palavras de baixo calão, torcedores reduziram as mulheres a objetos sexuais em um exemplo de como a misoginia “assume diferentes formas e não tem fronteiras, ocorrendo em um evento que se propõe a promover a integração dos povos e a união pelo esporte”.

Desde o início da Copa, circularam nas redes sociais diferentes registros em que torcedores brasileiros constrangem e assediam mulheres. Em um dos casos, brasileiros se aproveitam do fato do desconhecimento do português de uma mulher russa para induzi-la a pronunciar termos ofensivos.

(Agência Brasil)

Demitido – Torcedor brasileiro alega que russas gravaram vídeo “por livre e espontânea vontade”

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O torcedor brasileiro Felipe Wilson não tem mais o que comemorar na Copa da Rússia, mesmo que o Brasil conquiste o título do hexa. É que o então supervisor da companhia aérea Latam foi avisado de demissão, diante da má conduta contra mulheres russas, expostas em vídeo gravado por um amigo do torcedor, quando elas tentam falar o português na frase “eu quero dar a b… para vocês”.

“Todas as atitudes do vídeo foram feitas por livre e espontânea vontade de ambas as partes, de maneira descontraída, como uma brincadeira. Em nenhum momento, elas foram coagidas a fazer algo que não quisessem”, comentou o torcedor brasileiro, em entrevista ao UOL Esporte.

De acordo com Wilson, seus familiares e amigos entenderam o momento de “descontração”. “Não esperava que um momento de descontração tomasse tamanha proporção negativa em minha vida. Este tipo de atitude não pertence à minha conduta. Estou tendo o apoio de amigos e familiares para que esta situação termine o mais rápido possível. Peço desculpas aos ofendidos, em especial à sociedade russa”, disse.

(Com Agências / Foto: Reprodução)

Sobre coisas que duram

Em artigo sobre as atuais relações humanas, o jornalista e sociólogo Demétrio Andrade aponta que “não se casa mais. Não se namora. Não se ama mais”. Confira:

Minha mãe criou os quatro filhos com o mesmo liquidificador. Até um dia destes, ela usou o o aparelho pra fazer vitamina pros netos. Uma base de ferro, com mais de 40 anos de frequência diária e funcionando perfeitamente. Pois bem. Coisa de dois anos atrás, uma TV lá de casa sumiu com a imagem. Fui na autorizada e me informaram que não havia mais peças de reposição. Mais que isso: me aconselharam a, como se se diz na Parquelândia, pegar a televisão e “rebolar no mato”.

Contrariando o mercado, encontrei – por pura sorte, diga-se de passagem – um sucateiro que tinha a peça para reposição. A parte mais brilhante da minha sala continua a resplandecer firme e forte. O que mais me deixou indignado é ter sido informado que qualquer fabricante só é obrigado a fornecer peças durante, no máximo, oito anos. Isso mesmo. Prazo maior, você ficará na mão de sucateiros, como eu.

Desculpem, mas caí na tentação de traçar um paralelo deste fato com as relações humanas atuais. Não se casa mais. Aposta-se como no jogo do bicho. Não se namora. Fica-se. Não se ama mais. Acha-se que. Não se monta uma empresa. Terceiriza-se. O “longo prazo” não se usa nem quando se investe dinheiro. A bolsa de valores não é mais somente um indicador econômico: é uma referência sentimental. Como diria o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, na obra “Amor líquido”, vivemos tempos em que nada é feito para durar, com relacionamentos que escorrem entre os dedos.

Temos dificuldade de comunicação afetiva e isso gera medo e/ou insegurança. As relações terminam tão rápido quanto começam, as pessoas pensam terminar com um problema cortando seus vínculos, mas o que fazem mesmo é criar problemas em cima de problemas. O poeta Pualo Leminski ensina: “no fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto. A partir desta data, aquela mágoa sem remédio é considerada nula e sobre ela silêncio perpétuo. (…). Mas problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos passear: o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas”.

Nestes mundo de incertezas e individualista, temos relacionamentos instáveis e flexíveis. No mundo virtual é fácil desconectar-se, pois as pessoas estão sendo tratadas como bens de consumo, ou seja, caso haja defeito descarta-se – ou até mesmo troca-se – por “versões mais atualizadas”. Mas no real paga-se um preço alto.

Nélson Rodrigues costumava dizer que “todo amor é eterno e, se acaba, não era amor”. Longe de ser tão incisivo e de pregar indiossincrasias amorosas, lembro que todo evento futuro é uma construção. E toda construção, se não depender somente da pura sorte, tem vínculo estreito com o trabalho, a crença, o cuidado e a cumplicidade relacional. Não sei se hoje, na rapidez cotidiana, estamos preparados para este tipo de investimento, já que é sempre mais fácil o descarte.

Evidente que tudo muda, mas a dialética relacional da humanidade está bem longe da simplicidade. A economia dos sentimentos não guarda, nem de longe, semelhança com a objetificação mercantilizada da convivência social. Mesmo que não seja duradoura, porém, ela tende a ser intensa, em todas as suas formas.

Demétrio Andrade,

jornalista e sociólogo

Um país é maior do que uma crise, sempre

Editorial do O POVO desta segunda-feira (18) aponta o desânimo do brasileiro com a atual realidade do País. Confira:

Acumulam-se as informações colhidas nas pesquisas realizadas por institutos acreditados que confirmam um momento de desalento do brasileiro como poucas vezes há registrado na história do País. Um quadro preocupante, alarmante em alguns aspectos, e que exige uma estratégia de reversão que parecerá ineficaz se entendermos, como sociedade, ser uma tarefa unicamente de governo ou de políticos. É a alma do brasileiro que está ferida, significando que lidamos com um problema maior do que os efeitos de uma crise conjuntural que, como todas as outras, um dia será superada.

O instituto Datafolha, que foi às ruas das cidades brasileiras entre os dias 9 e 15 de maio último, colheu números assustadores. Um deles, para exemplificar o desafio que está posto: cerca de 43% da população adulta do País manifestou desejo de morar no exterior.

Quase a metade, demonstrando-se ainda mais absurdo que o índice suba a 62% quando o público consultado tem o limite de 24 anos de idade, ou seja, entre os jovens.

Há uma parte do sentimento captado que se pode atribuir ao efeito direto de um momento que acumula crises simultâneas e graves em quase todas as áreas importantes à vida do cidadão. A economia anda mal, a política experimenta fase de grande fragilização, as instituições de segurança não conseguem se impor sobre as instâncias marginais e, o que afeta de maneira definitiva a esperança no amanhã, o Judiciário nunca esteve tão exposto e questionado na sua credibilidade. Um conjunto de fatores que dificultam qualquer olhar otimista acerca do momento que o País vive e quanto às suas perspectivas quando se olha em direção ao futuro.

Um quadro grave? Sim. Preocupante? Claro. Porém, mesmo que a proporção fuja a uma certa lógica média nos momentos de depressão coletiva de um País, à medida em que as dificuldades econômicas, políticas e da vida pública em geral sejam superadas, e elas o serão, tais índices cairão e se poderá discutir com maior serenidade as necessidades de uma arrumação que nos permita ter de volta a alma autêntica do brasileiro, povo que tem sabido trabalhar limites e adversidades acreditando sempre no amanhã melhor.

O pessimismo não é de todo ruim, especialmente quando calcado numa realidade inegavelmente dura, mas uma sociedade precisa dosá-lo de maneira que não mate sonhos e nem inviabilize futuros. O Brasil é muito maior do que qualquer crise.

Rússia: hospitalidade ou preconceito?

Editorial do O POVO neste domingo (17) aborda a proibição da Rússia de manifestação homoafetiva na Copa. Confira:

Vendida como uma festa de congregação entre os povos, a Copa do Mundo de Futebol costuma expor – para o bem e para o mal – características e costumes menos comentadas dos países onde se realiza.

Também é ocasião para o governante do país-sede tentar melhorar a sua imagem perante os seus cidadãos e o mundo. É o que busca fazer o presidente russo, Vladimir Putin, devido aos problemas internos e externos que enfrenta. Depois dos 5 a zero que Rússia aplicou na Arábia Saudita, Putin discursou: ”Nós amamos o futebol. A Rússia é um país aberto, hospitaleiro e amigável”.

Porém, nem tanto. Há muita intolerância contra os adversários do regime e repressão aos homossexuais. Na quinta-feira, o ativista britânico Peter Tatchell, fazia manifestação solitária e pacífica na proximidades da Praça Vermelha, segurando um cartaz com os dizeres: “Putin não age contra a tortura de homossexuais na Chechênia”. Ele foi detido pela polícia e liberado logo depois.

Desde 2013 existe na Rússia uma lei que proíbe “propaganda gay”. A coisa é tão séria que o governo brasileiro preparou um Guia Consular do Torcedor Brasileiro com alertas sobre o comportamento a ser observado na Rússia, principalmente os LGBTs. O guia alerta, por exemplo, para que se evitem “demonstrações homoafetivas em ambientes públicos”, atitude que ser enquadrada em “propaganda de relações sexuais não tradicionais feita a menores”, que pode resultar em multa e deportação.

A Fifa proíbe qualquer tipo de discriminação durantes os jogos, mas nada faz para proteger torcedores de tais abusos. A entidade não pode, é verdade, interferir nas leis do país, mas pode fazer pressão, como fez contra o Brasil, para que bebidas alcoólicas pudessem ser vendidas em estádios, por exemplo. Portanto, a Fifa poderia demandar um pouco mais de esforço para que a Copa, seja, de fato, uma festa da alegria e da celebração da diversidade entre as diversas nacionalidades, independentemente de preferência política, de etnia, cor, ou de orientação sexual.

O valor da existência

Em artigo no O POVO deste domingo (17), o psiquiatra Cleto Pontes alerta para a publicização ao suicídio. Confira:

Estudos têm demonstrado, vezes e mais vezes, que a forma como você aborda e dá publicidade ao suicídio pode trazer consequências irreversíveis. Quando ocorrem em comunidade escolar, por exemplo, ou em cidades com predominância de imigrantes, experts chamam suicídio clusters, tornam-se contagiantes e modelo social. A propagação na mídia motiva o ato, principalmente, na população jovem.

O suicídio ou o seu reflexo de forma contundente faz esta aferição. Entre o desejo de morrer e se matar, existe uma vala abissal. De um lado a vontade cristalina de viver e do outro as armadilhas, o paradoxo de existir, ou seja, o absurdo em grego. São quatros pecados, seguindo uma linha teológica: pensamento, palavra, obra e omissão. O primeiro tende a universalidade; o segundo, a um apelo velado ou não, mas, sincero; o terceiro a uma falha na comunicação e, finalmente, a banalização como sendo o pior pecado. São trilhas comuns no nosso dia a dia terapêutico.

Qualquer teórico ou teoria unifocal, tende a cometer erro e a grave com repercussão, a priori ou a posteriori. Três judeus que se tornaram agnósticos, debruçaram-se no tema suicídio. E. Durkheim, o maior deles, diz que o “fato social” era destituído de subjetividade.

Na sua visão sociológica objetiva, a sociedade define os quatros tipos de suicídios: anômico, egoístico, altruístico e fatalista. Vulgarmente diríamos: pau era pau e pedra era pedra. Difícil explicar a sua morte precoce em 1917, meses depois que o seu querido filho André morreu na Primeira Grande Guerra.

K. Marx publicou um opúsculo “sobre o suicídio”, em 1846, baseado em estatísticas de Jacques Peuchet, e tirou lições que impõem de forma contrária a lei sociológica de Durkheim, ou seja, a miséria protege do suicídio, valorizando assim o conceito de “existência social”, invertendo o conceito de R. Descartes sobre a consciência, cogito ego sum. Marx teve vários filhos, educando três filhas sobreviventes. Em 1863, a filha mais velha, Jenny, morreu de uma enfermidade, diferentemente das duas mais novas que se suicidaram. A morte dela o levou para eternidade no mesmo ano.

Para construir a sua doutrina , S. Freud também não hesitou em “matar” Moisés, afim de arregimentar o seu rebanho dantes hipnotizado e com ele psicanalisado. Para isto evitava o suicídio como o diabo foge da cruz. Thanatos era o seu inconsciente mal trabalhado, ele se dizia neurótico de carteirinha, e Eros a sua deificação. Em 19 38, embora totalmente debilitado por câncer de mandíbula, era o homem mais poderoso da Áustria não alinhado ao Hitler, daí usar a sua frase de efeito: fujo para Londres para morrer em liberdade. Uma ano depois com seu médico particular e sua filha, babá eterna, tomou a injeção letal. Devemos falar de eutanásia se o desejo é valorizar ainda mais a língua alemã e eternizar a doutrina psicanalítica e suas franquias, pois, o suicídio não condiz com a valorização que se faz de um gênio e muito menos a sua imagem idealizada.

Cleto Pontes, psiquiatra

Eu não soube me conter…

Editorial do O POVO deste domingo (10) aponta a predisposição dos poderosos em se corromper, em qualquer campo da atividade humana. Confira:

É difícil saber se o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, foi sincero ou era mais uma estratégia da defesa, ao fazer a seguinte confissão perante o juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal: “Eu não soube me conter diante de tanto poder e tanta força política”.

Porém, sendo verdadeiro ou não o seu “arrependimento”, como classificou Bretas a declaração de Cabral, a sua assertiva revela uma verdade que pode ser observada entre boa parte dos homens que estão em posição de muito mando. “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus”, é uma frase famosa, atribuída a Lord Acton (1834-1902), jornalista e historiador britânico, que resume a predisposição dos poderosos, em qualquer campo da atividade humana.

Esse foi o comportamento do ex-governador, segundo suas próprias palavras – no período em que governo o estado do Rio -, ao admitir ter praticado a desonestidade, a “soberba” e a “promiscuidade” com empresários. Ele negou, no entanto, ter pedido suborno, mas reconheceu ter-se apropriado de sobras de caixa dois de campanhas políticas. Disse ter arrecadado R$ 500 milhões em “doações” para suas campanhas e de aliados. Afirmou que, de “maneira vaidosa”, queria “fazer” (eleger) prefeitos, vereadores e deputados. Do valor arrecadado, disse ter ficado com R$ 20 milhões para uso pessoal. A história de Cabral, a sua ostentação, faz parte da vida política brasileira e de muitos funcionários públicos privilegiados. Não se afirma aqui, de modo algum, genericamente, que servidores e políticos sejam corruptos. Porém, muitos se igualam na vaidade e na sensação de poder, o que pode levar a abusos, ainda que legais.

Basta verificar os salários que recebem e a quantidade de privilégios de que dispõe um parlamentar em Brasília para se obter um exemplo desse tipo de excesso. Talvez o depoimento de Sérgio Cabral possa servir de alerta para que alguns ocupantes de altos postos observem para onde pode levar a sensação de extremo poder, que não estabelece limites entre o bom e o mau, o certo e o errado.

Tempo gasto em computadores afeta bem-estar de jovens, diz pesquisa

Ficar em frente a telas para navegar na internet, acessar redes sociais ou jogar videogame tem impacto negativo no bem-estar de adolescentes. A tese é de uma pesquisa conduzida por três acadêmicos das universidades da Georgia e de San Diego, nos Estados Unidos. Os investigadores analisaram dados de um levantamento anual feito no país com respostas de mais de 1 milhão de meninos e meninas.

Os pesquisadores observaram os índices de bem-estar, entendido como uma sensação a partir de diversos critérios, e identificaram uma queda brusca, desde 2012, em aspectos como autoestima, satisfação com a vida e felicidade. O estudo revelou também redução no sentimento de satisfação como um todo, menos entusiasmo dos jovens na relação com amigos e na diversão e queda da sensação de segurança.

Ao buscar as causas da redução, chegaram à conclusão que quanto maior o uso de computadores e dispositivos eletrônicos, menor o bem-estar relatado pelos adolescentes entrevistados. Aqueles que usam meios eletrônicos por seis horas ou mais tiveram índices de infelicidade quase o dobro da média.

As atividades de maior impacto negativo foram: navegar na internet, jogar videogame e acessar redes sociais. Os adolescentes que gastam muito tempo em redes sociais apresentaram índice 68% maior de infelicidade. O efeito negativo sobre o bem-estar foi maior entre os adolescentes de menor idade do que entre os mais próximos da vida adulta.

Já aqueles jovens que passam menos tempo em frente a telas e que realizam outras atividades se disseram mais felizes. Entre as atividades relacionadas estão estudos, passeios, prática de esportes e interações sociais presenciais com a família, amigos e conhecidos.

“A combinação de interações sociais presenciais menores (que estimulam o bem-estar) e o uso de comunicações eletrônicas mais constante (que impactam negativamente o bem-estar) podem ser duas causas possíveis e relacionadas do declínio do bem-estar psicológico”, afirmam os autores no estudo.

Um dos fatores que estimularam o maior consumo de serviços eletrônicos, na avaliação dos autores é a disseminação de smartphones. Segundo o estudo, a presença de smartphones entre adolescentes pulou de 37% em 2012 para 73% em 2015. Além disso, o tempo crescente que os jovens gastam no uso de dispositivos eletrônicos tem impacto na qualidade do sono e pode, acrescentam os autores, levar ao vício.

(Agência Brasil)

Do massacre diário aos nossos policiais

Em artigo no O POVO deste sábado (19), o sociólogo Márcio Pessoa aponta uma cobrança da sociedade, da mídia e do próprio governo para que policiais desrespeitem protocolos de segurança durante ações de risco. Confira:

Há várias décadas, policiais são massacrados em nossa sociedade. É um massacre silencioso, mas eficaz. Algo que os brutaliza, que os transforma em quase-máquinas. Há espaço restrito para refletirem sobre valores morais e condutas éticas.

No último dia 13 de maio, uma policial deu um exemplo do massacre que sofre: ao ver um assaltante agir em frente a uma escola, sacou sua arma e disparou contra o criminoso. Minha intenção neste texto será tentar entender o motivo de ela ter agido.

Como a própria Polícia Militar divulga sempre, ninguém deve reagir a um assalto, visto que as chances – estatísticas – de algo dar errado são altas, ou seja, na maioria das vezes em que alguém reage, acaba sendo ferido ou morto. Agora, peço que lembre de todos os casos recentes de policiais que reagiram a assaltos em seus momentos de folga. Lembre também dos casos em que os policiais atiraram sem a justificativa de se defender, como o caso do policial que confundiu um macaco hidráulico com uma arma.

Por que esses policiais, e todos os outros que agiram dessa forma – com ou sem sucesso –, agiram assim? Por que vale a pena atirar, colocando vidas em risco, estando em desvantagem, com o filho no colo, rodeado de mães, de inocentes etc?

A resposta, a meu ver, é porque há um massacre à subjetividade de cada policial que é praticado por várias instituições: pela mídia, que cobra que os policiais reajam, visto que a audiência atualmente é medida por sangue; pela corporação polícia, que extraoficialmente não vê com bons olhos policiais que não reagem; pelo governo, que homenageia policiais que reagiram de forma bem-sucedida (sobre as punições às reações malsucedidas o governo nunca se manifesta); e até mesmo, talvez, por você, leitor/a, que assiste a vídeos de reações policiais e bate palma de forma acrítica, desconsiderando que, apesar de ter sido bem-sucedida, pode ter desrespeitado protocolos de ação policial.

Dessa forma, me solidarizo com cada um dos policiais brasileiros, visto que, silenciosamente, são massacrados dia após dia. Torço para que as instituições mudem seus comportamentos irresponsáveis e passem a tratar os policiais com mais respeito, pois só respeitando os direitos básicos desses profissionais teremos uma polícia que verdadeiramente respeita e é respeitada pela sociedade.

Pesquisa diz que 95% dos internautas navegam na web enquanto veem TV

Assistir à TV e navegar na internet ao mesmo tempo tornou-se um hábito de praticamente todas as pessoas com acesso à web. Segundo pesquisa do Instituto Ibope Conecta, 95% dos brasileiros na rede mundial de computadores têm essa prática como parte do cotidiano. Em 2015, quando houve levantamento semelhante, o índice era de 88%.

Esse hábito se dá principalmente pelo celular. Dos entrevistados, 81% afirmaram usar um dispositivo móvel quando navegam e ficam ligados na TV. Na edição anterior do estudo, o índice era de 65%. Já o computador de mesa perdeu espaço. O percentual de pessoas que dividem a atenção entre esse equipamento e a televisão caiu de 28% para 16% na comparação entre as duas pesquisas.

Mas o que fazem as pessoas enquanto assistem TV? Segundo o levantamento, a maioria acessa redes sociais (53%), como Facebook, WhatsApp e Instagram. Uma parcela menor (44%) aproveita para navegar passando o tempo durante os comerciais. Além destes, 34% disseram usar o tempo para resolver outras coisas e 9% relataram usar a web para interagir com a transmissão.

A pesquisa foi realizada em abril e entrevistou 2 mil brasileiros que acessam a internet. A amostra abrangeu pessoas das classes A, B, C e D de todas as regiões do Brasil.

(Agência Brasil)

Bases amorosas

Em artigo no O POVO deste domingo (13), a psicóloga, sexóloga e pedagoga Zenilce Vieira Bruno aponta que a cultura costuma delegar a tarefa do cuidado amoroso dos filhos sempre às mães, mas os filhos precisam igualmente do amor paterno. Confira:

O bebê humano é um ser tão frágil e dependente, que se não for cuidado amorosamente sucumbe, adoece e pode até morrer, pois não é capaz de gerir minimamente sua subsistência. Precisa de um suprimento ambiental satisfatório em sua tarefa de desenvolver-se.

Precisa de braços que o acolham, de seios que o alimente e sobretudo de olhares que o reconheçam como alguém que é “bem-vindo” à vida. Em meio a tanta fragilidade, um potencial imenso aí está, como semente, dependendo de condições favoráveis para tornar-se um grande ser humano. Essas não quer dizer, riqueza, abundância, luxo ou beleza física. Isso pode favorecer ou fragilizar a estrutura da pessoa. Falo de condições de receptividade, compreensão e afetividade, sobretudo por parte dos pais ou daqueles com quem convive. Do reconhecimento, lei necessária ao desenvolvimento da autoestima. Das formas de lidar com os filhos, da importância da escuta atenta, do elogio atencioso, do abraço afetuoso e do limite preciso que devem permear as relações pais e filhos.

A cultura costuma delegar a tarefa do cuidado amoroso dos filhos sempre às mães. No entanto, sabemos que isso é simbólico, e que os filhos precisam igualmente do amor materno e paterno. Os fatos têm mostrado que não basta o amor de mãe e que todo ser humano quer ser amado também por um pai. Temos nos deparado com fatos muito dolorosos no terreno familiar, que nos fazem pensar sobre os papéis parentais. O social, como um grande espelho, tem refletido desacertos que nos fazem questionar sobre as falhas que temos cometido no processo educativo. O que fez que os resultados que temos tido, sejam tão diferentes de nossas expectativas? Já não dá mais para acreditar que os desmandos familiares, passados ou contemporâneos, devem-se apenas a ausência da mãe que se tornou também profissional. De fato, isso apenas deu visibilidade ao lugar vazio do pai.

Torna-se crucial, uma atenção maior ao vazio de carinho e de sentido que pode rondar a alma de nossos filhos. Esse vazio tem consequências imprevisíveis, porque não se engana facilmente, não se preenche com qualquer coisa. É vazio que gera outros vazios e produz uma busca perturbada de equivocados preenchimentos como: devaneios, bebedeiras, drogas, sexo irresponsável, altas velocidades, violência, enfim, coisas que nos fazem tremer ante a imprevisibilidade das condutas inconsequentes a que assistimos.

Todo filho necessita dos braços e abraços de seus pais, para sentir-se capaz de enfrentar o mundo, para que não congele no peito a capacidade de amar os filhos que terá amanhã. Sabemos que filhos que crescem sem contato e afeto tornam-se adultos violentos. Quando adultos, a autoestima depende também do olhar social, que aprova e reconhece nosso valor, nossa construção pessoal, nossas produções, até que nós mesmos possamos construir um olhar próprio, um reconhecimento sobre o que fizemos a nós mesmos.

Fantasmas na BR 116

Em artigo no O POVO deste domingo (6), o psiquiatra Cleto Pontes avalia o paradoxo entre políticos que se apresentaram como defensores dos pobres e a realidade da pobreza. Confira:

Entre Messejana e o Centro de Fortaleza são poucos quilômetros em três pistas, direção às praias e ao inverso, rumo ao sertão. Ali, transitam milhares de pessoas, como também milhões em multas, IPVA, impostos e mais impostos. Verdadeira peleja entre motos e carros engarrafados, há acidentes frequentes banalizando a existência humana. Absurdamente, há seres marginalizados no miolo do canteiro central da rodovia, denunciando uma sociedade esquizofrenizante. Próximo ao DNIT, alguém cultiva feijão, milho e mais à frente, uma jovem magricela de cabelos desalinhados construiu o seu castelo de papelão. Sofá e quinquilharias junto à sua tenda moradia, a mulher ali toma banho de cuia e desfila com maneirismo, expressando o seu esteriótipo.

Na citada rodovia, a Santos Dumont, as transgressões são perversas e beiram à psicopatia. Ser legitimamente brasileiro é o quê? Eis a questão. Os avós maternos do pai da aviação, Santos Dumont, vieram com a corte portuguesa liderada por Dom João VI e avós paternos da França. Engenheiro de estrada de ferro, o pai logo se tornou o maior produtor de café onde é hoje Ribeirão Preto. Casou quatro filhas com os filhos do sócio e todos voltaram à Portugal.

O filho menor, gênio da família, aprendera a ler folheando a obra de Júlio Verne em francês, presente do pai que o orientou a procurar primos ricos em Paris.

No Brasil, o discurso oficial não bate com a realidade do dia a dia. A hipocrisia parece ser prática necessária, diferente de países economicamente desenvolvidos, onde mendigos acompanhados de cachorros pedem ajuda silenciosamente, ecoando, entretanto, a ordem social onde ele está. Aqui, não. Uma reca de crianças obedece ordem de seu superior nos semáforos, mãos em forma de concha para o céu pedindo uma “esmolinha pelo amor de Deus”. Meninas ao descaso roçam os seios púberes nos carros parados no sinal, entretanto o discurso oficial diz combater a pedofilia e a exploração de menores. Quadro tão esquizofrênico quanto as velhas promessas de palanque da maioria dos políticos, psicopatas que, sem disfarces, gritam por mais educação, mais saúde…

Getúlio Vargas, pai dos pobres, matou-se menos por convicções ideológicas, pois imperou sobretudo a genética, tragicamente transmitida ao filho e ao neto. Vargas tentara esconder a causa mortis (suicídio) de Dumont, pagando um legista para atestar causa enfarte. Outro médico, hóspede no mesmo hotel do legista, em Guarujá, conseguiu retirar o coração do cadáver, que está eternizado em museu. O ilustre morto desfilou em transporte oficial por São Paulo.

Rio e Minas Gerais. Quanta desfaçatez! Lula parece superar o caudilho, sendo pai dos pobres e mãe dos ricos. Julgado e condenado, está preso e se vitimando como “bom brasileiro “. Preso, pode até ganhar as eleições, como aconteceu com o preso por desordem pública Paul Lafargue, genro de Marx, que acabou vitorioso nas eleições para deputado em França. Os fantasmas de ontem e de hoje são guardiões da nossa consciência. O discurso oficial quase sempre não condiz com a realidade dos fatos, e vem se perpetuando como uma mera ficção. Até quando?

Eles não usam mais black-tie

Da Coluna Eliomar de Lima, no O POVO deste sábado (21):

O clima político do País anda mesmo pesado, em todos os sentidos, provocando, de certa forma, mudança de hábito em muita gente.

Na bancada federal cearense, a imprensa que dá plantão no Aeroporto Internacional Pinto Martins já constatou um fato: ficou raro o deputado federal embarcar ou desembarcar usando paletó ou usando o boton que lhe identifica nessa condição.

A maioria opta pelo traje esportivo, no que passa e circula, sem problemas, entre demais passageiros ou aquele eleitor que adora cobrar posições dos senhores que ganharam seu voto.

Pois é, algo que parece simples, mas que expõe mudança também na postura do eleitor, que ficou mais vigilante diante de tanto descalabro que se irrompeu, nos últimos anos. Além do esportivo, há parlamentar que adota óculos escuro ou que finge estar falando ao celular para evitar abordagens.

Claro que isso é consequência da tal intolerância registrada no País. Mas, sinceramente, seria bom conferir quem gerou, de fato, tal cenário.

Orgia de intolerâncias

Em artigo no O POVO deste domingo (15), a Psicóloga, pedagoga e sexóloga Zenilce Vieira Bruno aponta que “na era da informação de massas e da política espetacular, a informação nos satura antes que a reflexão e a dinâmica social encontrem alguma solução”. Confira:

Em nossa cultura, em nosso tempo, tolerância e bom senso tornaram-se valores obsoletos. Parecemos uma sociedade que perdeu o interesse pelo futuro. Essa apatia indica que não existem projetos coletivos que deem sustentação e sentido à vida das pessoas. Modificar esse tipo de atitude, supõe resgatar valores éticos que se coloquem a serviço do bem estar do gênero humano. Narcísicos, perversos e fanáticos empurram a humanidade para uma destruição de valores e da própria vida. “A tragédia em cena já não nos basta” diz Artaud, assistimos ao vivo e em cores as destruições que procedem da orgia de intolerâncias humanas.

Cada época desenvolve suas próprias formas de patologias. O mundo atual sofre de um mal-estar que parece exigir um olhar diagnóstico cuidadoso. A atitude humana perante o estar no mundo tem se degradado espantosamente. A vida vem sendo tratada como algo simples e desprezível, que dela se faz uso para fins “naturalmente” destrutivos. Um tipo de atitude que vem sendo fortalecida num contexto em que crescem os narcisismos e as intolerâncias, promovendo uma depreciação crescente do cordial, do relacional, do amoroso. Desde que a felicidade passou a ser buscada apenas nas coisas, no consumo, na ostentação, no parecer, no poder, e não dentro do sujeito e nas relações que estabelece, o outro foi perdendo seu lugar de parceiro e começou a ser visto como concorrente, como rival.

Na era da informação de massas e da política espetacular, a exaustão é permanente. A informação nos satura antes que a reflexão e a dinâmica social encontrem alguma solução. Somos invadidos por uma multiplicidade de imagens destrutivas que nos deixa sem fôlego. Ansiamos pelo oxigênio da paz. Mas a paz que se quer para si, para o mundo, para os povos, terá de começar por cada um de nós. Teremos que reaprender o gosto pelo ético, pelo relacional, pelo amoroso e processar corajosamente transformações internas que instalem em nós a vontade da paz, o exercício da tolerância, a capacidade do perdão.

Faz-se necessário o exercício cotidiano de desculpar, de tolerar, de cascavilhar menos as faltas do outro, de perdoá-lo nos pequenos deslizes. “Se isto parecer muito difícil, vale à pena lembrar o que Cristo falou aos fariseus, reconhecendo o quanto eles eram hipócritas: “Atire a primeira pedra quem não tiver pecado”. Necessitamos processar sempre passagens na vida. Que ensaiemos, portanto, passar do estado de raiva, de ódio, de intolerância, para um estado de compreensão do humano, em suas falhas e encantamentos. Somos todos maravilhosos e destrutivos. Capazes de amor e ódio. Cabe dar destino ao que somos. Cabe nos apropriarmos do que queremos ser e fazer. Perdoar é abrir mão do ódio e permitir que a vida continue.

Imigrantes estão distribuídos pelo interior do Brasil, mostra pesquisa

Dos 5.570 municípios, 3.432 tiveram pelo menos um registro de imigrante internacional – entre bolivianos, haitianos, cubanos e venezuelanos – entre os anos de 2000 e 2015, mostrando que há capilarização da migração no país. Os dados estão no levantamento feito por pesquisadores do Observatório das Migrações em São Paulo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), financiada pela Fapesp, que deu origem a um Atlas Temático.

No Ceará, 119 municípios – dos 184 – tiveram ao menos um registro em 15 anos. Os 8.437 venezuelanos que registraram residência no Brasil, no período, estão presentes não só nas regiões de fronteira, como em Roraima.

“Isso rompe com o imaginário de que a rota das migrações internacionais no Brasil passa pelas fronteiras, segue para as metrópoles, principalmente das regiões Sul e Sudeste do país, e se espalha pra outros estados”, disse Rosana Baeninger, pesquisadora do Núcleo de Estudos da População (Nepo) da Unicamp e coordenadora do projeto. No estado de São Paulo, dos 645 municípios, 489 registraram a presença de imigrantes. Em 2016, o número aumentou para 580 municípios.

O levantamento feito pelos pesquisadores, especialmente no estado de São Paulo, pode subsidiar políticas públicas que assegurem a inclusão, a garantia de direitos e o acesso aos serviços públicos por essa população. Entre 2000 e 2015, foram registrados 879.505 imigrantes no Brasil, dos quais 367.436 apenas no estado paulista. O maior fluxo migratório para o país no período foi de bolivianos, seguido por norte-americanos e haitianos.

O fluxo foi intenso desde a ocorrência do terremoto no Haiti em 2010. As crises econômicas e guerras também influenciam o fluxo migratório atual para o Brasil.

(Agência Brasil)

Após três anos em queda, divórcios sobem 2,5% no país

Os divórcios extrajudiciais – que não ocorrem perante os órgãos da justiça – aumentaram 2,5% em 2017 em todo o país. Os cartórios de notas, hoje chamados de tabelionatos de notas, lavraram 69.926 divórcios no ano passado, ante 68.232 no ano anterior. Os dados são do Colégio Notarial do Brasil – Seção São Paulo (CNB/SP).

Esta é a primeira alta no número de divórcios extrajudiciais em todo o Brasil após três anos consecutivos em queda: 2016 (-1,3%), 2015 (-2,3%) e 2014 (-0,4%). Segundo o presidente do CNB de São Paulo, Andrey Guimarães Duarte, a mudança foi causada principalmente em razão da lei 11.441 de 2007, que normatizou a realização de divórcio extrajudicial, e da Emenda Constitucional 66, de 2010, que reduziu a burocracia para a separação.

Havia um número represado de casais que desejavam se divorciar [antes da aprovação das leis]. Agora é normal [o número] que se estabilize ou diminua. Como podemos analisar, houve uma variação positiva, mas nada que saia da curva do normal”, disse Duarte.

De acordo com o levantamento, São Paulo foi o estado que mais registrou divórcios em 2017, com 17.269, número 1,5% maior que os 16.998 computados em 2016. O estado paulista é seguido, respectivamente por Paraná e Minas Gerais. A mesma tendência foi verificada na capital paulista, que apresentou uma das maiores altas do país. Os cartórios registraram na cidade 5.882 divórcios em 2017, 9% acima aos 5.361 em 2016.

(Agência Brasil)

A prisão após a segunda instância e a vontade de todos

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Em artigo no O POVO desta segunda-feira (9), o professor da UFC e sociólogo André Haguette aponta que “a questão da prisão em segunda instância se apresenta como uma oportunidade de construir o novo, escolhendo a igualdade de condição como princípio norteador de nossa cidadania”. Confira:

É preciso nos convencermos que a questão da prisão após a condenação em segunda instância transcende o caso peculiar de Luís Inácio Lula da Silva; ela tem um alcance genérico, visando uma justiça administrada igualmente para todos os réus, sem distinção nenhuma. Simpatizantes ou opositores do ex-presidente hão de abandonar suas visões partidárias e específicas para entender que estamos diante de uma causa muito maior que diz respeito à própria construção da nação. Como disse Raquel Dodge, procuradora-geral da República, “justiça que tarda é justiça falha” e, muitas vezes, é justiça que não se consuma. Está além de qualquer razoabilidade que um réu passe por quatro instâncias judiciais condenatórias antes que sua pena seja efetivamente executada haja visto que em países de democracia consolidada como os Estados Unidos, a França e a Alemanha, para citar somente esses exemplos, a sentença é executada após condenação nas primeiras instâncias sem que o princípio balizador de presunção de inocência seja ferido. É que são países que prezam pela igualdade de condição diante da lei, ao contrário do Brasil que criou o instituto de quatro degraus e outros recursos a pretexto de defender o mesmo princípio básico de presunção de inocência embora esse instituto só faça pavimentar o caminho da prescrição da pena de réus ricos ou poderosos, caminho vedado à grande maioria dos acusados que, numa alta percentagem, padecem em prisões calamitosas sem sequer ter sido julgados.

A existência de quatro instâncias é não somente um exagero como é uma excrecência a ser abatida para que possamos aceder a um regime de justiça efetivamente republicano.

O tema da prisão após condenação em segunda instância chega às mentes e aos corações de todos em um momento crítico da convivência brasileira quando todas as desigualdades e injustiças explodem e a rota a seguir parece, de tão incerta, um impasse. O fim da prisão em segunda instância significará o apagar do único farol a iluminar a possibilidade de uma justiça democrática; significará, mais uma vez, os triunfo de poderosos e a escravidão de todos; significará o atolamento no atraso que a justiça nunca superou.

Não há espaço para o casuísmo de uma revisão da decisão tomada pelo STF há menos de dois anos. O manifesto assinado por uns 2.500 advogados é estarrecedor de tanto defender descaradamente interesses privados em detrimento do bem comum. Tem-se a oportunidade de optar entre as “vontades particulares” e a “vontade de todos”. O país mantém todas as instituições formais da democracia liberal, mas, na realidade, são instituições viciadas de tanto beneficiar uma classe econômica e política minoritária, sem implantar uma igualdade de condição.

A questão da prisão em segunda instância se apresenta como uma oportunidade de construir o novo, escolhendo a igualdade de condição como princípio norteador de nossa cidadania. O manifesto assinado por uns 5.000 juízes e procuradores mostra a constitucionalidade da medida e aponta uma porta de saída da crise. Essa porta, a do Bem Comum, é estreita, mas não o suficiente para que os ministros do STF não possam por ela passar.

Em pronunciamento, Cármen Lúcia destaca “tempos de intolerância” no País

A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, disse hoje (2), em pronunciamento na TV Justiça, que o país vive “tempos de intolerância e de intransigência contra pessoas e instituições”.

A manifestação da ministra ocorre a dois dias do julgamento no qual a Corte retomará a discussão sobre o pedido de habeas corpus protocolado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para evitar a execução provisória da pena de 12 anos e um mês de prisão na ação penal do triplex do Guarujá (SP), um dos processos da Operação Lava Jato. O processo está pautado para a sessão da próxima quarta-feira (4).

No pronunciamento, Cármen Lúcia pede serenidade ao povo brasileiro e diz que, fora da democracia, “não há respeito ao direito, nem esperança de justiça e ética”.

“Problemas resolvem-se com racionalidade, competência, equilíbrio e respeito aos direitos. Superam-se dificuldades fortalecendo-se os valores morais, sociais e jurídicos. Problemas resolvem-se garantindo-se a observância da Constituição, papel fundamental e conferido ao Poder Judiciário, que o vem cumprindo com rigor”, disse a presidente do STF.

(Agência Brasil)

O cárcere está em todos nós

Em artigo no O POVO deste sábado (31), o professor da UFC e sociólogo Paulo Henrique Martins sugere o resgate dos afetos positivos de solidariedade, da gentileza e dos cuidados com a democracia como forma de superar os cárceres imaginários que separam os “maus” e os “bons” cidadãos. Confira:

A modernidade ocidental se apoiou em duas ideias, a do destino e a da ciência. A do destino assegurava uma finalidade cosmológica; a da causalidade, a do progresso científico e técnico. Ambas as imagens, explica V. Flusser, no seu Pós-História (2011), visavam legitimar um processo de objetivação cultural da modernidade que, aparentemente, seria guiada por uma ética implícita. Mas a modernidade começou a ter falhas de memórias.

Auschwitz (o campo de concentração nazista onde se assassinavam os judeus) foi um dos primeiros grandes aparelhos do século XX que contribuíram para o colapso da modernidade. Auschwitz brotou diretamente do fundo da cultura ocidental, dos seus valores e conceitos.

Depois deste evento muitos outros surgiram: os campos de palestinos, de refugiados na Europa e, também, as penitenciárias no Brasil. O ministro Jungmann reconhece que estes aparelhos não são mais dominados pelo Estado, mas pelos traficantes. Porém, os cárceres não estão fora da sociedade, eles refletem nossos valores culturais e nossas decisões políticas.

Os cárceres revelam redes de cooptação e colaboração que se estendem para além dos muros e apenas ilusoriamente separam os “maus” e os “bons” cidadãos. Todos somos cúmplices do aparelho quando admiramos o “jeitinho brasileiro” ou nutrimos discriminações com negros(as) e pobres. Todos vivemos os cárceres ao ligar a TV diariamente para curtir amedrontados, mas com prazer, o ressentimento e o ódio nosso com relação àqueles que nomeamos de “vilões”. Pois somente assim podemos nos livrar cinicamente das responsabilidades de sermos co-autores dos cárceres que estão também em nós.

A saída? Resgatar um valor que foi fundamental para a modernidade, o da liberdade – de cada um e de todos. Apenas a valorização desta utopia e de seus efeitos práticos pode ajudar a liberar afetos positivos de solidariedade, gentileza e cuidados com a democracia.

Enquanto choro por desconhecidos

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Em artigo no O POVO deste sábado (17), a jornalista Regina Ribeiro avalia que o Brasil precisa encarar a descriminalização das drogas, de forma progressiva, baseada em estudos e com fiscalização rigorosa do governo, como forma de combater a violência do tráfico. Confira:

Conheci Marielle Franco, vereadora do Psol no Rio, no dia da sua morte. Mas isso não me impediu de chorar por ela. Senti uma imensa gratidão pela sua existência. De saber que nascida e criada na favela da Maré, Marielle conseguiu saltar a cerca do destino que provavelmente à rodeava ao tornar-se a mulher que abraçou a missão de representar sua comunidade e incentivar outras meninas a não se conformarem com o pingo de vida que as circunstâncias sociais impõem para mais da metade das brasileiras negras e pobres. Ontem, chorei cada vez que li os detalhes em torno do assassinato de Marielle.

Sábado passado, abracei minha filha que havia estado nos arredores da Praça da Gentilândia na noite de sexta numa despedida de um amigo do mestrado que viajaria na madrugada de sábado para uma temporada de estudos em outro país. Minha filha saiu do local uma fração de hora antes de começar a chacina. Às vezes, tenho a legítima sensação de estar num País à beira de um colapso social movido pela violência extrema. Mas esse sentimento é passageiro, há muito a fazer.

Uma das primeiras discussões que o Brasil precisa encarar é com relação à descriminalização das drogas. De forma progressiva, baseada em estudos e com fiscalização rigorosa do governo. O tráfico está matando os jovens, desordenando cidades, deixando o poder público desmoralizado, corrompendo muitos policiais. O dinheiro gasto no controle do tráfico será sempre insuficiente. Mesmo que haja disposição para gastá-lo, como é o caso do Ceará que há anos investe em carros, armas, câmeras e nada disso impede que metade de Fortaleza seja controlada por traficantes.

Na periferia desta cidade foi gestada uma facção do crime que tem sido responsável pelas principais matanças de 2018. Esse grupo tem atraído meninos negros, pobres e sem oportunidades para seu exército. Não acho que o mundo ficaria melhor com drogas liberadas. No entanto, desarticularia o tráfico, desmontaria a venda ilegal de armas, cessaria a guerra das facções por pontos de drogas como acontece hoje. Os impostos da venda legal de drogas poderiam ser usados exclusivamente para projetos em educação e cultura nos locais dominados pelo tráfico e pelas facções.

O segundo debate que este País em choque precisa ter é com relação ao falido sistema prisional brasileiro, que amontoa seres vivos e forja animais com cérebro humano. De dentro das prisões sai todo tipo de ordem. Para dentro das prisões vão todas as informações necessárias para que os chefões do tráfico e das facções continuem ampliando seu poderio econômico e dominando os miseráveis que se enfileiram nesses grupos negociando a única coisa que ainda lhes resta, a vida.

Enquanto eu choro pelos desconhecidos, penso se vale a pena investir recursos escassos em políticas de coerção e controle que não funcionam e num sistema carcerário cujo modelo só serve para dar satisfação à ideia de que abarrotar prisões nos deixa mais livre da violência. A população de presos do Brasil é uma das que mais cresce no mundo, sendo que há cinco presos para cada vaga em presídio e três para cada vaga nas penitenciárias.

Mesmo assim paira sobre nós a proposta de jogar nesse sistema pessoas a partir de partir de 14 ou 16 anos.