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Meritíssima, se a senhora quiser me libertar nessas condições, nós vamos ter problemas

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Em artigo sobre a atual situação do ex-presidente Lula, o músico Teju Franco diz que “o Brasil não está louco, só foi enganado, trapaceado, hipnotizado. Resta aos golpistas clamarem por uma condução coercitiva (ao contrário?) para levar seu prisioneiro da prisão para casa, depois de tanto trabalho para prendê-lo. Que situação!” Confira:

Quem diria que, um ano e cinco meses depois, os procuradores da Lava Jato pediriam a liberdade de Lula? O que aconteceu? O Brasil ficou louco como dizem alguns? Afinal, as coisas não andam batendo, como se diz:

— Gilmar virou a voz do garantismo, a Globo perdeu o protagonismo e não dita mais a agenda política do país, a principal política que o jornalismo da Globo faz agora é se calar, não noticiar (que coisa, hein?). In Fux we trust anda caladinho; o Fachin aha uhu é nosso resiste com a Lava Jato bravamente chantageado; Barroso virou um Rolando Lero solitário, uma redundância de si mesmo que não fala coisa com coisa; Fachin parece aflito, como alguém que não sabe nadar vendo a maré subir, por enquanto atende ao dono do bote que o chantageia, mas se borra com a água da Vaza Jato cada vez mais molhando sua bunda sob a toga dos covardes; Rosa Weber está esperando para aonde vai a maioria (esta não mudou muito); Moro assumiu seu destino entre a mediocridade e a nulidade submissa (tanto pra acabar assim) enquanto se embriaga na noite de Brasília; Deltan mudou de nome para Dinheirol e vive em estado de sonambulismo tarja preta, lidera o MSP (Movimento dos sem Palestras); a juíza Carolina, carrasca e arrogante, Lebbos está brigando, com a fúria de costume, para assinar a ordem de soltura coercitiva de Lula.

Cadê as frases feitas de Carmem Lúcia, a poesia de Aires Brito, o histrionismo “peruquento” de Fux, a ira “holofótica” de Joaquim Barbosa? O procurador-geral da República, poderoso chefão que tudo comandou, em crise de abstinência midiática, virou um homicida-suicida, aspirante a escritor de best-sellers de banca de jornal, um louco que prefere perder tudo menos as câmeras da imprensa, e por quê? O que aconteceu, mudaram o diretor do espetáculo da justiça e esqueceram de avisar? O Brasil ficou louco mesmo?

Não, mexeram com o animal político errado; deu tudo errado.

Anos e anos de ruptura institucional, medidas inovadoras de exceção, atropelos da lei, operações de TV, justiça Swatt de espetáculos hollywoodianos, assassinatos de reputações, condenações prévias na imprensa, prisões ilegais, coerções com japoneses contrabandistas, fábrica de delações, capas de morcego e punhos de renda com carradas de discursos em latim. Todo esse trabalho hercúleo para terminarem mais perdidos que cego em tiroteio, baratas tontas a se perguntarem “o que houve?”; macacos perdidos em queimadas na floresta deste Brasil terrível a que chegaram. Tudo isso para acabarem mais impotentes que a República do Paraná a cada matéria do Intercept, ou a Globo News sem a posse da narrativa, a Miriam Leitão e a Cantanhêde Massa Cheirosa querendo agora soltar o Lula é a mais completa tradução do nó que Lula deu nessa gente. O que deu errado, foi a Vaza Jato?, perguntará o idiota que sempre achou Lula um ignorante.

Não, foram anões brincando de fazer política com um gigante político da história. O tempo dos anões é o passo, o dia, a semana, o mês seguinte, o do gigante é lá na frente; a expectativa dos anões é a de estarem lidando com um semelhante, um que agiria como eles, mas não se trata do caso, é outro tipo de animal; neste caso, as vitórias são de Piro e o futuro é implacável; assim chegamos aqui.

O Brasil não está louco, só foi enganado, trapaceado, hipnotizado — plim plim, mas o golpe “deu ruim”, o tiro saiu pela culatra, resta aos golpistas clamarem por uma condução coercitiva (ao contrário?) para levar seu prisioneiro da prisão para casa, depois de tanto trabalho para prendê-lo. Que situação!

Lembro, quando Lula se entregou, as várias criticas a sua atitude. Analistas profissionais e de redes sociais se dividiram, a situação era confusa mesmo. Em um primeiro momento, temendo por tudo, eu fiquei mais contra do que a favor de sua rendição aos golpistas, mas não era uma certeza, uma opinião consolidada, era mais dúvida que certeza, por tudo o que envolvia, por se tratar de uma pessoa tão astuta quanto Lula. Fiquei admirado com a rapidez que alguns amigos construíram suas certezas quanto ao “grande erro” que Lula cometia ao se entregar.

Perguntem-se:

— Se Lula tivesse ido para uma embaixada e virado um youtuber como queriam, teríamos esse quadro atual? Lula teria levado as massas às ruas por meio do YouTube? Alguém acredita nisso? Se aposentadoria, carteira assinada, desemprego, repressão, violência policial, sucateamento da educação e do sistema de saúde, censura, destruição de Minc, Ancine, Bolsa Família, Minha casa minha vida, Farmácia Popular, destruição do meio ambiente, não o fizeram.

Lula sabia que estava sozinho com sua militância naquele momento, que o tempo das massas tardaria mais, acelerou o tempo da história com o seu próprio martírio com uma altivez e combatividade desconcertantes, contrariou as negociatas criminosas entre a Lava Jato e seus réus imprimindo outra lógica, a da dignidade e da coragem do mártir abnegado, confiou no tempo da verdade histórica, como é um homem de estrela estranha obteve o auxílio surpreendente da Vaza Jato do Intercept e do oportunismo descarado de Moro ao virar ministro, ou de Dallagnol querendo abocanhar dois bi e meio da Petrobras.

Se voltarmos um pouco antes, constataremos que o xadrez já tinha se embaralhado no tabuleiro desde a campanha eleitoral. Julgar apressadamente é fácil, e o que não falta são apressadinhos de plantão. O Brasil é tão complexo e as pessoas são tão rápidas nas certezas.

Todo esse processo, que muitos assinalam a partir de 2013, mas em minha opinião vem do mensalão em 2006, visava a tirar a peça Lula do tabuleiro. Muita gente do eleitorado cirista e mesmo petista, amigos próximos, argumentavam que Lula deveria ter aberto mão da candidatura para construir outra opção eleitoral com mais tempo. Olhando agora, com a distância devida, em minha opinião não foi questão de antipetismo, como disse Luis Nassif, e nem de tempo, mesmo porque ele foi preso antes da campanha, e o antipetismo vem de antes; vencemos quatro eleições com antipetismo crescente e venceríamos a quinta não fosse Lula tirado do páreo, pensando assim que lógica tem capitular ao adversário, a lógica acertada de Lula foi: “vocês querem vencer trapaceando?, então terão que trapacear, eu não vou facilitar nada para vocês.” Lula acertou por vários motivos, mais tempo não lhe daria maior transferência de votos, não havia ninguém com tempo hábil de chegar a seu patamar eleitoral, a transferência teria sido menor, sua condição de preso político sensibilizou e trouxe mais votos a Haddad do que um tempo maior de campanha faria. Abrir mão da candidatura pacificamente seria se curvar a tudo que o adversário buscou por anos e anos sem lutar; sair de cena espontaneamente, no começo da campanha, seria, além de tudo, facilitar o jogo, naturalizar o golpe, dar normalidade a uma eleição fraudada em diversos aspectos. Lula esticou a corda até onde pôde, obrigando seus adversários a entregarem a farsa ao tomarem atitudes extremas.

Lula acertou naquele momento ao insistir em sua candidatura, obrigou a justiça a trocar os pés pelas mãos, todos os atos atrapalhados e arbitrários da justiça foram didáticos para começar a quebrar uma narrativa construída por dez anos de ativismo judicial.

Vivemos outro momento em que opiniões se dividem; jornalistas experientes argumentam dos dois lados, uns afirmam, com a mesma pressa, que ele deve aceitar a progressão de pena, outros que não; Lula diz que não, e, em minha opinião, acerta de novo.

Quando Lula se entregou muitos afirmaram que ele morreria na prisão, que não sairia mais de lá; um ano e cinco meses depois, os golpistas da Lava Jato, que fizeram de tudo para prendê-lo, querem que ele vá para casa. Dá o que pensar um pouco, não?

A batata ficou quente demais, sua quentura se espalhou pelo mundo, os maiores pensadores e estadistas do planeta visitam as dependências da Polícia Federal do Paraná e fogem do Palácio do Planalto, as cartas da trapaça foram sendo reveladas, a malandragem laranjeira da família Bolsonaro só não é vista por fanáticos, a malandragem da Lava Jato idem, não bastasse o escândalo dos dois bilhões e meio, a Vaza Jato revela a picaretagem em viva voz como uma novela semanal.

Posto tudo isso, a Globo não sabe o que fazer, a República do Paraná idem, o STF idem, a mídia oficial idem; o único consenso atual é que todos os citados querem obrigar Lula a ir para casa, acredite se quiser;

E a única pessoa que sabe exatamente o que fazer diz:

— Não, não assim, as condições eu defino, e, se me obrigarem, eu também sei o que fazer, basta-me transgredir vossas condições.

Teju Franco, músico e compositor

As fácil-fácil e o trabalho extraclasse

Em artigo sobre os recentes resultados do Enade, o jornalista Nicolau Araújo expõe a realidade de muitas faculdades particulares. Confira:

“Vamos ganhar um diploma de nível superior”? Ofereceu de panfleto na mão a simpática moça, nas proximidades do terminal da Messejana, ao sugerir a matrícula em uma faculdade instalada no bairro.

Dias antes, havia me intrometido na conversa de duas estudantes da mesma faculdade, quando uma delas temia não alcançar meio ponto na prova final em uma das disciplinas do semestre vigente. Apontei que a insignificância de meio ponto na prova final seria resultado de um semestre extraordinário, com notas excelentes.

“Sim!”, confirmou a estudante. Então, como alguém com notas excelentes temia não alcançar meio ponto em uma prova? Ah, os trabalhos extraclasse. Muitas vezes sequer feitos pelos próprios estudantes, mas decisivos na recuperação de avaliações pífias.

Incomodado ainda com a aluna que afirmou que faria uma promessa ao santo pelo meio ponto na prova, disse à moça do panfleto que mal sabia ler ou ser capaz de realizar as quatro operações da matemática.

“Mas, o senhor terminou o ensino médio?”, insistiu a moça. Confirmei a conclusão, mas aleguei que já havia alguns anos e, ainda assim, por meio de supletivo, da mesma forma que o ensino fundamental.

“Então está resolvido! O senhor pode cursar a faculdade”, determinou a moça do panfleto.

Mas, e o vestibular? Como iria me virar com a redação? E os cálculos dos problemas de matemática?

“A prova é só uma formalidade – me surpreendi com o emprego do termo -, a redação não é obrigatória – me surpreendi novamente, desta vez perplexo – e todas as questões são de marcar (objetivas). Não precisa de cálculos (na prova de matemática)”, revelou a moça, que confirmou ainda que os trabalhos extraclasse “salvam” qualquer “nota baixa”.

Infelizmente, há dois anos, já havia visto o absurdo em uma faculdade no bairro Jacarecanga, quando uma estudante confessou ter se matriculado sem a redação, pois seria semianalfabeta.

Outros milhares de casos explodem todos os anos no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), quando o rendimento satisfatório das chamadas “fácil-fácil” não chega a 5%. Este semestre, 3,3%.

O resultado disse tudo impacta no péssimo profissional que é despejado no mercado de trabalho, diante de ganho salarial tão pífio quanto à competência.

Nesta semana, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, reconheceu que universitários com baixo rendimento nas “fácil-fácil” não deveriam ter o diploma de nível superior. No entanto, a declaração contradiz o tratamento dispensado às universidades públicas, que a cada ano perdem verbas e o incentivo a pesquisas.

Nessa prova, Weintrau precisará do trabalho extraclasse…

Nicolau Araújo

Jornalista

Desabafo de quem está voltando para o Brasil

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Em artigo sobre a visão política do Brasil, no exterior, o advogado e professor universitário Marcelo Uchôa aponta impressões sobre o presidente Jair Bolsonaro. Confira:

Estou há vinte dias no exterior, parte significativa dos quais em imersão acadêmica convivendo com pessoas procedentes de 35 nações diferentes. Direi o que, em termos gerais, a turma pensa da situação do Brasil.

Sendo bem claro, para desgosto de quem acha que o Brasil é a última Coca-Cola do deserto, no exterior, ninguém tá nem aí pro Brasil, muito menos pro desqualificado que preside o país.

Para todo mundo, seja de esquerda ou de direita, a pústula do Planalto não passa de um ignorante exótico que quer aparecer falando besteira, mas que logo virará fumaça após os minutos de fama. É apenas um puxa-saco de quinta categoria do Chefe de Estado mais odiado do planeta, o presidente Trump.

Dá pena do Brasil, o país está totalmente desmoralizado. A impressão que dá é que ninguém de juízo terá coragem de investir no Brasil, uma nação imensa, que um dia mostrou que poderia ser potência, exemplo de diversidade e tolerância, mas que hoje é governada por um trouxa inconsequente e inepto, que, além de tudo, é atrasado e careta, e vive sob inspiração das maluquices incompreensíveis de seus filhos playboys, perdido em holofotes de baixarias cotidianas de todo seu primeiro escalão de governo.

Para piorar e queimar mais ainda o país há o papelão da Lava Jato, vendida  para todo mundo como coisa séria, mas que agora já se percebeu ter sido, nada mais nada, nada menos, que uma conspiração sórdida, orquestrada claramente para prender uma pessoa, o ex-presidente Lula.

Enfim, lamento muito por todos nós brasileiras e brasileiros, inclusive as tolas e tolos que continuam achando que o demente do Planalto está abafando, quando só está, cada dia mais, empurrando o país para dentro da latrina. Não tardará muito para essa gente orgulhosa do apelido de gado sentir no bolso o custo dessa brincadeira sem graça. Sentirá, também, no exterior, como é ser tratada como burra, porque é isso o que os estrangeiros pensam dos brasileiros por terem tornado a lástima das fake news e das grosserias gratuitas em presidente do país.

Passei 20 dias fora do Brasil, foram simplesmente 20 dias tendo que me justificar para pessoas de 35 nações diferentes sob a realidade distópica do país. E olhem que não tenho nada a ver com isso.

Marcelo Uchôa

Professor universitário e advogado

Artigo – “Lugar de negra é limpando chão”

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Em artigo contra o racismo, publicado no site Intercept, a jornalista Etiene Martins relata caso na Prefeitura de Belo Horizonte. Confira:

Em outubro de 2017, fui nomeada gerente de Prevenção à Violência e Criminalidade Juvenil pela prefeitura de Belo Horizonte. Dentre as minhas atribuições profissionais, a principal é coordenar o programa de prevenção à morte de jovens e adolescentes – faixa etária com mais vítimas de homicídio na capital mineira e em todo o Brasil. Há também outras características predominantes: a maioria é composta por homens, negros, pobres e moradores de favelas. Em Belo Horizonte, 78% dos adolescentes assassinados são negros. Ainda mais assustadores são os dados dos bairros do centro-sul, onde essa taxa vai a 94%.

Talvez você argumente que a população negra é maior e, por isso, morrem mais negros. Mas não é bem assim. Nessa região belo-horizontina, apenas 32,5% dos jovens são pretos, pardos e indígenas; os outros 67,5% são brancos ou amarelos. Para reafirmar o mito da democracia racial e querer responsabilizar a pobreza, você também pode achar que se trata de um problema meramente econômico. Porém, neste caso, o branco também mora na favela e não é vítima de homicídio na mesma proporção que o negro. São duas realidades bem distintas em uma mesma cidade – ainda que BH esteja longe de ser a única cidade a apresentar esse contraste. É como se o jovem branco vivesse com o nível de segurança esperado para um país em desenvolvimento, e o jovem negro, em um campo de guerra.

Eu sou mulher negra, filha da periferia, que conseguiu terminar o ensino médio e ingressar na faculdade. Mesmo sendo pobre, tive pais presentes que me deram estrutura e acompanharam meu crescimento. Nem todos nascem com a mesma sorte. Estudei comunicação e concluí minha pós-graduação enterrando primos e amigos de infância – um deles assassinado com oito tiros no rosto. Para mim, esse cargo na prefeitura não era apenas uma fonte de renda. Era uma missão. Uma missão que aceitei sabendo das dificuldades, até porque minha participação no movimento negro me ensinou que lutar contra o genocídio da população negra não seria fácil. Quantas pessoas que foram assassinadas você conhece?

Mesmo sem contatos prévios na SMSP, fui nomeada gerente, um cargo de confiança dentro da Diretoria de Prevenção Social à Criminalidade. Como única pessoa negra no setor, relevei “pequenas” falas racistas de colegas de setor – até porque, se a gente fizesse um B.O. toda vez que sofre racismo, passaríamos metade dos nossos dias na delegacia. Mas é difícil saber o que devemos deixar pra lá e o que é preciso levar adiante. Como ter esse discernimento se qualquer reação à violência racial é pejorativamente classificada como mimimi? Como evitar que o racismo estrutural boicote a implementação de políticas públicas e projetos sociais voltados para jovens com um histórico de negação de direitos?

Mas, em junho, oficializei mais uma queixa de racismo institucional na SMSP. Mais uma, porque, em novembro de 2018, já havia oficializado outra na corregedoria contra um guarda municipal chamado Luzardo. O sujeito me disse a seguinte frase: “Preto bom é preto morto”. Depois de seis meses, a corregedoria concluiu que os dizeres do guarda não configuravam dolo, quando há a intenção de cometer um crime, apenas fala inapropriada no local de trabalho. Me senti injustiçada, claro. E, no dia seguinte, fiz um B.O. na Polícia Civil, levando o inquérito instaurado na corregedoria. Nos depoimentos, o guarda admite ser o autor da frase, embora alegue que tivesse feito“só” uma brincadeira.

Antes de pensar em ir à delegacia, o secretário de Segurança Pública de BH, Genilson Zeferino, que é negro, tinha me pedido para não tomar qualquer providência – como você pode conferir no print do WhatsApp. E, quando comuniquei que faria B.O., ele me “alertou” que o ambiente de trabalho ficaria “insustentável” caso levasse essa ideia adiante. Ele tinha toda a razão, a situação ficaria insustentável, mas até quando vamos nos calar? Registrei um B.O.

Em Belo Horizonte, assim como nas outras metrópoles brasileiras, as estruturas políticas são tradicionalmente comandadas por uma hegemonia branca. As pessoas negras que desejam fazer parte dessa elite não podem questionar o sistema, apenas se curvar diante dele. E não faltam negras e negros dispostos a fingir que o racismo não existe no mercado de trabalho. Enquanto isso, eles trabalham para tentar atingir o mesmo reconhecimento dos companheiros não negros, indo atrás de recompensas materiais que acalmem seu desajuste nesses círculos sociais. A lógica da supremacia branca é perpetuada dessa forma. Ela seduz negros com a promessa de sucesso, mas só se estiverem dispostos a recusar o valor da negritude e dos seus.

Zeferino também contou que ele estava prestes a sair do cargo e, como Luzardo estava trabalhando como motorista do secretário adjunto, Rodrigo Teixeira, que assumiria em seu lugar, as chances de eu ser exonerada eram altas. Só que o ambiente já estava insustentável para mim. Era uma tortura dividir o mesmo elevador e ambiente com esse guarda que, vale lembrar, trabalha armado. Sinceramente, eu morria de medo.

Um dia depois do meu boletim de ocorrência, minha chefe imediata, Márcia Cristina Alves, diretora de Prevenção Social ao Crime e à Violência, me mandou este e-mail:

Foi um ano e sete meses de racismo velado, mensagens subliminares (além de outras mais diretas) e uma sensação de impotência. Por não ter sido responsabilizado na corregedoria, o guarda ganhou salvo-conduto para continuar agindo da mesma forma. Eu, já cansada de tudo isso, foquei no trabalho e fiz vistas grossas. Mas chega uma hora que a gente não dá conta, e decidi entregar meu pedido de exoneração em 3 de julho. Junto dele, coloquei o e-mail enviado pela minha chefe – ao qual não respondi.

O secretário Zeferino garantiu que iria apurar, chamou um técnico da Empresa de Informática e Informação do Município de Belo Horizonte, a Prodabel, para verificar a veracidade do e-mail, que constatou que, sim, era verdadeiro e, sim, tinha sido enviado do computador dela. Zeferino me mudou de setor e disse para ficar tranquila, porque o processo estava na corregedoria e, dessa vez, teria responsabilização. Em reunião, decidimos que eu continuaria no cargo – e assim eu o fiz. Registramos por e-mail a minha continuidade na prefeitura.

No dia 28 de julho, fez um mês desde que oficializei essa segunda queixa. Três dias depois, fui até a corregedoria para obter informações sobre as datas e o andamento do processo. Procurei pelo relator responsável, o senhor Fabiano Machado Borges. Ele me atendeu no corredor da recepção diante de outros servidores e se recusou a me passar informações, apenas alegando que eu seria chamada para depor. Insisti, expliquei meu caso, e nada.

À noite, cheguei em casa cansada de toda essa situação e decidi torná-la pública no Facebook, onde familiares, amigos, colegas e até desconhecidos se solidarizaram comigo. Registrei o B.O. do racismo da minha chefe via e-mail. O caso chocou milhares de pessoas, mas o prefeito e o secretário – os únicos com poder para intervir – nada fizeram.

Continuei indo trabalhar, mas me alocaram em um espaço isolado do restante da equipe da SMSP em uma sala sem banheiro e ar-condicionado diferente dos outros gerentes. Meus superiores hierárquicos me deixavam durante todo o expediente ociosa e me impediam de exercer as atribuições do meu cargo. Dentre os meus colegas da mesma hierarquia, recebi apoio. Mas o secretário Zeferino não falou mais comigo.

Nesse meio tempo, fui ouvida pela corregedoria. E, ontem, dois meses e meio depois de eu denunciar publicamente o racismo que sofri, fui exonerada do cargo. Antes mesmo da corregedoria concluir a apuração, o prefeito Alexandre Kalil, sem nem sequer me ouvir, assinou minha exoneração.

Diante da tamanha violência que é o racismo, sinto que esse assunto ainda é um tabu mesmo dentro de um setor público porque o desfecho da história é cruel. O guarda municipal admite que disse que “preto bom é preto morto”, e a instituição trata como fala não apropriada no local de trabalho. A minha chefe me manda um e-mail dizendo que, por eu ser negra, tenho que limpar chão. No final, a profissional exonerada sou eu.

Logo eu que aceitei o convite para integrar a equipe de prevenção acreditando que poderia fazer alguma diferença na vida dos adolescentes e jovens da cidade. Logo eu que vibrei quando aprovei um projeto e o orçamento para a construção de oito bibliotecas especializadas em juventude negra destinada aos meninos inseridos no sistema socioeducativo. Logo eu que batalhei e consegui aprovar um projeto de imersão cultural que levaria os adolescentes para conhecer outras capitais do Brasil, ampliando o horizonte de uma juventude tão privada de acessos. Os projetos estão aprovados e com orçamento – espero que alguém dê continuidade. Afinal, vidas negras importam para quem?

Etiene Martins, jornalista

OUTRO LADO

O Intercept entrou em contato com a assessoria de imprensa da SMSP, que enviou o seguinte e-mail:

Sobre o caso em questão, esclarecemos que Etiene era servidora comissionada, em cargo de recrutamento amplo nomeada pelo prefeito Alexandre Kalil em 15/09/2017 e pediu, por iniciativa própria, exoneração do cargo no dia 03/07/2019, como comprova o e-mail anexo. Em consideração à grave denúncia, aguardamos o andamento da apuração para acatar o pedido.

A apuração resultou em sanção imposta pela corregedoria ao guarda municipal citado, servidor efetivo sujeito a regras específicas de sua carreira.

A outra denúncia, que diz respeito a um e-mail, está sendo apurada pela delegacia de crimes cibernéticos da Polícia Civil.

Márcia Cristina Alves, diretora de Prevenção Social ao Crime e à Violência, publicou no seu Facebook o seguinte texto, em que declara não ter enviado a mensagem:

Venho publicamente me manifestar a respeito das publicações feitas com meu nome e colocando a minha pessoa em dúvida em relação a uma acusação e racismo.

Tenho a esclarecer:

1- Afirmo veementemente que o referido e-mail não foi escrito por minha pessoa e inclusive já registrei ocorrência policial sobre isso há mais de um mês.

2- O referido e-mail a que se refere a denúncia é do dia 22 de maio de 2019 e chegou ao meu conhecimento no dia 28 de junho, mais de um mês após ao seu envio. Durante todo esse período jamais fui notificada da existência dele ou qualquer outra pessoa tomou conhecimento deste e-mail.

3- Imediatamente ao conhecimento deste e-mail procurei as autoridades municipais para solicitar que fosse apurada a origem do mesmo e assim como afirmei veemente jamais ter escrito este e-mail.

4- Registrei Boletim de ocorrência na delegacia de crimes virtuais, com provas contundentes de que no dia e horário do envio do e-mail estava em uma agencia bancária, a 03 quilômetros de distância do meu local de trabalho, realizando uma transação presencial com uso inclusive de minhas digitais e filmagens de minha presença no banco, além dos comprovantes com os horários de todas as transações, na presença do gerente do banco, ficando neste local por um período de 01 hora das 12h20min às 13h15min.

5- Destaco que pelo padrão do e-mail assim como pelo histórico de Google o referido e-mail foi acessado às 12h30min de um computador, não de um celular. De todo modo dentro da agência não é possível usar o celular e como disse anteriormente, as imagens e comprovantes do Banco atestam que eu não estava no computador nesse horário.

6- Apesar de todas estas provas materiais, tenho uma prova muito importante, de minha índole e ética, de 27 anos de trabalho como servidora pública na defesa e promoção de direitos de crianças, adolescentes e jovens, comprovada pelas inúmeras ações, projetos, funções e inclusive publicações a respeito do Genocídio de Jovens Negros na cidade de Belo Horizonte. Quando assumi cargos na politica pública coordenando Programas e Projetos sempre defendi publicamente os direitos à vida, à liberdade e à justiça. Durante toda a minha trajetória profissional compartilhei experiências com as comunidades mais vulneráveis, com as pessoas mais fragilizadas e dediquei toda a minha profissional a estas pessoas.

7- É necessário que essa fraude seja investigada e quem a cometeu seja responsabilizado.

8- esse momento crítico em que vemos as redes sociais sendo utilizadas para destruir pessoas, desqualificar projetos de interesse daqueles que mais precisam, atacar pessoas sem nenhum critério de razoabilidade, (pode-se ver pelo conteúdo do e-mail publicado com meu nome que nenhuma pessoa escreveria algo desta natureza sabendo de todas as suas consequências) me vejo obrigada a restabelecer essa conta no Facebook para me defender de um ataque que considero grave e NECESSÁRIO A MINHA MANIFESTAÇÃO EM DEFESA DO DIREITO DE RESPOSTA, DO MEU COMPROMISSO PÚBLICO E DA MINHA LUTA DE ANOS PELA IGUALDADE NESSA CIDADE E NESTE PAÍS.”

Jornalista se passa por cliente de esposa de Eduardo Bolsonaro e irrita deputado

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Com o título “O coaching online de Heloísa Bolsonaro: As lições que podem ajudar Eduardo a ser embaixador”, o jornalista da revista Época, João Paulo Saconi, relatou a experiência de ser cliente da psicoterapeuta Heloísa Wolf Bolsonaro, esposa do deputado federal Eduardo Bolsonaro e candidato a embaixador nos Estados Unidos. O artigo irritou o parlamentar, que reclamou que o repórter teria omitido sua profissão ao participar das sessões, além de ter dito que seria homossexual. Confira o artigo:

Durante um mês, fui aluno em sessões de coaching on-line da nora do presidente da República e, quem sabe, da futura embaixatriz brasileira em Washington, Heloísa Wolf Bolsonaro, de 27 anos. Há quatro meses, antes de se casar, ela ministrava aulas usando apenas o nome de solteira e cobrava R$ 500 pelo curso mais barato. Com o casamento e o novo sobrenome, o mínimo cobrado pelas aulas saltou para R$ 1.350. Ela se mostrou simpática, bem-humorada e disposta a longas conversas durante as cinco sessões de uma hora e meia em que recebi lições ao estilo das que têm ajudado o deputado federal Eduardo Bolsonaro a se preparar para a sabatina no Senado à qual está submetida sua ida para Washington.

Formada em psicologia, Heloísa abandonou o expediente como psicoterapeuta para atender apenas como coach pessoal, via internet, com áudio e vídeo transmitidos em tempo real diretamente do apartamento onde o casal vive, em Brasília. Comentários abstratos sobre “as pessoas” — em geral, as que se opõem ao marido — escaparam com alguma frequência. Semanas após o início das sessões, ela me diria que “as pessoas que são contra o governo” são capazes de qualquer coisa — inclusive, incendiar a Amazônia — para prejudicá-lo.

Contei que minha família, no interior de São Paulo, havia votado em Eduardo para a Câmara. Ela me agradeceu pelo apoio, mas disse que “os eleitores de São Paulo estão um pouco tristes com ele”. Questionei se a razão seria a indicação para a embaixada dos Estados Unidos. A resposta veio em forma de uma promessa. Heloísa lembrou que nada estava certo e afirmou que Eduardo poderá privilegiar São Paulo quando estiver à frente da embaixada, em “termos de negócio”.

A coach também tentou me provar que a homofobia é um preconceito distante dela, de Eduardo e da família. No casamento deles, por exemplo, havia três casais gays. Até sobre as práticas dos governos petistas e sobre a “caixa-preta do BNDES” nós conversamos. “Esse final de semana agora eu estava com o presidente do BNDES, que é um amigo nosso também. Ele falou: ‘Gente, o que a gente está descobrindo, o Brasil não está preparado para saber o rombo que ficou. Nosso país é tão rico, mas sustentou coisas inimagináveis’. Para a mulher de Eduardo, o relato é “chocante”.

Antes na penúltima sessão, ela me deu dicas de como me manter antenado enquanto me esforçava para acompanhar menos notícias tristes — uma das metas que definimos juntos. Terça Livre, Senso Incomum, Renova Mídia, Allan Santos, Filipe G. Martins, Tradutores de Direita, Ideias do Caio Copolla e Brasil Paralelo. O último é utilizado por Eduardo para estudar história nos preparativos para a sabatina do Senado: “Depois de assistir, a pessoa se torna muito mais inteligente e culta, eu amo!”, recomendou.

João Paulo Saconi, jornalista da Época

Saudável disposição

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Editorial do jornal O Estado de S.Paulo, nesta quinta-feira (11), destaca iniciativa do senador cearense Tasso Jereissati em não atrasar o cronograma de promulgação da reforma da Previdência. Confira:

Discute-se no Senado se as supressões feitas pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) no texto do projeto da reforma da Previdência, relatado por ele na Casa, configurariam alterações substanciais do texto aprovado pela Câmara dos Deputados ou se são meras emendas de redação. A discussão é importante porque, prevalecendo o entendimento de que se trata de alterações de mérito, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) deve voltar aos deputados para nova deliberação. Não havendo qualquer mudança de substância, a PEC pode seguir sua tramitação no Senado, com votação em plenário em dois turnos e promulgação.

De toda forma, o senador Tasso Jereissati já mostrou uma saudável disposição para rever o seu relatório a fim de evitar atrasos no andamento da PEC. Louve-se a iniciativa porque a volta do texto para a Câmara dos Deputados, além de atrasar o cronograma de promulgação da reforma da Previdência – prevista para meados de outubro –, abre um perigoso espaço para novas investidas das corporações afetadas pela reforma, o que, ao fim e ao cabo, pode desidratar ainda mais a economia prevista para os dez primeiros anos após a promulgação da PEC, hoje fixada em R$ 877 bilhões. O valor é menor do que os R$ 933,5 bilhões previstos na proposta aprovada na Câmara dos Deputados.

Uma das mudanças propostas pelo senador Jereissati estende aos Estados e municípios a autonomia para fixar alíquotas extraordinárias na contribuição previdenciária dos servidores. Isso seria possível por meio da retirada da expressão “no âmbito da União” no trecho da proposta que trata dessas contribuições extras. Inicialmente, técnicos do Senado avaliaram que a supressão muda o conteúdo da PEC e, portanto, o texto deveria voltar para a Câmara.

Este também foi o entendimento do deputado Marcelo Ramos (PL-AM), presidente da Comissão Especial da Reforma da Previdência na Casa. “(A supressão) muda completamente o conteúdo. É absolutamente legítimo que o Senado faça alterações, mas a Constituição é clara. Nesse caso, o texto deve voltar (à Câmara)”, disse.

Na noite da terça-feira passada, no entanto, o senador Tasso Jereissati informou que nova análise das alterações feitas por ele indicava que as supressões não implicariam a volta da PEC para reanálise dos deputados. “A conclusão a que se está chegando é que a mudança pode ficar no texto porque se trata de uma emenda de redação, mas evidentemente precisa haver uma confirmação disso (pelos técnicos do Senado)”, disse o relator ao jornal Valor.

A outra modificação proposta pelo senador Jereissati em seu relatório, também objeto de estudo dos técnicos do Senado, diz respeito à possibilidade de trabalhadores informais contribuírem para a Previdência com alíquotas favorecidas. Em seu texto, o relator substitui a expressão “a lei poderá” por “a lei instituirá um sistema especial de inclusão previdenciária”, adicionando “aos que se encontram em situação de informalidade” como forma de enquadrar os trabalhadores informais como trabalhadores de baixa renda.

Independentemente da conclusão da análise dos técnicos legislativos, tem havido uma profícua comunicação entre o senador Tasso Jereissati, a presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Simone Tebet (MDB-MS), e os presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), no sentido de evitar qualquer atraso no cronograma de tramitação da reforma. Caso as emendas feitas no relatório do senador Jereissati forem consideradas mudanças substanciais ao texto aprovado pelos deputados, elas serão incorporadas à chamada “PEC paralela”, proposta em apartado feita no Senado para incluir os Estados e municípios no âmbito da reforma previdenciária justamente para não comprometer o prazo de promulgação do texto oriundo da Câmara dos Deputados.

A reforma da Previdência é um dos pilares da retomada do crescimento econômico e da geração de empregos no País. Todo esforço para aprová-la o mais rápido possível é mais do que bem-vindo.

Setembro Amarelo e a necessidade de acompanhamento psicológico na Primeira Infância

Em artigo sobre a campanha Setembro Amarelo, o deputado estadual Queiroz Filho (PDT), presidente da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, destaca a importância de acompanhamento psicológico na rede pública de ensino.

Durante esse mês estamos vivenciando a campanha Setembro Amarelo, focada na prevenção do suicídio, dando mais visibilidade à causa. No Ceará, os números ainda são alarmantes, sendo o estado com maior número de registros de suicídio no Norte e Nordeste e o quinto no Brasil. Fortaleza ocupa o 3º lugar no ranking nacional com a maior taxa.

Trata-se de um fato que muitas vezes acontece com pessoas do nosso convívio e, principalmente, na família. Porém, nem sempre enxergamos as razões pelas quais tais pessoas praticam tal ato. Muitas vezes é necessário um acompanhamento especializado, um olhar clínico diante de situações tão complexas.

Por isso, um dos assuntos que temos discutido na Comissão de Educação da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, a qual tenho a honra de presidir, é a possibilidade de atuação de psicólogos nas escolas da rede pública de ensino, tal qual existe nos colégios particulares.

Vários problemas psicológicos são identificados ainda na Primeira Infância, período decisivo para o desenvolvimento da criança, entre zero e seis anos, a partir da vivência na escola. Inclusive o autismo, em que muitos pais demoram para obter o diagnóstico.

O ideal era que tivesse um psicólogo por escola, seja do município ou do Estado. Mas temos que lidar com a realidade e solicitamos estudos sobre a possibilidade de criação de um Núcleo de Acompanhamento Psicológico.

O deputado Acrísio Sena (PT), vice-presidente da Comissão de Educação, solicitou a realização de uma audiência pública para debater com mais afinco esse projeto. Temos que expôr essa necessidade real para que possamos formatar uma lei, algo possível de aplicação. E não apenas uma ideia que irá prosperar.

Não podemos simplesmente fechar os olhos. Vivemos num mundo em que nossas crianças estão suscetíveis a desafios imprudentes, de automutilação e asfixia, pela internet. É preciso estimular as empresas de tecnologia a desenvolver mais aplicativos de controle parental, coisas que hoje apenas as famílias mais abastadas dispões de condições.

Temos instituições que abraçam a causa da preservação da vida, como o Instituto DimiCuida, que realiza um trabalho brilhante. E são ações práticas como essa que nos faz acreditar que é possível fazer a diferença.

A ideia de estampar o amarelo por diversos lugares e propagar mensagens positivas durante o mês de setembro é bonita e bastante válida. Mas não podemos nos focar apenas numa promoção pontual, quando a gravidade é constante.

Queiroz Filho é deputado estadual

Leitor do Blog pede raça aos times cearenses no Brasileirão

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Em comentário enviado ao Blog, o leitor José Walthair diz que as torcidas do Vozão e do Leão comparecem aos jogos do Brasileirão, mas os dois times não têm correspondido como deveriam. Confira:

Passada mais uma rodada do Brasileirão para os times cearenses e, analisando com frieza as ultimas sete rodadas, o Ceará disputou 21 pontos e conquistou sete, enquanto o Fortaleza conquistou oito.

A média dos dois gira em torno dos 35%. Muito pouco para dois times de torcidas tão apaixonadas e presentes, pagantes nos estádios, ficando a deixar na poeira das arrecadações times tradicionais do eixo Rio, São Paulo, Minas Gerais e por aí vai.

Momentos de glória para a recuperação do Leão frente ao Santos, Ceará junto ao Corinthians. Piadas à parte, há torcedor do Ceará que, de ontem pra hoje, deve estar em alguma UPA a recuperar-se.

Mas a realidade é outra, os números não mentem. Só resta uma coisa para as duas torcidas: cobrar garra aos jogadores para eles honrarem as diretorias que fazem de tudo para manter seus salários em dia, que não é fácil. As duas torcidas vão aos estádios, muitas vezes sacrificando a renda familiar.

Bom domingo a todos e uma boa semana. E… ô golaço do Ceará, diante do goleiro Cássio, que tem mais de quatro metros de envergadura. E… ô saída de bola errada do Fortaleza, que desenterra um defunto chamado Fluminense.

Walthair Costa Filho,

Engenheiro civil e leitor do Blog

A castração da Educação, a Ciência e Tecnologia e o desenvolvimento econômico do Brasil

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Em artigo sobre o que considera como política anti-intelectualista do atual governo, o professor Ivan Oliveira aponta que 84 mil pesquisadores espalhados pelo Brasil podem ser afetados com corte de bolsas. Confira:

Não precisa ser economista, tampouco um cientista político, para saber que o Brasil (e o mundo) vem atravessando uma crise econômica, política e social nos últimos anos que tem levado o país ao crescimento do desemprego, ao aumento da inflação, à perda de credibilidade do Estado e de suas formas de representação, à desesperança do povo por dias melhores e ao namoro dos oportunistas e de parte da população com o obscurantismo perigoso do anti-intelectualismo.

O discurso de negação às bases factuais das ciências pelos ditos intelectuais desta nova onda, capitaneada pelo Olavismo, tem arrebatado grande parte da sociedade a questionar teorias científicas (e.g. o uso das vacinas e da absurda aplicação da Teoria da Terra Plana) e a ignorar as condições sociais do nosso povo a partir de uma perspectiva hedonista que exacerba o individualismo e a intolerância social.

Esta perspectiva anti-intelectualista, por parte dos atuais governantes, materializa-se com os seguidos ataques à Educação e à Ciência & Tecnologia (C&T) desde o contingenciamento dos orçamentos (lê-se: corte na prática) de todas as instituições federais, tanto as universidades quanto os Institutos Federais (IFs), bem como outras ligadas a eles, como hospitais universitários; aos cortes dos orçamentos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Só para ter noção da ordem de grandeza destes congelamentos e supervenientes cortes, o impacto orçamentário do primeiro contingenciamento em maio chegou a R$ 33.470.512,00 dos recursos de custeio (ações 20RL e 4572) e R$ 600.276,00 de recursos de capital (ação 20RL) no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE); impactando no próprio funcionamento da instituição e na capacitação de servidores, conforme noticiou a própria Reitoria em nota.

O encurtamento dos orçamentos das supracitadas agências federais de financiamento de pesquisadores já levou o CNPq a suspender o processo de seleção de bolsistas no Brasil e no exterior, por falta de recursos; e a CAPES, a cancelar a concessão de 5.613 bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, previstas para os quatro meses restantes do ano.

Caso o governo não consiga repassar o déficit de R$ 330 milhões para o orçamento do CNPq, a pesquisa científica será duramente golpeada com a suspensão do pagamento de bolsas a mais de 84 mil pesquisadores espalhados pelo Brasil; dos alunos do ensino médio beneficiados pelas olimpíadas de matemáticas, passando pelos licenciandos dos Programas de Residência Pedagógica (PRP) e Programa Instrucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), aos pesquisadores com bolsa de produtividade.

Será um verdadeiro processo de castração da Ciência e Tecnologia no país e de atrofiamento do sonhado desenvolvimento econômico do Brasil, pois o investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) é um dos caminhos mais fecundos de produzir resultados em momentos de crises econômicas.

Sem investimentos em C&T, incapacita-se o país de se reproduzir para suas bases econômicas, políticas e sociais.

Segundo um relatório da organização não governamental Battelle Memorial Institute (2012 Global R&D Funding Forecast), os investimentos mundiais em P&D continuaram crescendo mesmo diante da crise econômica mundial como uma das alternativas mais eficientes para a retomada do crescimento das expectativas de retorno dos investimentos.

O Brasil vai exatamente à contramão das maiores potencias econômicas mundiais, tais como: Estados Unidos, Japão, Alemanha, França e Reino Unido que representam 78% dos investimentos mundiais em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e usam a C&T para sobressair aos tempos difíceis impostos pelas crises econômicas.

Com o pretexto da falta de recursos e de uma incomparável analogia com a gestão orçamentária de um domicílio, usa-se da narrativa da necessidade de cortar o orçamento de todas as áreas, inclusive da educação e da C&T; além do fato de negar a assertiva do parágrafo anterior devido o Brasil ser um país emergente.

É uma lógica totalmente equivocada, pois, mesmo os países europeus em dificuldade econômica, como Portugal, Itália e Irlanda, continuam a investindo em P&D; bem como se vê um significativo crescimento de investimento nestas áreas pelos países asiáticos, tais como: Malásia, Indonésia e Arábia Saudita.

Não é por acaso que o Produto Interno Bruto (PIB) da Indonésia ficou no topo do ranking da lista dos 40 países com maior crescimento econômico neste último trimestre, elaborado pela agência de classificação de risco Austin Rating, inclusive batendo o crescimento dos Estados Unidos neste período de avaliação.

Já em solo brasileiro, as expectativas para o próximo ano são desesperadoras diante dos significativos cortes presentes na proposta de Lei Orçamentária (LOA) de 2020, segundo o Projeto de Lei (PL) nº 22/2019-CN, enviado pelo Poder Executivo no último dia 30 de agosto de 2019, que estima a receita e fixa a despesa da União para o exercício financeiro de 2020.

Com a castração da educação, da C&T e da P&D, a crise econômica, social e política ganhará uma amplitude nunca vista na história do Brasil e sentiremos as terríveis conseqüências com a inflação descontrolada, recessão, demissões em massa, atrofiamento do setor produtivo, fechamento de empresas, dentre outros efeitos econômicos; bem como a explosão da miséria, da violência, da desigualdade e da desesperança do povo por dias melhores.

Diante deste cenário tenebroso, o compromisso dos servidores da educação, dos pesquisadores e das próprias universidades e institutos federais se fortalece como um dos instrumentos fundamentais de resistência a estes tempos de obscurantismo, de anti-intelectualismo e de remoção de direitos, garantias e liberdades por mero desejo lunático de uma casta privilegiada.

Aos brasileiros e às brasileiras, precisamos de um Estado forte e pujante sem ódio à inteligência, ao conhecimento, à ciência, ao esclarecimento e ao discernimento; bem como a mitigação da “ignorância populista” usada pelos oportunistas (alguns autodenominados salvadores da pátria) para exercer um poder ilimitado sobre a população.

Às vossas Excelências, Presidente da República e Ministros de Estados, um país em crise investe em Educação, Ciência e Tecnologia (C&T), e Pesquisa e Desenvolvimento (P&D)!

Ivan Oliveira

Professor Doutor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE)

Quando a injustiça fortalece o homem

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Em artigo sobre interesses políticos acima dos interesses da população, o deputado federal José Airton Cirilo aponta caso em que teria sido vítima. Confira:

Quando se entra na vida pública para a prática da boa política, todas as ações são voltadas para a melhoria da qualidade de vida da população, diante da elaboração de bons projetos e do combate às injustiças sociais.

Como primeiro prefeito de Icapuí, no Litoral Leste do Ceará, nos meados dos anos 1980, implantamos o inovador projeto de orçamento participativo, até então desconhecido no Ceará, assim como também inédito em todo o Nordeste. Ainda hoje um desafio a milhares de municípios brasileiros.

O compromisso ético e político de nossa gestão permitiu que a população acompanhasse a aplicação dos recursos da prefeitura, um marco na história de Icapuí. A gestão participativa também rompeu com a prática do clientelismo, quando o município era então distrito de Aracati.

O reconhecimento das boas práticas em Icapuí chegou ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), quando colocamos todas as crianças na escola.

Avançamos no compromisso da melhoria da qualidade de vida da população em mandatos de vereador de Fortaleza, deputado federal – o qual exerço atualmente – e também quando concorri por duas vezes ao Governo do Ceará. Na última disputa pelo Estado, em 2002, com 49.96% dos votos válidos, no segundo turno.

Apesar de uma vida pública voltada ao combate às injustiças, quando inclusive busquei uma formação em Direito, mesmo já com formação em Engenharia Civil, fui surpreendido com uma das maiores injustiças que o homem pode sofrer: contra a sua honra e sua formação cristã.

Tive injustamente o nome envolvido em uma situação de aquisição de equipamentos hospitalares, que ficou conhecida como máfia das ambulâncias ou operação sanguessuga.

Mesmo absolvido pela 5ª Região do Tribunal Regional Federal (TRF-5), em Recife, e mais recente pelo Superior Tribunal Federal (STJ), em Brasília, adversários políticos insistem em propagar mentiras e alienar pessoas menos politizadas.

O que esses maus políticos e essas falsas lideranças desconhecem é que, nesses anos de acusações absurdas e injustiças contra a minha trajetória política, aprendi a me fortalecer, diante do exemplo da humildade de Jesus.

Transformei as calúnias, as mentiras e a maldade em compreensão, aquilo que a população menos favorecida sofre diariamente, diante da ausência de políticas públicas, do descaso com a juventude, da falta de segurança, da incerteza de uma vida digna e justa.

Hoje sou um homem mais forte e um político ainda mais determinado na busca da melhoria da qualidade de vida da população.

José Airton Cirilo é engenheiro civil, advogado e deputado federal

O céu é o limite

Em artigo sobre o programa Juventude sem Fronteiras, da Prefeitura de Fortaleza, o administrador de empresas e graduando em Direito, Paulo Pinho, aponta o ganho de experiência para a vida privada e para o futuro profissional desses jovens. Confira:

“Tudo o que um sonho precisa para ser realizado é alguém que acredite que ele possa ser realizado” – paulista Roberto Shinyashiki, médico e escritor

A Prefeitura de Fortaleza desenvolve, há três anos, um programa que simboliza um marco na história da valorização e do conhecimento dos jovens estudantes da rede pública municipal. É o Juventude sem Fronteiras, que desta feita realiza o sonho de 100 garotos e garotas de conhecerem a Europa, a estudarem e ganharem experiência para a vida privada e para o futuro profissional.

Durante oito semanas os estudantes ficaram na Inglaterra e na Espanha (50 em cada país) com despesas pagas (emissão de visto e de passaporte, passagens aéreas, hospedagem, alimentação e seguro médico e de viagem), ajuda de custo e atividades culturais programadas. Uma das exigências é que eles sejam participantes do Programa Academia Enem e terem obtido a frequência mínima de 65% nas aulas.

Ressalte-se que o Academia Enem é um curso gratuito, que já beneficiou 70 mil estudantes, ofertado por intermédio da Coordenadoria de Juventude da Prefeitura Municipal de Fortaleza. Este Programa é voltado para a orientação e preparação de jovens estudantes, em especial os da rede pública de ensino, para o ingresso na educação superior por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e vestibulares de um modo geral.

Como o que é bom sempre deve ser copiado, o deputado estadual Queiroz Filho apresentou projeto de indicação para tornar o “Juventude sem Fronteiras” um programa estadual, com o patrocínio do Governo do Ceará. A partir daí da proposta de Queiroz, o Executivo poderá mandar projeto de lei para a Assembleia Legislativa criando-o a nível estadual. Entendimentos neste sentido já foram iniciados entre o governador Camilo Santana e o prefeito Roberto Cláudio sob a intermediação de Queiroz Filho.

Assim, ganha, Fortaleza, o Estado e, principalmente, a juventude.

Aos estudantes, uma dica: sigam adiante, vivam, sonhem, lutem, arrisquem, aprendam e adquiram mais conhecimento… tudo faz parte das grandes oportunidades da vida!

Paulo Pinho é administrador de empresas e graduando em Direito

O Abuso do Abuso

Em artigo sobre a lei do abuso de autoridade, o juiz federal Nagibe de Melo aponta que a lei subverte a lógica da separação dos poderes e da independência do Poder Judiciário e do Ministério Público. Confira:

A lei de abuso de autoridade, recentemente aprovada pela Câmara dos Deputados e submetida à apreciação do Presidente da República, é o que se pode chamar de abuso do abuso. A lei subverte a lógica da separação dos poderes e da independência do Poder Judiciário e do Ministério Público sob o qual se assentam todas as democracias do mundo ocidental desenvolvido.

As democracias desenvolvidas vivem sob o império do Direito. Isso significa dizer que o Estado atuará, até com o uso da força, para que todos cumpram as leis aprovadas pelos representantes do povo. Nos casos mais graves, as pessoas podem ser condenadas à prisão pela prática de crimes.

Para que um sistema assim funcione de modo adequado é necessário que os juízes se sintam seguros para julgar, que os promotores se sintam seguros para acusar e que os policiais se sintam seguros para investigar. Os abusos devem ser controlados e, eventualmente, punidos. A legislação brasileira já tem instrumentos para isso. Os recursos servem para corrigir eventuais erros e esses agentes podem ser punidos com prisão quando estiverem atuando dolosamente contra a lei.

A lei aprovada, no entanto, permite que juízes, promotores e policiais sejam punidos simplesmente por cumprirem suas funções sempre que a interpretação que derem à Lei for diferente da interpretação da instância superior. A independência dos juízes está fundada na liberdade de interpretação, é assim que o Direito evolui e se faz vivo. Pois a lei suprime a independência.

O mais irônico é a aprovação de uma lei de abuso de autoridade em um país que não se caracteriza propriamente pelo abuso de juízes, promotores e policiais no exercício de suas funções. É muito mais espantoso entre nós o andar fagueiro dos criminosos de colarinho branco, a corrupção desenfreada, o desvio sem fim de recursos públicos, os processos que nunca acabam.

Com a aprovação da lei de abuso de autoridade, o Brasil se afundará no buraco dos países sem lei. São países onde os agentes do Estado podem ser punidos simplesmente por incomodarem a paz dos criminosos. O abuso do abuso.

Nagibe de Melo Jorge Neto

Juiz Federal. Professor da UniChristus. Autor do livro Abrindo a Caixa-Preta: por que a Justiça não funciona no Brasil?

Meu pai já sabia…

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Em comentário sobre a não classificação do Ferroviário para a próxima fase da Série C do Campeonato Brasileiro, o jornalista Nicolau Araújo ressalta a trajetória de um então torcedor coral de 94 anos. Confira:

Sou filho do seu Araújo… o Araújo do Mercado São Sebastião, que ficou conhecido pela mercearia com o melhor queijo Tauá e também pela condição de torcedor do Ferroviário.

Foi uma vida toda dedicada ao mercado, de domingo a domingo. Nunca adoecera. Pontualmente, às 5h30min abria a mercearia, por quase meio século, metade dos anos na companhia do fiel funcionário Machado. Para mim, não um irmão de sangue, mas irmão de suor. Um fanático torcedor do Fortaleza. Só faltava ao trabalho por doença de tristeza, quando o Leão perdia um campeonato ou era goleado em campo.

Em seus últimos dois dias de mercado, seu Araújo foi ao trabalho cego. Isso, completamente cego. Subornou um funcionário – Machado há anos já estava aposentado – para que o pegasse e o deixasse em casa, sem revelar a cegueira. Orgulhoso, nunca falava onde doía. Ainda não fala.

Descoberto pelos próprios fregueses e pela família, foi obrigado a deixar o mercado. Ainda tentou negociar, já fora bom nisso.

Alguns filhos dos antigos permissionários acreditam que seu Araújo já falecera, mas a incrível lucidez, aos 94 anos, aponta que ainda lhe restam anos.

Nenhum telejornal, nenhum programa no rádio passa sem a atenção de seu Araújo. Quando ainda enxergava, era fã de programas policiais. Hoje não mais assiste. Sem a movimentação das imagens, só lhe restaria a tragédia crua.

Em uma das últimas visitas à sua casa, perguntei sobre o governo Bolsonaro. “Já vi de tudo neste país. Vi a tensão da Segunda Guerra, o suicídio do Getúlio, amigos que sumiram na Ditadura Militar, várias políticas econômicas e a redemocratização que você passou a acompanhar desde então. O Bolsonaro não é diferente de alguns presidentes que já vi… nos resta torcer e rezar”, avaliou.

Interrompi: “Pai, e o Ferr”? Ele nem deixou eu concluir a pergunta: “Não sei mais do Ferrim”… Com 94 anos de idade, só não vivi a alegria do futebol. Hoje acompanho e torço pelo Ceará… esse tal de VAR chegou para nos roubar”.

Pôxa, e eu sou Leão. Poderia, pelo menos, passar a torcer pelo Fortaleza. Acho que as tristezas do Machado também lhe entristeciam…

Nicolau Araújo

Jornalista

“Crise ambiental” é tentativa de “recolonizar” o Brasil, diz ministro

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Em comentário nas redes sociais sobre a situação da Amazônia, o ministro das Relações Exteriores e diplomata Ernesto Henrique Fraga Araújo avalia que “crise ambiental” é fabricada em uma tentativa de desestabilizar o governo Bolsonaro. Confira:

Por que o Brasil está sendo alvo de uma campanha internacional tão feroz e injusta no tema ambiental? Simples. Porque o governo do presidente Bolsonaro está reerguendo o Brasil. A “crise ambiental” parece ser a última arma que resta no arsenal de mentiras da esquerda para abafar esse fato.

Incapaz de convencer aos brasileiros do contrário, a esquerda foro-de-são-paulina recorre a seus aliados na mídia internacional e à caixa de ressonância dos ambientalistas radicais (manipulados por décadas de propaganda) para atacar o seu próprio país e questionar sua soberania.

O governo Bolsonaro está abrindo a economia, reformando radicalmente o Estado, expulsando a corrupção, combatendo o crime, libertando as energias da nação, concluindo acordos e formando novas parcerias e alianças com países-chave ao redor do mundo.

Está fazendo o Brasil atuar como país grande, colocando seu peso em favor da liberdade e dignidade humana, contra a ideologia de gênero e outros mecanismos de controle psicossocial, defendendo integração aberta e democracia na América do Sul, tirando o Foro de S. Paulo da toca.

Está introduzindo racionalidade nos debates sobre o meio ambiente e sobre o clima, protegendo o ambiente com soberania e sem histeria. Está governando o Brasil para os brasileiros, sem pedir permissão às ONGs ou aos controladores do discurso politicamente correto.

Esses avanços incomodam gente que quer o Brasil de volta ao seu curral, que tem saudade do Brasil fechado no círculo vicioso do clientelismo e estagnação, do Brasil insignificante no mundo. Sim, muitas forças nacionais e internacionais querem recolonizar o Brasil. Não conseguirão.

Ernesto Araújo

Diplomata e ministro das Relações Exteriores

O preço do emprego

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Em artigo sobre o atual quadro político-econômico do país, o jornalista Waldemir Catanho aponta que desde o afastamento da então presidente Dilma Rousseff “que a conta para o trabalhador recuperar o emprego perdido tá cada vez mais alta”. Confira:

“Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir…

Pela fumaça desgraça que a gente tem que tossir

Pelos andaimes pingentes que a gente tem de cair

Deus lhe pague…”

(Letra e Música de Chico – 1971)

Desde o golpe que afastou do poder a Presidente Dilma que a conta para o trabalhador recuperar o emprego perdido tá cada vez mais alta. Não sei se você já parou para pensar, mas para cada coisa que está sendo feita no país, a justificativa é uma só: gerar desenvolvimento e, portanto, beneficiar o povão com empregos. Daí, que se você não gosta do que vem sendo aprovado pelo Governo e pelo Congresso ultimamente, você já pode escolher um culpado: o desempregado. É em nome dele que tudo está sendo feito.

A Reforma da Previdência, por exemplo. Ela foi feita para gerar oito milhões de empregos, diz o Governo Bolsonaro. Talvez quase ninguém consiga pagar o INSS por 40 anos seguidos, sem falhar nenhum. Talvez pouquíssimos consigam sempre trabalhar de carteira assinada e nunca avulso. Talvez muitos não cheguem aos 65 ainda com saúde para trabalhar e encontrando quem queira contratar seja para o que for. Mas o que importa é que você vai ter uma oportunidade de emprego no futuro. E ficando sem aposentadoria, sem renda depois de velho, você vai poder contar com seus filhos ou seus irmãos mais novos para lhe sustentar.

Foi pensando nos desempregados que Temer fez o Congresso aprovar o congelamento dos gastos sociais pelos próximos 20 anos. É aquilo que os “especialistas”chamam de ajuste fiscal. Estão congelados os investimentos em educação, saúde, moradia, cultura, segurança pública, assistência social, tudo aquilo que você possa imaginar que é responsabilidade do governo fazer. É um ajuste que retalha a nossa carne, mas a gente não progride sem sacrifícios.

A saúde pública deve piorar. As universidades já estão tendo cortes nos seus orçamentos. O povo vai ter mais dificuldade de arranjar moradia. E vai ter mais gente morando na lama, sem saneamento. Mas pode ser que você ou algum desempregado de quem você goste muito, consiga um emprego. E aí, mesmo tendo menos creches e remédios de graça para os pobres, vai ser melhor porque as pessoas vão estar empregadas. Essa foi a desculpa de quem defendeu e aprovou essa proposta de congelamento de gastos.

Foi também pra ajudar os desempregados que foi encomendada a reforma trabalhista. O próprio Bolsonaro já disse várias vezes que é melhor um emprego sem direito nenhum do que o sujeito desempregado. E, de fato, isso tem lógica.

Veja a situação desse pessoal que faz entrega para esses aplicativos de multinacionais como o Ifood. Alguns trabalham até de bicicleta. No sol, na chuva. 8, 10 horas por dia, entrando pela noite. Engrossando as pernas, subindo ladeira. Rodando 10, 20, 30 km por dia. Eles estão empregados. Estão ganhando alguma coisa. Não estão tendo que mendigar. É claro que tem o risco de um carro passar por cima. De uma queda. De ficar uns meses parado, sem ganhar nada. Mas enquanto tá trabalhando, tá ganhando. Por isso Bolsonaro tem razão. Se a queda vier, se bater a cabeça no meio-fio, a família ajeita e sustenta o sujeito. Os amigos podem fazer uma cesta e levar pra ele.

Meio-ambiente? Pra que? O Brasil é um dos maiores produtores agrícolas do mundo. E o agronegócio gera desenvolvimento, dá emprego. Pra incentivar e resolver o problema do desemprego no campo, a solução é essa que o governo encontrou de liberar os agrotóxicos. É mais veneno que vai pra nossa comida, pros rios, mas o emprego também vai vir.

A Amazônia também pode ajudar. Ela é muito rica. É só deixar pra lá esse papo de preservação e de cuidado com índio e entregar tudo para os americanos. Eles são bons, têm dinheiro para investir e poderão contratar até os índios que estão por lá. O que não dá é para países que acabaram com suas florestas – tipo França, Alemanha e Noruega – quererem nos impedir de acabar com as nossas. Afinal, o importante é o emprego.

E então ficamos assim: os garotos e as garotas que têm hoje na faixa de 15 anos, 16 anos; que estão se criando no grande Bom Jardim (Fortaleza), na Rocinha (Rio), em Paraisópolis (São Paulo), na Ceilândia (Brasília)… Qualquer jovem “periférico”, como se diz, pode ficar tranquilo. Pode faltar casa boa e segura. Pode faltar saúde, bom estudo e lazer. Pode faltar boa água para beber e bom ar para respirar. Pode faltar tudo, mas não vai faltar emprego. Essa é a promessa. E o futuro é de vocês. Pensem.

Waldemir Catanho – Jornalista

Sindjorce aponta “clara censura” de Bolsonaro na Ancine

Em nota à imprensa, o Sindicato dos Jornalistas do Ceará lamenta o posicionamento do presidente Jair Bolsonaro, que proibiu a Ancine de financiar filmes que envolvem temáticas LGBT e de sexualidade. Confira:

O Sindicato dos Jornalistas do Ceará (Sindjorce) repudia veementemente as decorações do presidente Jair Bolsonaro, que voltou a fazer críticas a obras audiovisuais que buscavam autorização da Ancine (Agência Nacional do Cinema) para captar recursos por meio da Lei do Audiovisual.

Em uma transmissão ao vivo, ele citou filmes que envolvem temáticas LGBT e de sexualidade e disse que a agência não vai liberar verbas para esses projetos. O ato do mandatário é uma clara censura. Uma verdadeira e grave ameaça à ordem pública e ao preceito constitucional da liberdade de expressão e pensamento. Ao mesmo tempo, é inaceitável que a legislação de fomento ao audiovisual brasileiro seja violada.

Lembramos que o ato de vasculhar, escrutinar e submeter conteúdos à prévia autorização do Estado são comuns apenas a governos autoritários, como ditaduras e autocracias. É o que Brasil está se tornando? Um estado fascista? Ao mesmo tempo, a Ancine tem desígnio público e não pessoal. Em nenhum momento a Agência poderia ser submetida às fantasias, preconceitos e limitações intelectuais do mandatário.

Ao mesmo tempo, nos solidarizamos com o associado Émerson Maranhão, um dos cineastas que teve sua obra nominalmente rejeitada pelo governante: “Um filme chama ‘Transversais’. Olha o tema: ‘Sonhos e realizações de cinco pessoas transgêneros que moram no Ceará. Conseguimos abortar essa missão”, disse Bolsonaro na live. A obra citada é uma série documental em cinco episódios, que se debruça sobre o cotidiano, as dificuldades, os sonhos e as realizações de cinco pessoas transgênero que moram no Ceará.

Conforme Émerson e seu parceiro na realização, Allan Deberton, a série pode ter sido selecionada para a banca final de definição dos projetos, quando foi encontrada por Bolsonaro.

Em face do exposto, é necessário que a sociedade brasileira e as instâncias de fiscalização do Governo tomem medidas, em caráter de urgência, para que a presidência se abstenha de atacar a liberdade de expressão e torne o Brasil o laboratório de devaneios de incautos. É preciso chamar o Estado brasileiro à sua responsabilidade. Além disso, é imprescindível que as forças democráticas do país ajam no sentido de interromper a nefasta campanha difamatória de Bolsonaro contra as populações oprimidas (negros/as, mulheres, LGBTs e povos tradicionais) e que esses constrangimentos não mais se repitam.

Sindicato dos Jornalistas do Ceará

Naturalização do horror

Em artigo sobre o governo Bolsonaro, o escritor Frei Betto avalia o que considera estratégias a uma nova ordem> Confira:

Em 1934, o embaixador José Jobim (assassinado pela ditadura, no Rio, em 1979) publicou o livro “Hitler e os comediantes” (Editora Cruzeiro do Sul). Descreve a ascensão do líder nazista recém-eleito, e a reação do povo alemão diante de seus abusos. Não se acreditava que ele haveria de implantar um regime de terror. “Ele não gosta de judeus”, diziam, “mas isso não deve ser motivo de preocupações. Os judeus são poderosos no mundo das finanças, e Hitler não é louco de fustigá-los”. E sabemos todos que deu no que deu.

Estou convencido de que Bolsonaro sabe o que quer, e tem projeto de longo prazo para o Brasil. Adota uma estratégia bem arquitetada. Enumero 10 táticas mais óbvias:

1. Despolitizar o discurso político e impregná-lo de moralismo. Jamais ele demonstra preocupação com saúde, desemprego, desigualdade social. Seu foco não é o atacado, é o varejo: vídeo com “golden shower”; filme da “Bruna, surfistinha”; kit gay (que nunca existiu); proteção da moral familiar etc. Isso toca o povão, mais sensível à moralidade que à racionalidade, aos costumes que às propostas políticas. Como disse um evangélico, “votei em Bolsonaro porque o PT iria fazer nossos filhos virarem gays”.

2. Apropriar-se do Cristianismo e convencer a opinião pública de que ele foi ungido por Deus para consertar o Brasil. Seu nome completo é Jair Messias Bolsonaro. Messias em hebraico significa ‘ungido’. E ele se acredita predestinado. Hoje, 1/3 da programação televisiva brasileira é ocupado por Igrejas Evangélicas pentecostais ou neopentecostais. Todas pró-Bolsonaro. Em troca, ele reforça os privilégios delas, como isenção de impostos e multiplicação das concessões de rádio e TV.

3. Sobrepor o seu discurso, desprovido de fundamentos científicos, aos dados consolidados das ciências, como na proibição de figurar o termo ‘gênero’ nos documentos oficiais e dar ouvidos a quem defende que a Terra é plana.

4. Afrouxar leis que possam imprimir no cidadão comum a sensação de que “agora, sou mais livre”, como dirigir sem habilitação; reduzir os radares; desobrigar o uso de cadeirinha para bebês etc.

5. Privatizar o sistema de segurança pública. Melhor do que gastar com forças policiais e ampliação de cadeias é possibilitar, a cada cidadão “de bem”, a posse e o porte de armas, e o direito de atirar em qualquer suspeito. E, sem escrúpulos, ao ser perguntado o que tinha a declarar diante do massacre de 57 presos (sob a guarda do Estado) no presídio de Altamira, respondeu: “Pergunta às vítimas”.

6. Desobstruir todas as vias que possam dificultar o aumento do lucro dos grandes grupos econômicos que o apoiam, como o agronegócio: isenção de impostos; subsídios a rodo; suspensão de multas; desativação do Ibama; diferençar “trabalho análogo à escravidão” de trabalho escravo e permitir a sua prática; sinal verde para o desmatamento e invasão de terras indígenas. Estes são considerados párias improdutivos, que ocupam despropositadamente 13% do território nacional, e impedem que sejam exploradas as riquezas ali contidas, como água, minerais preciosos e vegetais de interesse das indústrias de produtos farmacêuticos e cosméticos.

7. Aprofundar a linha divisória entre os que o apoiam e os que o criticam. Demonizar a esquerda e os ambientalistas, ameaçar com novas leis e decretos a liberdade de expressão que desgasta o governo (The Intercept Brasil), incutir a xenofobia no sentimento nacional.

8. Alinhamento acrítico e de vassalagem à direita internacional, em especial a Donald Trump, e modificar completamente os princípios de isonomia, independência e soberania que, há décadas, regem a diplomacia brasileira.

9. Naturalizar os efeitos catastróficos da desigualdade social e do desequilíbrio ambiental, de modo a se isentar de atacar as causas.

10. Enfim, deslegitimar todos os discursos que não se coadunam ao dele. Michel Foucault, em “A ordem do discurso” (2007), alerta para os sistemas de exclusão dos discursos: censura; segregação da loucura; e vontade de verdade. O discurso do poder se julga dono da verdade. Não por acaso, na campanha eleitoral, Bolsonaro adotou, como aforismo, o versículo bíblico “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8, 32). A verdade é ele, e seus filhos. Seu discurso é sempre impositivo, de quem não admite ser criticado.

Na campanha eleitoral, a empresa BS Studios, de Brasília, criou o jogo eletrônico Bolsomito 2K18. No game, o jogador, no papel de Bolsonaro, acumulava pontos à medida que assassinava militantes LGBTs, feministas e do MST. Na página no Steam, a descrição do jogo: “Derrote os males do comunismo nesse game politicamente incorreto, e seja o herói que vai livrar uma nação da miséria. Esteja preparado para enfrentar os mais diferentes tipos de inimigos que pretendem instaurar uma ditadura ideológica criminosa no país. Muita porrada e boas risadas.” Diante da reação contrária, a Justiça obrigou a empresa a retirar o jogo do ar.

Mas o governo é real. Dissemina o horror e enxerga em quem se opõe a ele o fantasma do comunismo.

Frei Betto é escritor, autor de “A mosca azul – reflexão sobre o poder” (Rocco), entre outros livros

O banco e o tráfico: do aliciamento ao descarte

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Em artigo sobre a prática abusiva dos bancos, o jornalista Nicolau Araújo expõe um problema que atinge milhões de brasileiros. Confira:

É mentira quando dizem que o usuário de drogas foi morto a mando do traficante, por não ter pago a dívida com a bocada. Também é mentira que traficante promove algum bem à comunidade.

A verdade é que o usuário somente é “descartado” quando não há mais rendimentos para explorar, quando não há mais como faturar sexualmente com o seu corpo, quando não dá mais para confiar no seu trabalho de avião e, por fim, quando não há mais como extorquir a sua família.

A morte do usuário serve ao traficante como forma de recado, não aos viciados em processo, mas de suas famílias, de onde partem os maiores ganhos do tráfico.

Não, não sou e nunca fui usuário de drogas, sequer as chamadas lícitas. Mas sou peça de um sistema semelhante, o bancário. Pior, em fase descartável, desde que decidi diminuir rendimentos por uma melhor qualidade de vida.

Após a redução salarial de quase R$ 9 mil líquidos para pouco mais de R$ 2 mil, comuniquei ao Banco do Brasil a mudança de rendimentos. A princípio, o banco não acreditou ou não quis acreditar. Mas confiscou integralmente o salário de janeiro, ao alegar que teria direito de cobrar o que lhe achava devido.

Entendi, então, que o banco dá as cartas. O cliente tem que estar em uma posição submissa, assim como o usuário de drogas perde a sua dignidade na busca por duas ou três pedras de crack das mãos do traficante.

Diante de uma renegociação absurda, foi dito ao banco que as cifras não poderiam ser honradas. Mas o negociador, após cochicho com o gerente, disse que seria a única solução para a liberação de algum dinheiro do meu próprio salário e que outra renegociação poderia ser feita, posteriormente.

Com leite de gêmeos para comprar e pensão alimentícia para pagar, a oferta me pareceu uma boa ação do trafic… do banco à minha comunidade familiar. Àquela altura, não havia percebido que entrava na fase do cliente descartável, após aliciado por vantagens (as desvantagens estão nas entrelinhas), explorado nos rendimentos e prostituído pelos juros.

A dura realidade veio no mês seguinte, diante do novo confisco integral do salário. Apesar da renegociação, o banco alegou atraso do dinheiro na conta, mesmo tendo sido avisado da impossibilidade de honrar o contrato então vigente.

Enfim, faríamos outra renegociação. Dessa vez com uma funcionária que sempre me recebeu com sorriso, durante os anos que o banco sacava mensalmente cerca de R$ 4 mil de minha conta.

Foram mais de duas horas de rererenegociação, incluindo os cochichos da simpática funcionária com o gerente, até definido que o banco ficaria com cerca de 60% do meu atual salário e liberaria o restante. Mas, pelo menos, eu ficaria sabendo que o valor seria até o fim do contrato. O dinheiro da aposentadoria, daqui a alguns anos, por certo trará algum alívio.

A queda no valor que me deveria ser cabido, após o segundo mês da rererenegociação, não me despertou o desejo de retornar à agência da Bezerra de Menezes, atualmente muito distante do trabalho e da nova moradia, pois não haveria motivo para “trapaça” do banco.

Até que ocorreu novo confisco integral do salário, junho. Na agência, o próprio gerente alegou que não havia saldo para quitar um adiantamento de parcela de 13º salário, quando o ganho ainda beirava os R$ 9 mil líquidos.

Em vão, argumentei que o adiantamento havia, sim, entrado na rererenegociação, pois foi, inclusive, cochichado entre a simpática funcionária e ele mesmo, depois que o valor foi acusado na tela do computador da agência.

Então tomei conhecimento que não havia a rererenegociação, que o banco usa o contrato firmado no começo do ano. O inviável.

Recorri ao chat do próprio Banco do Brasil. Além da limitação no número de caracteres, a resposta quase sempre nada tem a ver com o foco da reclamação.

Recorri, então, ao Atendimento ao Cliente. A garotada na ponta da linha é ótima! Educada, atenciosa, paciente, grande treinamento. Mas a resposta do SAC é pior que a do chat. Nada a ver com a reclamação.

Apelei então para o Banco Central. Dez dias úteis, emails do andamento do processo e, por fim, o Banco do Brasil responde que tem o direito de confiscar integralmente o salário com base em uma cláusula que o cliente é obrigado a assinar para não ficar refém de uma ação por não pagamento de pensão alimentícia e da necessidade da compra de leite para gêmeos, além da garantia do próprio banco de uma nova renegociação.

Mesmo tendo recebido cópia, conforme o próprio Banco Central informou que receberia, nenhum email me foi passado sobre o direito ou não do Banco do Brasil em confiscar integralmente o salário do trabalhador.

E o salário de julho já foi integralmente confiscado… Segundo o Banco do Brasil, a prática deverá ocorrer até os primeiros meses de 2020. Depois voltará a cobrar os 60%.

O sistema bancário, assim, me descartou. Igual traficante executa usuário. Esses dias, deverei pedir demissão do trabalho. Que a minha morte na formalidade não sirva de temor aos milhões de brasileiros que são diariamente explorados pelo sistema financeiro deste país (62% da população brasileira está endividada, segundo o Sindicato dos Bancários de São Paulo), mas que seja o início de um “basta” contra a prática selvagem e enganosa dos bancos.

Nicolau Araújo

Jornalista.

Sobre causas e consequências

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Leitor do Blog envia ponto de vista do empresário Fernando Horta sobre o lucro desenfreado dos bancos. Confira:

Você derrubaria um governo, submeteria toda uma população ao retorno à linha da miséria, provocaria milhões de desempregados, destruiria as florestas e os biomas do país e geraria ódio e sangue nas ruas para que seu lucro aumentasse em 100%?

Foi o que os bancos fizeram no Brasil.

O Itaú revela que lucrou sete bilhões de reais no último trimestre. Outros bancos tiveram ganhos nessa esfera.

Sete bilhões em três meses, sem produzir um parafuso.

Isto é exatamente o dobro dos “recordes” conseguidos em 2012, com os governos do PT. Naquela época, eles lucravam 14 bilhões por ano. Com o país crescendo, renda crescendo e desemprego em baixa.

Agora lucram sete bi a cada três meses. Presumivelmente algo como 28 bilhões por ano.

Eu pensei em escrever um texto denso e cheio de demonstrações dos efeitos desta notícia. Creio, contudo, que é melhor deixar você pensando.

Fernando Horta, empresário

Bolsonaro e o programa Mais Médicos: Do pipôco ao forte abraço nos cubanos

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Em artigo sobre a portaria publicada no Diário Oficial da União desta segunda-feira, 29, que permite a residência aos médicos cubanos, o oftalmologista e vereador Dr. Eron aponta contradições ideológicas no discurso do então candidato e do presidente eleito Jair Bolsonaro. Confira:

A garantia de mercado de trabalho e a sonhada valorização dos médicos brasileiros que atuam na Atenção Primária à Saúde ainda não existem efetivados pelo presidente Jair Bolsonaro, passados seis meses de governo. A implantação de uma carreira nacional desses profissionais, salários dignos e a garantia da segurança trabalhista, por meio de concurso público e carreira funcional, são fundamentais para a saúde do povo mais carente de assistência médica qualificada, nos mais de cinco mil municípios brasileiros.

Infelizmente, o atual presidente ganhou as eleições num processo extremamente midiático, quando promoveu “o bem contra o mal”, desviando o foco do problema da falta de uma política nacional de saúde pela presença dos médicos cubanos, que aqui vieram para suprir uma lacuna de médicos brasileiros que nunca aceitaram trabalhar sem as menores condições profissionais e, principalmente, de respeito para com os pacientes.

Bolsonaro, em sua campanha ao Palácio do Planalto, ao invés de ter combatido a ausência de uma política pública na Atenção Primária, não aplicada com eficiência pela então presidenta Dilma e depois por Temer, preferiu o caminho mais bombástico e mais midiático, ao prometer, caso fosse eleito, que “expulsaria os médicos cubanos do país”… Coisa que não foi necessária, pois, com a sua eleição confirmada, o governo cubano anunciou a sua saída da parceria com o Brasil no “Programa Mais Médicos”.

Bolsonaro, no entanto, já presidente empossado, afirmou que concederia a todo cubano que o solicitasse o status de asilado um título diferente do de refugiado, mas que também permitiria ao “estrangeiro” permanecer legalmente no nosso País.

E, nesta segunda-feira (29), estamos com a palavra cumprida do presidente Bolsonaro. As regras estão em portaria publicada no Diário Oficial da União, cujo texto foi assinado pelos ministros Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores ).

Continuamos sendo desvalorizados e desrespeitados, pois a “briga” do presidente Bolsonaro, que se dizia de ideologia, leia-se “direita contra esquerda”, não tem mais âncora, pois, além dos “cubanos comunistas”, outros não cubanos têm na Portaria as devidas autorizações de residências. Os cidadãos da República Dominicana, que tenham feito a “solicitação de refugiado”, terão direitos ao mesmo mercado de trabalho dos “comunistas”.

E nós, médicos brasileiros, comunistas e não comunistas, teremos que engolir a tudo ao som de Cazuza: “Ideologia! Eu quero uma pra viver”…

Dr. Eron, médico e vereador de Fortaleza