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Sobral – Livro conta polêmica história do padre José Palhano de Sabóia

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Padre, advogado, radialista, prefeito, deputado federal. A polêmica história de José Palhano de Sabóia está no livro “Padre José Palhano de Sabóia – Santo, Semideus ou Cavalheiro do Apocalipse?”, de autoria de Cesar Barreto Lima e Saulo Barreto Lima, que será lançado na manhã deste sábado (1º), no Beco do Cotovelo, em Sobral, Região Norte do Ceará, a 240 quilômetros de Fortaleza.

Deputado cassado pela Ditadura Militar, José Palhano de Sabóia também foi privado de exercer suas funções como sacerdote, após acusações mútuas com o bispo Walfrido Teixeira Vieira, inclusive que expôs o padre à prática de “don ruan”.

O sociólogo e presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, Salmito Filho (PDT), foi convidado para o lançamento do livro. Ele será homenageado em Sobral, na quarta-feira (5), com a comenda “Orgulho de Ser Sobralense”, pelos 244 anos do município.

(Fotos: Divulgação)

Unifor promove seminário internacional com escritor Mia Couto

“Recriar o Pensamento, Mudar a Realidade” é o tema da palestra do renomado escritor Mia Couto, de Moçambique, que acontecerá nesta quinta-feira, às 19 horas, no Teatro Celina Queiroz, na Unifor. O autor, que compartilhará seus conhecimentos e vivências com o público presente, abordará como ir além das fronteiras do pensamento. A promoção é da Pós-Unifor, em parceria com o Escritório de Gestão, Empreendedorismo e Sustentabilidade (EGES).

Mia Couto Antônio Emílio Leite Couto, mais conhecido como Mia Couto, é jornalista, escritor e biólogo. Atualmente, ele é o autor moçambicano mais traduzido e divulgado no exterior e um dos autores estrangeiros mais vendidos em Portugal. As suas obras são traduzidas e publicadas em 24 países.

Premiado

É, comparado a Gabriel Garcia Márquez e Guimarães Rosa. Seu romance “Terra sonâmbula” foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Várias das suas obras têm sido adaptadas ao teatro e cinema. Tem recebido vários prêmios nacionais e internacionais, por vários dos seus livros e pelo conjunto da sua obra literária.

Em 1999, o autor recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto de sua obra e, em 2007, foi agraciado com o prêmio União Latina de Literaturas Românicas. Em 2013,
recebeu o Prêmio Camões, o mais prestigioso da língua portuguesa, e, em 2014, o Neustadt Prize. Mia Couto é também um dos escritores cotados a concorrer ao Nobel de Literatura.

SERVIÇO

*Vagas limitadas abertas ao público, com inscrições pelo site da Unifor (www.unifor.br) e
no local do evento, a partir das 18 horas.

Escritor César Barreto lança livro sobre Padre Palhano

O superintendente-adjunto do Departamento Estadual de Rodovias (DER), César Barreto, também escritor, lançará, às 9 horas do próxima sábado, no Beco do Cotovelo, em Sobral (Zona Norte), mais um livro. Dentro da programação de aniversário dos 244 anos desse município, fará sessão de autógrafos, durante o programa Show do Ivan Frota, livro “Padre Palhano: Santo, Semideus ou Cavalheiro do Apocalipse?” A obra é mais uma parceria com seu primo, Saulo Barreto Lima.

Durante o evento César Barreto entregará o troféu Poeta do Becco do Cotovelo, iniciativa do radialista Ivan Frota e da Revista Alternativa. Serão homenageadas as seguintes personalidades: Mauro Benevides, radialista Fernando Solon, escritor Francisco Assis Arruda, José Ribamar Ponte e o presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, Salmito Filho.

Padre Palhano

Padre José Palhano de Saboia foi prefeito de Sobral entre 1958-1962, uma candidatura na época que contou com todo apoio de Cesário Barreto, pai de Cesar Barreto, comerciante e líder classista, na época. Tudo para afrontar o líder politico Chico Monte. Em 1962, Padre Palhano foi eleito deputado federal, sendo o terceiro mais votado do Estado. Mas teve mandato cassado dois anos depois com a implantação do golpe militar.

Palhano estudou em Roma. Também era advogado, radioamador e fundou a Rádio Tupinambá AM. Pilotava aviões tipo Teco-teco, inclusive fundou o Aeroclube de Sobral. Morreu em 1982 vítima de complicações da Diabetes.

Câmara Brasileira do Livro promove curso sobre Livros Infantis

A Câmara Brasileira do Livro realizará,  por meio do seu projeto Escola do Livro, promoverá, nos dias 27 e 29 próximos, um curso sobre livros infantis. O programa irá abordar todo os tópicos que envolvem a produção desse trabalho, desde a criação da narrativa, relação de texto com imagem, até a escolha do formato e material. A convidada é a escritora Silvana Salermo, responsável pelo workshop, irá falar não apenas de literatura, mas também sobre livros didáticos, incluindo os parâmetros curriculares.

Silvana Salermo, editora e jornalista formada pela ECA/USP, atua no mercado editorial desde 1971. Tem mais de 20 livros infanto-juvenis publicados, um deles no exterior. Vários receberam a distinção Altamente Recomendável da FNLIJ. Viagem pelo Brasil em 52 histórias ganhou o prêmio O Melhor Livro Reconto da FNLIJ (2007). Finalista do Jabuti em 2015 com a adaptação de Os miseráveis, teve três obras selecionadas para o catálogo da Bologna Children’s Books Fair e três pelo PNBE/MEC. Ministra cursos no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc.

SERVIÇO

Horário: Das 19h30min às 22h30min

Taxa de adesão:

Associados CBL – R$ 250,00

Estudantes e Professores – 300,00

Profissionais do mercado – R$ 350,00

Pagamento em boleto ou cartão de crédito em até 3 parcelas

Mais Informações e inscrições para todos os cursos: (11) 3069-1300 / escoladolivro@cbl.org.br

Ex-traficante retratado em Cidade de Deus lança biografia

A Editora FGV está lançando o livro “Cidade de Deus: a história de Ailton Batata, o sobrevivente”, que narra a trajetória de Aílton Batata, ex-traficante de drogas nos anos 70 e 80.

Batata teve sua história retratada no filme “Cidade de Deus”, de 2002, como o personagem Sandro Cenoura, vivido por Matheus Matheus Nachtergaele.

Escrito pela antropóloga Alba Zaluar e o psicanalista Luiz Alberto Pinheiro de Freitas, o livro é baseado em 60 horas de entrevistas feitas entre 2008 e 2009, período em que Batata ainda estava na prisão.

Hoje, ele trabalha como funcionário da Secretaria de Assistência Social do Rio.

Escritor Gylmar Chaves e um livro sobre o amor

O escritor Gylmar Chaves lançará, às 19h30min desta quinta-feira, no Ideal Clube, mais um livro. Agora é “Quase que”, publicado em Portugal e distribuído no Brasil. A apresentação da obra ficará por conta do também escritor, Dimas Macedo.

Gylmar Chaves conversou com a reportagem do Blog e contou o que traz agora nessa sua nova publicação.

O Centenário do poeta Gerardo Mello Mourão

Com o título “Um gênio da arte da ressurreição”, eis artigo do escritor, professor e juiz estadual Mantovanni Colares, sobre o poeta cearense Gerardo Mello Mourão, cujo centenário se comemora neste 2017. Confira:

O poeta tem a ilimitada permissão para despertar em nós estranhos sentidos, ao cerzir no tecido da imaginação algumas expressões aparentemente sem nexo; assim o fez Fernando Pessoa, por exemplo, ao se referir a “músicas invisíveis”. E por acaso existiriam músicas visíveis? Esse é o primeiro socorro argumentativo racional que nos invade, para depois também questionarmos se a visibilidade mantém relação de pertinência com algo a abstrata música. Na verdade, o que Pessoa constrói nesses versos é algo magicamente lírico; a poesia fala de alguém a sonhar, inventando palcos e cenários, para viver o sonho “Entre luzes brandas / E músicas invisíveis…”. As luzes que alimentam os sonhos não são as de holofote, agressivas, a queimar a pele dos que porventura estejam no palco. As luzes ofuscantes se revelam tão assustadoras quanto as músicas escandalosas, e por isso não combinam com a necessária ambiência própria dos que almejam viajar por sonhos, que é a da penumbra, com luzes brandas, e músicas quase imperceptíveis, assustadoramente silenciosas. Eis as músicas invisíveis.

Uma das mais instigantes junções poéticas supostamente desconexas, porém, é a referência a “ouvidos cegos”. Não seriam ouvidos moucos? Para nós, mortais, sim. Os poetas, todavia, vão além, e nesse caso a ousadia foi talhada por Gerardo Mello Mourão, aquele que “conseguiu o máximo de expressão usando recursos artísticos que nenhum outro empregou em nossa língua”, assim se referiu Carlos Drummond de Andrade ao cearense nascido nas Ipueiras, e que dominava não só o idioma nosso, mas também holandês, alemão, francês, italiano, inglês e espanhol, sem falar no grego e no latim.

Os ouvidos cegos imaginados pelo Poeta eram os de Ulisses (ou Odisseu), rei de Ítaca, personagem principal do poema épico Ilíada, de Homero, abordando acontecimentos da Guerra de Tróia, e justamente numa das viagens em ilha do Mediterrâneo, cujos navios sempre naufragavam por se aproximar das costas repletas de rochas, pois ali o canto das sereias enfeitiçava os marinheiros, que se deixavam levar ao destino cruel de por elas ser devorados, o precavido Ulisses determinou aos seus comandados que o amarrassem ao mastro de sua embarcação, e tapassem seus ouvidos com cera de abelha, ordenando-os que não o libertasse, ainda que ele implorasse para tanto, e graças a isso conseguiu atravessar a nau sem sucumbir ao encanto fatal das estranhas criaturas.

Gerardo Mello Mourão, o mágico artesão das palavras, imaginou então “O que as sereias diziam a Ulisses na noite do mar” – esse é o nome do poema –, e em seu canto aquelas deusas do abismo molhado prometiam ao rei de Ítaca “um leito de rosas e lençóis de jasmim”, lembrando-o de que “os que dormem com deusas / deuses serão”, para em seguida suplicar: “Não partas! / Se partires / as velas da tua nau serão escassas / para enxugar-te as lágrimas – e nunca / nunca mais tocará a pele das deusas / nunca mais a virilha das fêmeas dos homens / e nunca mais serás um deus / e nunca mais a melodia de uma canção de amor / dos hinos de himeneu: / abelhas mortas para sempre irão morar / na pedra do jazigo de cera / de teus ouvidos cegos”.

Impõe-se a bendita paciência para alcançar a grandiosidade do último verso: “de teus ouvidos cegos”. Lembremo-nos da ordem de Ulisses aos marinheiros, da imposição das amarras ao mastro central do navio, da colocação da cera de abelha em seus ouvidos, para não permitir a doce invasão do canto das sereias em sua mente. Mas no canto das deusas sedutoras imaginado por Gerardo Mello Mourão, a advertência é estarrecedora; se Ulisses não se deixasse encantar, seus ouvidos seriam um jazigo no qual, para todo o sempre, habitariam abelhas mortas – todas as que foram necessárias para produzir a cera –, e por isso aqueles ouvidos deveriam ficar destampados, abertos ao mundo e aos sonhos, ouvidos que não se deveriam permitir um lacre da não-sedução, ouvidos cegos, portanto, porque a visão, para o Poeta, é um atributo de cada pedaço do ser, não só dos olhos. Ouvidos cegos. Ouvidos incapazes de mirar os sonhos. Melhor abri-los, pois, ainda que tal atitude levasse o marinheiro ao naufrágio.

Esse é um pequeno exemplo da profundidade do escultor da palavra, o Poeta cearense cujo centenário de nascimento se dá neste ano de 2017, e no qual também se completam dez anos de seu falecimento, e ainda vinte anos do único poema épico escrito em língua portuguesa no Brasil, “Invenção do Mar”, publicado em 1997.

“Invenção do Mar” entoa um Brasil de gênese moldada em período anterior ao episódio das caravelas que aqui aportaram, porque Gerardo Mello Mourão sentencia que os portugueses “inventaram o mar, que inventou o Brasil. Pois o Brasil é uma invenção do mar, inventado por Portugal”. E muito antes de 1421, data na qual o infante Dom Henrique testemunhava o espetáculo de tantas caravelas lançadas ao mar, rumo à ousada tentativa de ultrapassar o Cabo Bojador, dois séculos para trás daquele dia, o rei Dom Dinis, ao perceber na cidade do Porto que dentre as dezenas de barcos singrando o rio não se avistava nenhum português – pois em Portugal não havia tábua para barco –, convocou os nobres e foram plantar pinho em terras portuguesas, e consta que ele plantou com as próprias mãos e com as mãos da rainha Isabel alguns dos pinhais de Leiria onde, tempos depois, se tiraram as tábuas para as caravelas portuguesas. E Dom Dinis mandou plantar cânhamos, para tecer as velas dos barcos, porque em Portugal se tinha apenas lã, e a lã não se prestava para as velas. E Dom Dinis mandou fundir ferro, das minas de Trás-os-Montes, para fazer pregos e tarraxas. E foi graças ao sonho e às atitudes desse que ficaria conhecido como “O Rei Poeta”, que as esquadras portuguesas inventaram o mundo que hoje conhecemos. Gerardo Mello Mourão, sempre que possível, lembrava essa história, daí os versos que inauguram com força e beleza seu “Invenção do Mar”: “Ai flores do verde pinho / ai pinhos da verde rama”. São os pinhais de Leiria.

É preciso que as novas gerações e a de sempre descubram ou redescubram Gerardo Mello Mourão, esse gênio da “arte da ressureição” – assim ele conceituava a poesia –; é fundamental que nos lancemos, tal como os portugueses o fizeram em relação ao mar, na magnífica obra poética desse gigante da palavra, erguendo por sobre o mastro do lirismo fincado no navio dos sonhos uma imensa bandeira branca, adornada com esses versos de “Invenção do Mar”: “não importa chegar – o que importa é partir.”

*Mantovanni Colares,

Juiz estadual, professor e escritor; e constantemente faz referência à poesia de Gerardo Mello Mourão em encerramentos de palestras jurídicas ministradas país afora.

Livro aborda o Judiciário e a escassez de leitos de UTI no Ceará

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A professora e escritora Vanessa Gomes Leite lançará nesta quarta-feira, às 19 horas, no auditório da Fametro, o livro “Saúde em Juízo: o excesso do Judiciário e a escassez dos leitos de UTI  no estado do Ceará”.

A apresentação fica por conta do professor Juraci Mourão, também procurador do Município de Fortaleza.

Haverá sessão de autógrafos.

SERVIÇO

*Fametro – Rua Conselheiro Estelita, 500 – Centro.

Brasil e Portugal criam prêmio de literatura infanto-juvenil

Os ministérios da Cultura de Brasil e Portugal criaram o Prêmio Monteiro Lobato de Literatura Infanto-Juvenil , como forma de incentivar jovens leitores. A proposta é premiar, anualmente, autor e ilustrador dos países de Língua Portuguesa, conhecidos como lusófonos. O prêmio foi um dos acordos bilaterais relacionados à produção cultural assinados durante a 10ª Reunião de Ministros da Cultura da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que ocorreu nesta sexta-feira em Salvador.

“Nós [brasileiros] ainda lemos muito pouco e precisamos da formação de novos leitores através desse incentivo às comunidades dos países de língua portuguesa para os seus escritores de literatura infanto-juvenil. É de um grande significado a assinatura desse prêmio e nos moldes de um prêmio exitoso na comunidade, como o Prêmio Camões”, disse o ministro da Cultura brasileiro, Roberto Freire.

O encontro reuniu ministros ou  representantes do Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste e ocorre na data em que é comemorado o Dia da Língua Portuguesa.

(Agência Brasil)

Ignácio de Loyola Brandão destacou a Bienal do Ceará

Com o título “Cada pessoa, um livro. O mundo, uma biblioteca”, eis artigo de Ignácio de Loyola Brandão, escritor e colunista da Folha. Ele escreveu sobre a Bienal Internacional do Livro do Ceará, destacando como bom exemplo a Bienal Fora da Bienal. Confira:

Literatura te tira do tiro da rua e te tira do tiro da viatura, frase em muros de Fortaleza

No fim da tarde de sábado passado, a van que me levava para Cuca Jangurussu, extrema periferia de Fortaleza, passou pela Vila do Mar, Pirambu, onde presenciei Daniel Galera sendo “batizado” – ou seja, enfiado no mar – pelos surfistas e jovens leitores ao terminar sua apresentação de literatura para uma plateia inteira dentro da água. “Entrar no mar para conversar sobre literatura foi a experiência vivida pelo escritor em programação da Bienal Fora da Bienal. Galera conversou com surfistas e nadadores no Pirambu sobre a relação entre o mar e a literatura”, escreveu a repórter Maria Parente no jornal O Povo, em matéria de grande destaque. Livros e escritores foram as estrelas aqui por 10 dias.

Hora e meia depois, contornando toda a cidade por avenidas marginais, cheguei a Jangurussu (a palavra significa enxame de abelhas) e fiquei assombrado ao penetrar nos equipamentos do Cuca, Centro Urbano de Cultura, Arte, Ciência e Esportes. A noite tinha caído e um cheiro forte de vegetação dominava a atmosfera. Em um campo de areia, dois times disputavam futebol social. Outro grupo esperava a vez. Há dias, disse meu guia Daniel Mamede, diretor de Promoção de Direitos no Instituto Cuca, que você passa aqui às 3 da manhã e tem garoto jogando. Assim, fogem das ruas. Na quadra do ginásio de esportes, surdos-mudos treinavam futsal. Na concha acústica, a garotada disputava um campeonato de xadrez. Os degraus da arquibancada, pichados ou com grafites. De instante a instante, damos com frases pelos muros, as mais recorrentes assinadas por Remido: Literatura te tira do tiro da rua. E Literatura te tira do tiro da viatura.

Os degraus e as paredes são nossas páginas de livros, me disse Mamede. Logo à frente, uma frase que nosso prefeito Doria, rei da selfie, adoraria apagar: No país onde roubar é arte, pichar é crime. Difícil imaginar que esse bairro, criado em cima de um lixão insalubre, atmosfera infecta, de onde a população tirava o sustento, era dos mais violentos e atrasados do Brasil. Nascer ali, era crescer para a marginalidade, avançar para a morte precoce. Em 2015, 292 adolescentes foram mortos na cidade. Hoje, o lixão sumiu, os jovens estão deixando de ser “mulas” de traficantes, a busca por aprendizado é a determinante. Esporte, arte, literatura e projetos sociais estão alterando o panorama.

A Rede Cuca é formada por gigantescos equipamentos montados pela prefeitura de Fortaleza. Criados numa gestão, tiveram continuidade na seguinte, mesmo sendo o eleito da oposição. Isso é governar. Isso é ser gestor. Neles, há atendimento psicossocial, encontros com escritores, aulas de artes cênicas, economia criativa, audiovisual, informática básica, teatro, fotojornalismo, dança, fotografia, música, canto, animação, línguas, basquete, vôlei, futebol de areia, jiu-jítsu, capoeira, projetos de educação integral e inclusiva. Frequentadíssimos, os Cucas não param, agitam o tempo todo, promovem, ensinam, são “clubes” sem carteirinha, sem crachás nem catracas na entrada. Os Fóruns de Jovens determinam a política do que e como fazer. Ali, estive por quase três horas e falei sobre livros e literatura. O que é tudo isso? A Bienal Fora da Bienal, segmento da Bienal Internacional do Livro do Ceará, em sua 12.ª edição. Brilhante ideia, nascida há cerca de uns oito anos.

A Bienal em si não existe apenas dentro do gigantesco Centro de Convenções da cidade, que teve todos os seus espaços ocupados por palestras e debates durante dez dias. Foram cerca de 150 escritores de variados calibres se revezando com mestres do saber, oficineiros, músicos, repentistas, turma do cordel, bandas, danças, vídeo, teatro, o que, no balanço de público, deu mais de 600 mil visitantes, todos os dias entre 9 da manhã e 10 da noite. E houve no meio enorme problema com ônibus sendo incendiados em guerra de facções, assustando a população.

A Bienal Fora da Bienal tem sido a fórmula bem-sucedida para incluir, envolver a cidade e as cidades próximas na questão livro, formação de leitor. Está aí a sugestão para a FLIP, que tem sofrido críticas por conservar a comunidade de Paraty “fora” do evento. Além de Galera falando no ar e dos meus encontros no Cuca, tivemos Walter Hugo Mãe maravilhado ao visitar aldeias indígenas. O ator Gero Camilo foi à Unidade Prisional Irmã Imelda Lima Pontes, em Aquiraz, antiga capital do Estado. Posso dizer que essa Bienal esteve ligada à recente Correntes d’Escritas da Póvoa de Varzim, Portugal. Vieram direto para cá Tony Tcheka e Manuel Casqueiro, de Guiné-Bissau, Rosalina Tavares, de Cabo Verde, Carlos Subuhana, de Moçambique, e Ondjaki, de Angola, que se reuniram na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, Unilab, para discutir oralidades escritas em língua portuguesa. Agito por todos os lados, de todos os tipos.

Nesse momento de crise, em que a cultura tem sido sufocada por cortes de orçamentos em todas as esferas, o Ceará dá a demonstração de que o livro é fundamental e por intermédio dele podemos nos desenvolver. Por aqui e outros lugares trocam-se inutilmente secretários, estaduais e municipais, e se paralisa tudo ao sabor de ambições políticas.

Razão tem Affonso Romano de Sant’Anna ao comparar a Bienal do Ceará com a Feira do Livro de Frankfurt, a famosa Buchmesse, em sua grandiosidade. Acrescento a de Guadalajara, no México.

O caderno de programação tinha 60 páginas, cada uma listando 20 acontecimentos. Agora, a cada lugar onde irei, vou usar a camiseta da Bienal com o tema deste ano: Cada Pessoa, um livro. O mundo, uma biblioteca.

Lembrete: Rita Gullo e eu voltamos com o show Solidão no Fundo da Agulha 2, com novas histórias e músicas. Às 20 horas de segunda-feira, no Teatro Sérgio Cardoso, Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista.

*Ignácio de Loyola Brandão.