Blog do Eliomar

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Humano, acima de tudo

Em artigo sobre o caso em Milagres, o presidente da Câmara Municipal de Fortaleza e sociólogo Salmito aponta o compromisso do governador Camilo Santana para com a segurança pública do Estado. Confira:

Eu poderia começar este texto afirmando que o governador Camilo Santana não é policial, que não teria como analisar com precisão as informações que lhe foram passadas instantes antes. Informações, essas, desencontradas até então para todo o aparelho da segurança pública do Estado.

Como sociólogo e também com quase três décadas de militância política, eu poderia afirmar ainda que o governador buscou no sentimento de combate à violência instalada em todo o país, o que seria o desfecho ideal de uma operação policial.

Mas não foi uma frase fora do contexto – ou mal interpretada – que me motivou a escrever este texto. Mas, sim, meu testemunho do trabalho de Camilo em prol da segurança do cearense, desde o alto investimento em armamento e viaturas policiais até a realização de concursos nas polícias Civil e Militar e também na promoção da inteligência policial, por meio de equipamentos eletrônicos, qualificação do efetivo e no esforço político em trazer para o Estado um Centro de Inteligência.

Camilo também promove a educação de qualidade, a melhor porta da juventude contra a violência, quando o Ceará é destaque nacional na formação de seus jovens, no Ensino Médio e Profissionalizante.

Também sou testemunha da dor do governador por cada cearense que perde a vida para a violência – a maioria dos crimes relacionada ao tráfico de drogas – e também dessa mesma dor por policiais que heroicamente tombam no cumprimento do dever.

Camilo é, acima de tudo, humano, com formação voltada para a defesa das liberdades individuais e dos direitos humanos, conforme orientação de seus pais, o engenheiro e ex-preso político Eudoro Santana e a assistente social Ermengarda Santana. Daí a minha indignação e tristeza quando acompanho matérias que tentam colocá-lo alheio à dor que neste momento atinge aos cearenses.

Salmito

Sociólogo e presidente da Câmara Municipal de Fortaleza

A importância do Centro de Inteligência

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Editorial do O POVO deste domingo (9) aponta que “uma das saídas para o sério problema de insegurança pública no país é o investimento maior e melhor direcionado em inteligência, não apenas armando mais as polícias”. Confira:

O terrível e inaceitável acontecimento de Milagres, onde uma tentativa de assalto a agências bancárias resultou em confrontos e pelo menos 14 mortes, inclusive de pessoas inocentes e não envolvidas com a ação criminosa, acabou, naturalmente, tirando a visibilidade de um importante reforço que o Estado recebe para o desafio diário de combate a quadrilhas cada vez mais violentas e ousadas. A entrega do Centro de Inteligência do Nordeste representa um grande avanço na estruturação das forças que compõem nosso corpo de segurança pública e é fundamental que esta dimensão seja resgatada, a despeito de toda a situação dramática criada pelos eventos da última sexta-feira.

Seria um desrespeito, até, sugerir que os acontecimentos daquele dia fossem relativizados. No entanto, repita-se, o evento de Fortaleza, prestigiado pelo ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, é importante e precisa ter sua dimensão resguardada, inclusive na perspectiva que aponta para um futuro em que situações do tipo pareçam menos possíveis de registrar.

Há algum tempo que parece claro que uma das saídas para o sério problema de insegurança pública que o Brasil experimenta é o investimento maior e melhor direcionado em inteligência. Não será apenas armando mais as polícias, dotando-as de mais viaturas, ampliando o número de delegacias e construindo mais presídios que o cenário terrível que temos hoje poderá ser revertido.

O investimento anunciado na instalação do Centro, cerca de R$ 15 milhões em equipamentos, bancos de dados, tecnologia e treinamento de pessoal, aponta para um acerto nesse redirecionamento. Não que se tenha de deixar de adquirir armas, reforçar a frota ou de ampliar a rede de unidades policiais e prisionais, mas, é urgente que se olhe também para a importância de estabelecer uma política que se antecipe aos fatos, que também contemple a importância de colocar a tecnologia e outros meios modernos à disposição do Estado.

O que aconteceu naquelas horas dramáticas em Milagres não pode ser esquecido e precisa de um esclarecimento pleno em todos os seus detalhes. Estaremos cobrando que assim seja. Porém, olhar para frente é necessário e, dentro disso, consideramos que dispor de um equipamento novo, moderno e apto a tornar mais eficaz a ação das autoridades contra um crime a cada dia mais organizado pode, inclusive, evitar que novas tragédias do tipo venham a acontecer no futuro.

Entendendo os instrumentos da política monetária

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Em artigo sobre economia, o consultor financeiro Fabiano Mapurunga, Mestre em Administração com ênfase em Finanças, MBA em Gestão Financeira e Controladoria, explica de que maneira o Banco Central faz para alterar a quantidade de moeda em circulação em nossa economia. Confira:

Hoje vamos tentar explicar, de uma maneira mais simples, o que o Banco Central faz para alterar a quantidade de moeda em circulação em nossa economia. O conjunto de tais ações são chamadas de política monetária, e esta é composta por três instrumentos:

INSTRUMENTO 1 – A compra e venda de títulos públicos, que recebe a denominação de operações de mercado aberto (Open Market);

INSTRUMENTO 2 -A alteração dos percentuais de depósitos compulsórios;

INSTRUMENTO 3 – Alteração de taxas de juros de redesconto.

Agora vamos dar uma pequena explanação em cada instrumento desses, entendendo como o governo os altera, e quais são os impacto de suas variações sobre a oferta de moeda, sobre a taxa de juros e sobre a economia.

INSTRUMENTO 1 – OPERAÇÕES DE MERCADO ABERTO (OPEN MARKET)

Tais operações são aquelas realizadas pela autoridade monetária competente, onde são comprados e vendidos títulos públicos que são emitidos pelo governo. No caso brasileiro, o Tesouro Nacional é o responsável pela emissão dos títulos da dívida pública, e o Banco Central se encarrega de operacionalizar a compra e a venda dos mesmos. Tal operação recebe o nome de mercado aberto.

A função primordial da operação de mercado aberto, é controlar a inflação, pelo ajuste do volume de moeda em circulação. Por intermédio do aumento ou redução das vendas dos títulos públicos federais.

Mas, por que será que os governos emitem títulos de dívida?

A resposta vem de duas situações:

– Quando o governo gasta mais do que arrecada;

– Quando o governo tem a necessidade de reduzir o volume de dinheiro que circula na economia.

Nós poderíamos pensar que, se a Casa da Moeda pertence ao governo, então porque ele simplesmente não imprime mais moeda para pagar suas próprias dívidas?

O Governo não pode apenas imprimir mais moedas para cobrir seu saldo negativo, porque isso geraria inflação provocada pelo excesso de dinheiro na economia. Logo, o governo conta apenas com suas receitas tributárias e não tributárias. E se caso estas não sejam suficientes, ele se obriga a tomar empréstimos para cobrir suas dívidas. Essa tomada de capital vem da venda de títulos públicos.

Vejamos quais são os principais títulos negociados pelo Tesouro Nacional:

IPCA – Índice de Preços ao Consumidor Amplo – Calculado e divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

INSTRUMENTO 2 – POLÍTICA MONETÁRIA DE DEPÓSITOS COMPULSÓRIOS

Primeiro vamos entender o que significa depósitos compulsórios, já que se trata de um termo mais técnico e pouco comentado. Estes são uma exigência que o governo faz aos bancos que fazem o recebimento de depósitos, quer seja à vista por intermédio das contas-correntes de seus clientes, quer seja a prazo mediante às aplicações financeiras dos mesmos. Tal exigência impõe que uma parte desses depósitos recebidos pelos bancos, seja depositada em uma conta no Banco Central, onde esse dinheiro não poderá ser utilizado pelos bancos em suas linhas de empréstimos.

Percebam então que, quando o governo eleva ou abaixa os percentuais de compulsório bancário, ele modifica a quantidade de dinheiro à disposição dos bancos para suas linhas de crédito, e com isso também afeta o consumo das famílias.

INSTRUMENTO 3 – POLÍTICA MONETÁRIA DE TAXA DE REDESCONTO

A emissão da taxa de redesconto é cobrada pelo Banco Central, ao emprestar dinheiro aos bancos, quando os mesmos ficam sem condições de saldar suas dívidas nas compensações diárias. Tais compensações ocorrem quando os clientes pagam boletos, fazem compras com cheques ou cartões de débitos, e até mesmo nas transferências de dinheiro de uma conta para outra.

Estas operações de compensação realizadas à noite, resultam para alguns bancos, saldos a receber e para outros, saldos a pagar. Vejamos que os banco que ficaram com saldos a pagar, só podem recorrer a uma reserva especial, um depósito feito no Banco Central. Caso os valores a pagar sejam maiores que o valor depositado, a alternativa para este banco será tomar um empréstimo com outros bancos que tiveram saldos positivos, ou mesmo recorrer ao Banco Central, o qual lhe fará uma operação de redesconto. Esta última alternativa é sempre a mais cara. Normalmente o Banco Central cobra uma taxa de juros tão elevada, por uma noite, que pode anular um dia inteiro de operação daquele banco tomador.

Os efeitos dessa política ficam assim dispostos: Quando o Banco Central aumenta a taxa de juros de redesconto, ele acaba obrigando os bancos a aumentarem os seus depósitos voluntários para escaparem da perda de rentabilidade, caso fiquem com saldos negativos nas compensações diárias. Do contrário, quando o governo quer aumentar a quantidade de dinheiro na economia, ele reduz a taxa de redesconto, o que estimula a redução dos depósitos compulsórios e o aumento da oferta de crédito.

Fabiano Mapurunga

Consultor em Finanças e Negócios. Mestre em Administração com ênfase em Finanças. MBA em Gestão de Negócios. MBA em Gestão Financeira e Controladoria. Professor Universitário

A tentação e o abuso da liberdade

Em artigo no O POVO deste sábado (8), a Doutora em Direito e professora na UFC Juliana Diniz aponta que as autoridades estatais precisam suportar o ônus da crítica. Confira:

O Supremo Tribunal Federal tem despertado tanto interesse quanto ódio. No começo da semana, um de seus ministros se envolveu em polêmica com o passageiro de um voo doméstico. De câmera na mão, o passageiro lançou impropérios a Ricardo Lewandowski, que acionou a polícia. O caso gerou debate intenso sobre os limites da liberdade de expressão, rendendo a manifestação da Corte e de entidades de classe, que prestaram apoio ao magistrado.

É certo que autoridades estatais precisam suportar o ônus da crítica, que pode se dar legitimamente através das mais variadas formas. Apesar disso, uma reflexão sobre os seus limites pode ser oportuna em tempos de hipersensibilidade política. O uso público da palavra pressupõe um dever de cuidado sobre o conteúdo, a forma e o momento da expressão, um cuidado urgente em tempos de uso irrestrito das redes sociais. Sendo espaço indefinido, semipúblico, as redes geram um desejo narcísico de exposição que alimenta ódios e polêmicas, quase sempre impulsionado por uma falsa sensação de irresponsabilidade.

Nenhuma autoridade tem a obrigação de suportar passivamente escrachos em ambientes privados, alheios ao exercício de sua função institucional. Um caso semelhante (e paradigmático) de abuso da liberdade de expressão se deu com o ex-ministro Guido Mantega em 2015, quando teve de ouvir protestos políticos enquanto acompanhava a esposa em tratamento de câncer no hospital. De acordo com a constituição, o direito de se expressar não pode invadir a intimidade do outro, um espaço que é tão inviolável quanto a garantia de manifestar o pensamento. O exercício abusivo do direito é mais evidente quando a liberdade de expressão é invocada apenas com o propósito de ridicularizar para autopromoção de quem ofende.

Perante o Direito, ninguém é inteiramente irresponsável pelos seus atos. Dever de autocontenção em certas circunstâncias não se confunde com censura ou cerceamento de liberdade. A palavra, se utilizada com abuso, degrada. Linchamentos verbais podem ter um efeito devastador não só sobre a imagem pública de alguém, mas também sobre as suas relações íntimas, pois causam dano e dor. Os limites constitucionais se aplicam a qualquer brasileiro, por maior que seja a sua revolta, estando diante de autoridades republicanas ou não.

Juliana Diniz

Doutora em Direito e professora da UFC

As ditaduras no dia a dia

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Em artigo sobre desmandos administrativos, o jornalista Nicolau Araújo aponta as ditaduras no dia a dia do cidadão. Confira:

A quatro semanas da posse do novo presidente do Brasil, o discurso da instalação de um regime ditatorial ainda se propaga pelos quatro cantos do país. O temor da perda de direitos constitucionais e de atentados contra a cidadania contradiz os milhões de votos de Jair Bolsonaro, apresentado à maioria de seu eleitorado como a voz da anticorrupção, do combate à impunidade no Código Penal e do resgate do patriotismo.

O que poucos percebem é que o Brasil nunca deixou de viver “ditaduras”, desde a sua redemocratização. A imposição de juros absurdos no cartão de crédito ou cheque especial levou ao endividamento mais da metade da população economicamente ativa. O argumento da livre opção do consumidor pelo uso do crédito com juros abusivos aponta a conivência do governo federal, por meio de uma política salarial defasada, de uma severa carga tributária, da má aplicação dos impostos em políticas públicas e da falta de incentivos fiscais.

As condutas ditatoriais no dia a dia do brasileiro são igualmente perversas no tratamento de patrões ou chefes, que se apresentam acima do bem e do mal. Outras vezes, no absurdo, em abordagens policiais. Não raras, na conduta de motoristas que estacionam em faixas duplas e ainda em vagas para idosos ou deficientes.

Em uma experiência inusitada, vivo atualmente em um condomínio, próximo ao terminal da Messejana, em que o síndico se orgulha de sua administração ditatorial, quando classifica seu “poder absoluto” como resultado de uma estratégia de comando bem sucedida. Recusa de prestação de contas (com comprovantes) são negadas aos condôminos e multas são espalhadas sem sindicâncias ou processos, além, claro, do direito reservado ao síndico de não revelar as testemunhas de acusação, das supostas infrações cometidas pelos condôminos, quase sempre contrários à sua gestão.

Em um de seus primeiros atos, o síndico demitiu o administrador do condomínio e se nomeou para o cargo, com direito ao salário, benefícios (gasolina paga pelos condôminos e alimentação) e carteira assinada pela empresa que terceiriza os serviços. Na prática, o síndico virou funcionário da empresa que deverá, ou deveria, concorrer a futura licitação.

Enquanto isso, o Conselho Fiscal apresenta uma alta rotatividade, diante dos desmandos. O temor, segundo um ex-conselheiro, não é somente a intimidação do síndico para a aprovação das contas sem a apresentação dos comprovantes bancários, mas, sim, a perda de sua própria conduta como cidadão, que já apontava reflexos na família, no trabalho, entre os amigos.

Que o próximo presidente da República não acumule cargos no Executivo e no Legislativo, como também não queira privar o cidadão de informações. Inclusive por meio da imprensa.

Nicolau Araújo

Jornalista

Qual a diferença entre desenvolvimento econômico e crescimento econômico?

Em artigo sobre economia, o consultor financeiro Fabiano Mapurunga, Mestre em Administração com ênfase em Finanças e MBA em Gestão Financeira e Controladoria, aponta que é pouco provável que aconteça uma melhoria do Desenvolvimento Econômico, sem ocorrer o Crescimento Econômico. Confira:

Vamos hoje ampliar um pouco mais o nosso conhecimento sobre toda essa atmosfera criada pela atividade econômica mundial, entendendo a diferença entre os termos: Desenvolvimento Econômico e Crescimento Econômico. O tema do artigo de hoje, surgiu de minhas andanças acadêmicas e como consultor, onde pude presenciar muitas pessoas tomando estes termos como sinônimos, o que não é correto. Vamos então ao centro da questão.

Para a compreensão mais simples destes termos vamos antes, trazer mais alguns embasamentos a fim de se ter solidez no entendimento. Importante sabermos que um Sistema Econômico é o conglomerado de Agentes Econômicos que trocam relações nos mercados para empregar, da melhor forma possível, um X de recursos necessários para atender às necessidades dos seres humanos.

Os principais agentes econômicos são: famílias, empresas e governos.

Vejamos, de forma gráfica, como se dá o fluxo de trocas entre os agentes econômicos:

O Crescimento Econômico tem como parâmetro de base a elevação paulatina da produção, da renda e dos gastos que compõem uma economia. Assume uma característica quantitativa, e sua medida nos permite acompanhar a geração de riquezas de uma país em um determinado período de tempo, bem como se pode comparar com a de outros países. A principal medida de crescimento adotada no mundo é o PIB (Produto Interno Bruto) mas, não é incomum o uso da renda per capta (Valor da Renda Nacional dividida pelo total da população); interessante que podemos avaliar se a riqueza dos indivíduos de um país, cresce quando o PIB sofre uma elevação. Um crescimento menor do PIB e um alto crescimento da população pode acarretar em uma queda na renda per capta. Considero a renda per capta, um indicador de crescimento econômico mais eficaz do que o PIB, pois nos diz quanto, em média, cada cidadão necessariamente deveria ter recebido, se houvesse uma distribuição igualitária entre toda a população.

O Desenvolvimento Econômico é um processo que tem em sua composição, a associação do crescimento econômico de um país, ao desenvolvimento social de sua população; podemos perceber então, que não envolve apenas medidas quantitativas como o PIB e a renda per capta, mas também qualitativas como a expectativa de vida ao nascer, o nível de escolaridade da população e o grau de concentração de renda.

De uma forma geral, é muito difícil que aconteça uma melhoria do Desenvolvimento Econômico, sem ocorrer o Crescimento Econômico.

Para se haver um desenvolvimento econômico, se faz necessário que o crescimento econômico seja melhor distribuído entre a população, e que o impacto seja bem positivo na expectativa de vida e no nível de escolaridade da população. Daí se entender que as políticas econômicas, verdadeiramente eficazes, devam ser aquelas que provoquem impactos positivos sobre o crescimento da economia.

Fabiano Mapurunga

Consultor em Finanças e Negócios. Mestre em Administração com ênfase em Finanças. MBA em Gestão de Negócios. MBA em Gestão Financeira e Controladoria. Professor Universitário

Professor, profissão de risco

Em artigo no O POVO deste sábado (1º), o psiquiatra Marcelo Niel relata o aumento de casos de professores que procuram tratamento, diante da violência em salas de aula. Confira:

Há alguns anos, tem-se percebido uma maior procura por atendimento psiquiátrico por professores do ensino médio de escolas públicas. Depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático têm sido os principais diagnósticos e, não raras vezes, muitos acabam necessitando ser afastados do trabalho por longos períodos.

O nome da “doença” é violência, e de vários tipos: gestores truculentos e insensíveis, perseguições e assédio moral no ambiente de trabalho; violência psicológica e física por parte de alunos e até pais; remuneração insuficiente, cargas horárias exaustivas e inviáveis do ponto de vista da saúde. Tudo isso se soma aos problemas nas vidas pessoais desses que, muitas vezes, escolheram a profissão pelo sonho em exercer a vocação de ensinar, o que tem se tornado cada vez mais difícil nesse contexto tão árido.

Grande parte dos professores que precisa recorrer ao atendimento psiquiátrico nos hospitais ainda se vê desamparada de um atendimento de qualidade. E quando necessitam se afastar do trabalho, têm seus direitos muitas vezes negados ou, então, seus rendimentos são drasticamente reduzidos, num momento bastante crítico de suas vidas.

Mais recentemente, um novo ataque: a chamada “Escola sem partido” e o aumento da vigilância sobre o livre pensamento daqueles que teriam por função primordial desenvolver o senso crítico e a capacidade de reflexão nas mentes dos indivíduos em formação.

Diante de problemas tão complexos, o risco de adoecer mentalmente se torna uma rápida e crescente realidade. Uma vez doente é preciso buscar tratamento, e o apoio psiquiátrico com medicações se faz necessário. Além disso, o apoio psicológico é fundamental, porque é preciso a ajuda de um profissional para fortalecer-se e poder garantir a volta ao trabalho ou até tomar decisões que envolvam novos rumos profissionais.

Mas antes de adoecer, é preciso procurar apoio psicológico preventivo: psicoterapias, atividade física, atividades artísticas e de lazer podem funcionar como válvulas de escape para o estresse ocupacional e afastar as doenças para longe.

Marcelo Niel

Médico psiquiatra e doutor em Ciências pela Unifesp

Quem é a favor de indulto?

Em artigo no O POVO deste sábado (1º), a jornalista Letícia Alves sugere a discussão de políticas para evitar que as pessoas entrem no crime em vez de tirá-las da cadeia por meio de benefícios. Confira:

O debate sobre o indulto natalino ou, em outras palavras, o perdão da pena de criminosos, voltou a ser amplamente discutido nesta semana. O motivo: o Supremo Tribunal Federal retomou a análise da ação que questiona o indulto concedido por Michel Temer em 2017, que foi suspenso após a Procuradoria-Geral da República afirmar que o decreto presidencial “afrouxava” demais as regras para a concessão do benefício.

O indulto não foi invenção de Temer: ele está previsto na Constituição de 1988 e é válido para todos os criminosos condenados por crimes sem grave ameaça ou violência. Todos os anos, no período natalino, o presidente pode editar um decreto com as condições para que esse perdão seja dado: normalmente, o preso não pode ser reincidente e deve ter cumprido pelo menos um quarto da pena máxima de 12 anos.

Ano passado, porém, Temer foi benevolente demais: o seu decreto não só não exigia mais uma pena máxima como também permitia que reincidentes fossem contemplados, desde que tivessem cumprido um terço da pena. A medida incomodou profissionais da Operação Lava Jato, que afirmaram que ela poderia beneficiar condenados por corrupção.

Isso causou um rebuliço no debate público e repercutiu até mesmo na campanha eleitoral deste ano: quem não se lembra das acusações de que Fernando Haddad daria indulto a Lula se vencesse as eleições? Eu poderia explicar que o perdão a um preso específico não é indulto, mas uma graça (nome apropriado, não?), mas o que importa nessa discussão é o mérito: será razoável liberar presos de suas penas, sejam eles condenados por corrupção ou por qualquer outra coisa cuja consequência é a cadeia?

Não tenho a pretensão de falar pelo povo, mas arrisco dizer que ele não é a favor de tal medida, mesmo ela sendo constitucional. Há os que defendem que o indulto é importante para desafogar as penitenciárias. Não seria melhor discutir políticas para evitar que as pessoas entrem no crime em vez de tirar da cadeia as que já entraram?

O cidadão comum quer que bandido seja e permaneça preso. Parece que só o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) entendeu e soube capitalizar isso, ao prometer que não daria indulto no seu governo. De colarinho branco ou não, condenados por corrupção ou não, convenhamos, lugar de criminoso condenado é na prisão.

Letícia Alves

Jornalista do O POVO

O que mede o Índice de Cidadania Financeiro, lançado pelo Banco Central?

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Em artigo sobre o indicador ICF, o consultor financeiro Fabiano Mapurunga, Mestre em Administração com ênfase em Finanças e MBA em Gestão Financeira e Controladoria, aponta a necessidade de se melhorar a educação financeira de base nas escolas brasileiras, onde se mostrará a importância de se fazer um planejamento orçamentário, o uso da poupança de uma forma mais disciplinada, o uso mais responsável do crédito. Confira:

A utilização de índices, para o acompanhamento de componentes da nossa economia, é uma forma objetiva de se enxergar o comportamento desses elementos que nos circundam em nosso dia a dia.

Hoje iremos tratar do ICF (Índice de Cidadania Financeira), que foi criado pelo Banco Central do Brasil, o qual também faz o seu acompanhamento. E lançado durante o IV Fórum de Cidadania Financeira, realizado em Brasília.

O ICF tem como objetivo mensurar os avanços da educação e da inclusão financeira no Brasil. O mesmo, procura fazer uma avaliação sobre os níveis de cidadania financeira no país como um todo e nos estados, e leva em consideração os seguintes quesitos:

Quantidade de pontos de atendimento financeiro;

Dados de crédito e de endividamento;

Valores das taxas de juros cobradas em operações de crédito com recursos livres para pessoas físicas;

Percentual da população com acesso à internet.

O primeiro levantamento realizado pelo Departamento de Promoção da Cidadania Financeira do BC, demonstrou que o Brasil registrou entre 2015 e 2017 um ICF de 41,5 – a escala vai de 0 a 100.

O resumo do levantamento, constatou que os estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, apontaram índice acima da média nacional, em contra partida, as regiões Norte e Nordeste ficaram abaixo. Na sequência das melhores avaliações temos: Distrito Federal (87,2); São Paulo (74,5); Rio Grande do Sul (65,0); e Santa Catarina (64,0).

Mais do que apenas um índice, é importante salientarmos o que pode derivar da sua avaliação, como por exemplo, a necessidade de se melhorar a educação financeira de base nas escolas brasileiras, onde se mostrará a importância de se fazer um planejamento orçamentário, o uso da poupança de uma forma mais disciplinada, o uso mais responsável do crédito. Ou seja, a criação de uma consciência econômica coletiva.

Vale salientar que o ICF ainda está em construção e, por tanto, padece de melhoramentos em alguns pontos, visto que o Sistema Financeiro Nacional é dinâmico e sofre várias transformações. Logo se espera, que o ICF incorpore a sua base de cálculo, novas variáveis com o tempo. Para Luís Gustavo Mansur, chefe do Depef, esse índice pode ser entendido com um indicador agregado, com capacidade de mostrar tendências gerais e permitir comparação entre unidades geográficas.

A publicação deste, é trienal e realizada no Relatório de Cidadania Financeira (RCF), o qual substitui o Relatório de Inclusão Financeira (RIF).

Pelo RCF, o Brasil possuía no ano passado 257.570 pontos de atendimento financeiro, onde todos os municípios possuíam ao menos um ponto de atendimento físico. Porém, apesar desta

capilaridade, 66% das transações financeiras realizadas em nosso país, foram feitas por canais remotos como: internet banking e smartphones.

Segue, abaixo, uma ilustração retirada do site do Banco Central, que traz um resumo deste último relatório:

Importante sabermos nossos indicadores, para podermos entender o macro ambiente que nos cerca, de uma maneira bem mais objetiva.

Fabiano Mapurunga

Consultor em Finanças e Negócios. Mestre em Administração com ênfase em Finanças. MBA em Gestão de Negócios. MBA em Gestão Financeira e Controladoria. Professor Universitário

Contra a violência de gênero

Editorial do O POVO deste domingo (25) destaca a campanha internacional “16 Dias de Ativismo Contra a Violência de Gênero”. Confira:

Os 16 Dias de Ativismo Contra a Violência de Gênero começaram na semana passada e seguem até dezembro. A ação desenvolve-se em todo o mundo e teve início em 1991, quando mulheres de vários países, reunidas no encontro do Centro de Liderança Global de Mulheres, iniciaram uma campanha para incentivar o debate e para denunciar as várias formas de violência contra as mulheres em todo o mundo.

No Ceará, a Coordenadoria de Políticas Públicas Para as Mulheres do Estado está coordenando as atividades, com a participação de várias instituições, entre elas a Casa da Mulher Brasileira, que merece citação especial. Desde a inauguração da Casa, no fim de junho deste ano, já foram atendidas, até outubro, 5.241 mulheres que sofreram algum tipo de violência.

Talvez por falta de informação, ainda existem questionamentos quanto a datas dedicadas aos setores mais vulneráveis ou críticas a políticas específicas destinadas a elas. É preciso reconhecer que esses segmentos – negros, mulheres, LGBTs, por exemplo – sofrem dificuldades adicionais comparados ao restante da população e, por isso, precisam de proteção diferenciada.

Observem que apenas uma das instituições em Fortaleza, a Casa da Mulher Brasileira, atendeu a mais de cinco mil mulheres, vítimas de agressões domésticas, mais de mil por mês, considerando o início de suas atividades, em fins de junho. Em nível nacional, a Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência (Ligue 180) registrou 73 mil denúncias no primeiro semestre deste ano.

Além de oficinas, seminários, palestras, que serão realizadas em todas as cidades nas quais haverá atividades, haverá uma sessão solene da Câmara dos Deputados, no dia 29/11. Nessa cerimônia, em Brasília, várias personalidades, que se destacaram nas questões de gênero, receberão o diploma Mulher-Cidadã Carlota Pereira de Queirós. Marielle Franco, vereadora assassinada em março, no Rio de Janeiro, receberá o certificado in memoriam.

Que os 16 Dias de Ativismo Contra a Violência de Gênero ajudem a espalhar conhecimento sobre o assunto e contribuam para reduzir as agressões contra as mulheres brasileiras e de todo o mundo.

Incentivo para reduzir as diferenças

Editorial do O POVO deste sábado (24) ressalta política de incentivos fiscais do Governo do Ceará, diante da crise que se abate com mais força sobre os moradores de cidades interioranas. Confira:

Se o desemprego, hoje, afeta um número excessivo de brasileiros, em torno de 12 milhões de pessoas – sem contar os que deixam de procurar vagas por desalento -, a situação em pequenas cidades do interior tende a ser pior, principalmente nos municípios menos desenvolvidos. Normalmente desprovidos de indústrias e, como consequência, de um setor de serviços importante, a crise se abate com mais força sobre os moradores de cidades interioranas.

Com o objetivo de atenuar o problema, o governo do Ceará vai lançar uma nova política de incentivos fiscais para as cidades mais carentes do interior, conforme divulgou reportagem publicada na edição da quinta-feira, 22/11/2018. O critério para receber o benefício será o Índice de Desenvolvimento Municipal (IDM), do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), que mensura anualmente a situação agrícola, social, econômico e de infraestrutura de cada município, estabelecendo índices de 1 (mais desenvolvidas) a 4.

Entrarão no programa os municípios com IDM-4, que engloba 126 cidades, das 184 do Ceará, nas quais se concentram 29% da população do Estado. As empresas que se instalarem nessas localidades poderão ter redução até 75% no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS).

Segundo dados de 2016 (a última pesquisa divulgada), apenas a Capital e uma cidade do interior, Eusébio, encontram-se na classe 1 do IDM. Entre os municípios com índices mais baixos estão Saboeiro, Aiuaba, Ererê, Potengi e Catarina.

Para fomentar os negócios no interior, o secretário do Desenvolvimento Econômico do Estado, César Ribeiro, disse que o governo mapeará as oportunidades de cada região, de modo a que os prefeitos fiquem alinhados com a política, fazendo as adaptações necessárias para que as cidades fiquem mais atrativas.

Diferentemente da renúncia fiscal, na qual o governo abre mão de receber impostos por um determinado período de empresas já instaladas – o que, já se provou, tem pouca eficácia -, o incentivo, para situações específicas, é um bom modo de estimular o desenvolvimento. Sem esse impulso dificilmente cidades pouco desenvolvidas conseguiriam atrair empresas e negócios. Assim, o incentivo fiscal pode ajudar a promover o desenvolvimento econômico e social dos territórios mais carentes.

Se reduzir as diferenças econômicas e sociais entre as regiões do País é uma política defendida pelos chefes do Executivo nordestinos, nada mais justo que cada governador faça a lição de casa, diminuindo os desníveis dentro de seu próprio Estado.

A consciência negra e as cores da desigualdade

Em artigo enviado ao Blog, a repórter do telejornal Canção Nova Notícias, Idalina Miranda dos Santos, aponta discriminação e injustiça contra os negros no Brasil, quase um século e meio após a libertação dos escravos. Confira:

O Dia da Consciência Negra faz referência ao dia da morte de Zumbi, líder do Quilombo de Palmares, que lutou para preservar a cultura dos africanos que conseguiam fugir dos seus senhores. Mas essa é uma guerra travada, na qual ainda temos vários embates.

A batalha contra o racismo vai além de “mimimis”, assim taxados e expostos nas redes sociais, por aqueles que acreditam que seja mero vitimismo. Trata-se de um racismo estrutural e velado, sutil, que passa de forma sorrateira, mas não para quem sofre todos os dias.

“Eu preciso ser melhor o tempo todo, e provar diariamente, a cada minuto que eu sou capaz”. “Não é justo que me julguem por eu ser quem eu sou, sem nem me conhecer”. “Me senti rejeitado e excluído, é muito difícil”. Essas são frases de jovens negros que em algum momento da vida sentiram na pele o peso de ter uma maior concentração de melanina.

A escravidão durou três séculos, anos de muita injustiça e, atualmente, ainda é possível sentir seus reflexos. Segundo um levantamento feito em 2017, pelo Programa do Fundo de População da ONU, todos os anos são assassinadas, no Brasil, 30 mil pessoas e, desse total, 23 mil são jovens negros.

A população negra é a mais violentada e sofrida, os números apontam e não nos deixam mentir. As cores da desigualdade sangram, assim como sangravam os ancestrais no passado, quando eram castigados por meio de chicotadas, vira-mundo e a gargalheira, objetos usados para castigar os escravos “rebeldes”.

O escritor e antropólogo Darcy Ribeiro disse que o “Brasil, último país a acabar com a escravidão, tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso”.

Diante das aflições, é necessário se “prender” e agradecer ao legado deixado pelos negros africanos, que nos deixaram palavras para nosso vocabulário, pratos para nossa culinária, festas populares e instrumentos musicais. Não podemos pensar a nossa cultura sem entender a herança africana.

No dicionário, a palavra consciência significa “sentimento ou conhecimento que permite ao ser humano vivenciar, experimentar ou compreender aspectos ou a totalidade de seu mundo interior”. O meu desejo é que a cada dia aumente nossa empatia e consigamos nos colocar no lugar do outro, independente da cor. Eu quero que sejamos capazes de entender e sentir do outro a sua dor.

Idalina Miranda dos Santos é repórter do telejornal Canção Nova Notícias, que vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 18h45, pela TV Canção Nova

Analfabetismo funcional preocupa

Editorial do O POVO desta terça-feira (20) avalia o impacto no país de indivíduos que reconhecem letras e números, mas são incapazes de compreender textos simples ou realizar operações matemáticas mais elaboradas. Confira:

Acaba de ser publicado o Indicador do Alfabetismo Funcional (Inaf) no Brasil – 2018, segundo o qual, 38 milhões de brasileiros, isto é, 29% da população são analfabetos funcionais, ou seja, indivíduos que, embora saibam reconhecer letras e números, são incapazes de compreender textos simples, bem como realizar operações matemáticas mais elaboradas. Essa constatação é preocupante, sobretudo quando o mundo está regido pela revolução da informação e, mais ainda, quando está inundado pelo fenômeno das fake news (informações falsas), exigindo um grau mínimo de consciência crítica nos indivíduos para saberem interpretar o mundo em derredor e cascavilhar a verdade que nele possa estar embutida como uma pepita de ouro.

Não compreender a escrita em sua essência e não discernir seu real significado prejudica o indivíduo de várias maneiras: seja do ponto de vista do trabalho, seja das decisões relativas à comunicação com os demais membros da sociedade, seja para decidir o futuro. Em tempos onde a informação é uma das ferramentas mais poderosas para garantia de direitos, a falta de conhecimento continua a negar o acesso a eles, principalmente, entre os mais velhos. Basta ver que três em cada dez jovens e adultos de 15 a 64 anos no Brasil são considerados analfabetos funcionais. Essa deficiência se torna ainda mais prenhe de consequências quanto mais alto o posto desfrutado. E isso ocorre em 12% de jovens entre 15 e 24 anos e em 53% dentre pessoas entre 50 e 64 anos. É claro que há os casos ainda piores dos 8% de analfabetos absolutos.

Quando se foca no Ceará, a taxa de analfabetismo funcional em 2017 alcançou o patamar de 20,5%, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), divulgada pelo Instituto Nacional de Geografia e Estatística (IBGE). Já os analfabetos absolutos somaram 87% dos que estão na faixa etária de 40 anos, dos quais quase metade (46%) tem mais de 60 anos.

Está cada vez mais claro que a um país não basta ter uma população que apenas tenha a noção das letras e dos números, mas não saiba aplicá-los nas suas várias dimensões sociais. No Brasil, conforme pesquisa feita pelo Instituto Pró-Livro, 50% dos entrevistados declararam não ler livros por não conseguirem compreender seu conteúdo, embora sejam tecnicamente alfabetizados. Isso é mais grave nestes tempos de internet, por se tornarem mais vulneráveis a manipulações das fake news. Por isso, métodos de alfabetização e letramento que desenvolvem a consciência crítica merecem ser apoiados, recuperados e reforçados, e não abafados em nome de uma suposta “neutralidade”.

Clamor por justiça

Em artigo no O POVO deste domingo (18), o professor universitário Manfredo Araújo de Oliveira aponta a “urgência em atacar as ‘causas estruturais’ da pobreza, diante da renúncia à autonomia absoluta dos mercados”. Confira:

O papa Francisco tem conclamado a humanidade a escutar o clamor por justiça no mundo atual, uma exigência que concerne à todos, independentemente se têm alguma fé religiosa ou não. Isto implica entrar num autêntico diálogo que procure sanar as raízes profundas e não a aparência dos males. Esta tarefa tem dois momentos complementares: a cooperação para resolver as causas estruturais da pobreza para promover o desenvolvimento integral dos pobres e os gestos mais simples e diários de solidariedade frente às misérias muito concretas. Solidariedade, aqui, significa a gestação de uma nova mentalidade: pôr em primeiro plano a comunidade, a vida de todos frente à apropriação de bens por alguns, reconhecer a função social da propriedade e o destino universal dos bens como realidades anteriores à propriedade privada: “O destino universal dos bens não é um adorno retórico da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada. A propriedade, sobretudo quando afeta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades das pessoas”. Daí a primeira tarefa: “… pôr a economia a serviço dos povos”.

A solidariedade significa, assim, a decisão de devolver ao pobre o que lhe pertence, o que implica mudanças estruturais, novas convicções e atitudes.

Não se trata apenas de garantir comida ou sustento decoroso, mas prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos, o que engloba educação, cuidados da saúde e do trabalho, etc. A solidariedade é muito mais do que alguns gestos esporádicos de generosidade. É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por alguns. Por isto, é luta contra as causas estruturais da pobreza, desigualdade, falta de trabalho, terra, casa, negação dos direitos sociais.

A urgência em atacar as “causas estruturais” da pobreza acontece pela renúncia à “autonomia absoluta dos mercados” e à especulação financeira, enfrentando as causas estruturais da desigualdade porque ela constitui a raiz dos males sociais. Isto articula um horizonte ético que norteia toda a política econômica. A dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são os valores éticos básicos e, por isto, não devem ser reduzidos a apêndices acrescentados de fora para ampliar discursos políticos sem perspectivas, nem programas de um desenvolvimento integral. Para o papa, esta mudança de estruturas tem que ser “uma mudança que toque também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais”.

Isto tudo implica que não se pode confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado. Um crescimento equitativo não se identifica simplesmente com crescimento econômico, embora o pressuponha. Ele exige decisões, programas, mecanismos e processos que estejam efetivamente orientados para uma melhor distribuição de renda, para criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção dos pobres que supere o mero assistencialismo. Assim, a mudança exigida é aquela “que seja capaz de mudar o primado do dinheiro e pôr novamente no centro o ser humano, o homem e a mulher”.

Manfredo Araújo de Oliveira

Professor de Filosofia da UFC

Fortaleza Cidade Sustentável. Um projeto ameaçado

Em artigo no O POVO deste sábado (17), a secretária municipal Águeda Muniz (Urbanismo e Meio Ambiente) aponta que o senador Eunício Oliveira, presidente do Congresso Nacional, devolveu ao Ministério da Fazenda, sem nenhuma justificativa técnica, o projeto Fortaleza Cidade Sustentável. Confira:

Desde 2013, a Prefeitura de Fortaleza trabalha, incansavelmente e entendendo o anseio de cidadãos e cidadãs que buscam uma cidade melhor para se viver, para implantar sua política de meio ambiente. Política que se transformou na Lei Nº 10.619/2017, aprovada na Câmara de Vereadores que representa os 2,6 milhões de fortalezenses.

Em 2014, a Prefeitura foi em busca de financiamento para o Programa Fortaleza Cidade Sustentável, conjunto de projetos da política ambiental do município, por meio de um empréstimo inédito no valor de US$ 150 milhões junto ao Banco Mundial. O Programa garante a implantação de projetos como o “Orla 100% Balneável”, a urbanização do Parque Raquel de Queiroz, o Parque da Lagoa da Viúva, mais Ecopontos na cidade, dentre outros projetos que irão impactar positivamente na vida das pessoas, em especial daquelas que mais precisam. É o primeiro empréstimo totalmente voltado às questões ambientais na cidade, ressaltando-se que o Banco Mundial vem utilizando o modelo de Fortaleza como melhor prática em estruturação de projetos em cidades onde está operando.

No entanto, o Fortaleza Cidade Sustentável está ameaçado. Para que os US$ 150 milhões sejam investidos em melhorias ambientais, precisamos da autorização do Senado Federal. Sabe-se que o projeto esteve na Casa Civil da Presidência da República por mais de 120 dias aguardando somente o encaminhamento para o Senado.

Surpreendentemente, o Fortaleza Cidade Sustentável sofreu, neste mês, um revés inusitado: enquanto o tempo normal para liberação desses projetos é de 24 ou 48 horas, o processo de Fortaleza foi devolvido ao Ministério da Fazenda sem nenhuma justificativa técnica e contrariando todos os ritos normais.

Haveria alguma justificativa política, tendo em vista que o Senado Federal é presidido, hoje, por um cearense que já havia se comprometido com a aprovação da matéria? Espera-se que os interesses maiores dos fortalezenses estejam acima de qualquer querela ou interesse menor da política. Ou será que estamos sem prestígio para fazer andar o processo no âmbito federal?

Em nome dos legítimos interesses da Capital, Fortaleza, sua gestão e seus cidadãos, além do Banco Mundial, concluíram o Fortaleza Cidade Sustentável enquanto projeto. Espera-se, portanto, o mesmo empenho no âmbito federal para que tenhamos uma Fortaleza mais Sustentável a partir de 2019.

Águeda Muniz

Secretária de Urbanismo e Meio Ambiente de Fortaleza – Seuma

Taxa de desvalorização da moeda

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Em artigo sobre a relação entre a inflação e o poder de compra da nossa moeda, o consultor financeiro Fabiano Mapurunga, Mestre em Administração com ênfase em Finanças e MBA em Gestão de Negócios, explica como é feito o cálculo da Taxa de Desvalorização da Moeda (TDM), utilizando a inflação como basa. Confira:

Vamos tratar hoje de um assunto que tem uma tônica bem especial para todo trabalhador brasileiro, pois interfere diretamente no poder de compra que o seu salário possui, e como a inflação interfere nesta questão.

A inflação, em sua significação mais objetiva, representa uma elevação nos níveis gerais de preço. Já a desvalorização da moeda representa uma queda no poder de compra (poder aquisitivo). Vamos dar uma ilustração simples:

– Se, em um determinado período do ano, os preços dos alimentos dobrassem (inflação de 100%) a capacidade de consumo de gêneros alimentícios, das pessoas, reduziria pela metade, ou seja, com o mesmo dinheiro de antes, só conseguiriam comprar 50% dos itens que consumiam. Isso indicaria uma taxa de desvalorização da moeda, na ordem de 50%.

Agora vamos entender como é feito o cálculo da Taxa de Desvalorização da Moeda (TDM), utilizando a inflação como base:

Importante notar que, quanto maior for a taxa de inflação (INF), maior será a taxa de desvalorização da moeda (TDM). Ou seja, quanto maior for a taxa de desvalorização da moeda, menor será o poder de compra. Daí se verifica que ao se ter um aumento geral nos preços de bens e serviços, o nosso dinheiro consegue comprar uma quantidade cada vez menor, o que ocasiona a redução do poder aquisitivo na economia.

Demonstro abaixo, uma tabela ilustrativa de um período bem complicado em nossa inflação, para entendermos a relação entre esta e a desvalorização da nossa moeda:

Observando a tabela acima, vamos pegar o ano 2013, onde a taxa de inflação apurada pelo INPC foi de 10,39%. Verificamos que houve uma queda no poder de compra da população de 9,41%.

Vamos utilizar agora a fórmula que aprendemos acima:

Acredito que tenha ficado bem clara a relação entre a inflação e o poder de compra da nossa moeda. A meta de inflação que o Governo Federal tem para cumprir este ano, está em 4,5% a.a., e por enquanto estamos no acumulado do período com 4,53% a.a., segundo informes do Banco Central.

Fabiano Mapurunga

Consultor em Finanças e Negócios. Mestre em Administração com ênfase em Finanças. MBA em Gestão de Negócios. MBA em Gestão Financeira e Controladoria. Professor Universitário.

De onde surgiu Bolsonaro?

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Em artigo sobre a eleição de Jair Bolsonato, o professor universitário Gustavo Bertoche, Doutor em Filosofia, aponta que o voto que elegeu o presidente Trump é o mesmo voto que elegeu o novo presidente brasileiro. E não há nada de machismo, homofobia ou fascismo. Confira:

Desculpem os amigos, mas não é de um “machismo”, de uma “homofobia” ou de um “racismo” do brasileiro. Os eleitores do Bolsonaro não são fascistas, machistas, racistas, homofóbicos nem defendem a tortura. Aliás, o próprio Bolsonaro não é nada disso, e nós sabemos disso. A maioria dos seus eleitores nem mesmo é bolsonarista.

Bolsonaro surgiu daqui mesmo, do campo das esquerdas. Surgiu da nossa incapacidade de fazer a necessária autocrítica. Surgiu da recusa em conversar com o outro lado. Surgiu da insistência na ação estratégica em detrimento da ação comunicativa, o que nos levou a demonizar, sem tentar compreender, os que pensam e sentem de modo diferente.

É, inclusive, o que estamos fazendo agora. O meu Facebook e o meu WhatsApp estão cheios de ataques aos “fascistas”, àqueles que têm “mãos cheias de sangue”, que são “machistas”, “homofóbicos”, “racistas”. Só que o eleitor do Bolsonaro não é nada disso nem se identifica com essas pechas. As mulheres votaram mais no Bolsonaro do que no Haddad. Os negros votaram mais no Bolsonaro do que no Haddad. Uma quantidade enorme de gays votou no Bolsonaro.

Amigos, estamos errando o alvo. O problema não é o eleitor do Bolsonaro. Somos nós, do grande campo das esquerdas.

O eleitor não votou no Bolsonaro PORQUE ele disse coisas detestáveis. Ele votou no Bolsonaro APESAR disso.

O voto no Bolsonaro, não nos iludamos, não foi o voto na direita: foi o voto anti-esquerda, foi o voto anti-sistema, foi o voto anti-corrupção. Na cabeça de muita gente (aqui e nos EUA, nas últimas eleições), o sistema, a corrupção e a esquerda estão ligados. O voto deles aqui foi o mesmo voto que elegeu o Trump lá. E os pecados da esquerda de lá são os pecados da esquerda daqui.

O Bolsonaro teve os votos que teve porque nós evitamos, a todo custo, olhar para os nossos erros e mudar a forma de fazer política. Ficamos presos a nomes intocáveis, mesmo quando demonstraram sua falibilidade. Adotamos o método mais podre de conquistar maioria no congresso e nas assembleias legislativas, por termos preferido o poder à virtude. Corrompemos a mídia com anúncios de empresas estatais até o ponto em que elas passaram a depender do Estado. E expulsamos, ou levamos ao ostracismo, todas as vozes críticas dentro da esquerda.

O que fizemos com o Cristóvão Buarque?

O que fizemos com o Gabeira?

O que fizemos com a Marina?

O que fizemos com o Hélio Bicudo?

O que fizemos com tantos outros maiores ou menores do que eles?

Os que não concordavam com a nossa vaca sagrada, os que criticavam os métodos das cúpulas partidárias, foram calados ou tiveram que abandonar a esquerda para continuar tendo voz.

Enquanto isso, enganávamo-nos com os sucessos eleitorais, e nos tornamos um movimento da elite política. Perdemos a capacidade de nos comunicar com o povo, com as classes médias, com o cidadão que trabalha 10h por dia, e passamos a nos iludir com a crença na ideia de que toda mobilização popular deve ser estruturada de cima para baixo.

A própria decisão de lançar o Lula e o Haddad como candidatos mostra que não aprendemos nada com nossos erros – ou, o que é pior, que nem percebemos que estamos errando, e colocamos a culpa nos outros. Onde estão as convenções partidárias dos anos 80? Onde estão as correntes e tendências lançando contra-pré-candidatos? Onde estão os debates internos? Quando foi que o partido passou a ter um dono?

Em suma: as esquerdas envelheceram, enriqueceram e se esqueceram de suas origens.

O que nos restou foi a criação de slogans que repetimos e repetimos até que passamos a acreditar neles. Só que esses slogans não pegam no povo, porque não correspondem ao que o povo vivencia. Não adianta chamar o eleitor do Bolsonaro de racista, quando esse eleitor é negro e decidiu que não vota nunca mais no PT. Não adianta falar que mulher não vota no Bolsonaro para a mulher que decidiu não votar no PT de jeito nenhum.

Não, amigos, o Brasil não tem 55% de machistas, homofóbicos e racistas. Nós chamarmos os eleitores do Bolsonaro disso tudo não vai resolver nada, porque o xingamento não vai pegar. O eleitor do cara não é nada disso. Ele só não quer mais que o país seja governado por um partido que tem um dono.

E não, não está havendo uma disputa entre barbárie e civilização. O bárbaro não disputa eleições. (Ah, o Hitler disputou etc. Você já leu o Mein Kampf? Eu já. Está tudo lá, já em 1925. Desculpe, amigo, mas piadas e frases imbecis NÃO SÃO o Mein Kampf. Onde está a sua capacidade hermenêutica?).

Está havendo uma onda Bolsonaro, mas poderia ser uma onda de qualquer outro candidato anti-PT. Eu suspeito que o Bolsonaro só surfa nessa onda sozinho porque é o mais antipetista de todos.

E a culpa dessa onda ter surgido é nossa, exclusivamente nossa. Não somente é nossa, como continuará sendo até que consigamos fazer uma verdadeira autocrítica e trazer de volta para nosso campo (e para os nossos partidos) uma prática verdadeiramente democrática, que é algo que perdemos há mais de vinte anos. Falamos tanto na defesa da democracia, mas não praticamos a democracia em nossa própria casa. Será que nós esquecemos o seu significado e transformamos também a democracia em um mero slogan político, em que o que é nosso é automaticamente democrático e o que é do outro é automaticamente fascista?

É hora de utilizar menos as vísceras e mais o cérebro, amigos. E slogans falam à bile, não à razão.

Gustavo Bertoche

Doutor em Filosofia

A estratégia de Bolsonaro

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Em artigo no O POVO deste sábado (10), a jornalista Lucinthya Gomes avalia a estratégia de campanha do presidente eleito Jair Bolsonaro. Confira:

Com apenas oito segundos de propaganda eleitoral gratuita no 1º turno, numa coligação que agrupa apenas duas siglas, vítima de atentado que o impediu de fazer atos públicos durante quase toda a disputa, ausente da maioria dos debates, o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) derrubou muitas certezas sobre métodos tradicionais de fazer campanha. Por outro lado, confirmou as apostas na força que a internet teria para impulsionar um candidato ao maior cargo eletivo do País.

Há outros fatores, claro, mas uma forte explicação para o surpreendente desempenho nas urnas encontra abrigo na estratégia que o militar reformado adotou para conversar com o seu eleitorado. Mesmo antes do início da campanha, Bolsonaro já havia percebido o potencial das redes sociais.

Postagens no Twitter, transmissões ao vivo pelo Facebook, mensagens por Whatsapp o ajudaram a levar sua mensagem. Uma fórmula que já se sabia promissora a exemplo da campanha presidencial norte-americana que resultou na eleição de Donald Trump.

Além de ajudar a estreitar o relacionamento com seus seguidores, a estratégia de Bolsonaro garantia ainda o trunfo de que a mensagem chegaria sem a mediação jornalística. Pelas lives, ele não era confrontado em tempo real, não tinha eventuais contradições expostas. Das vezes em que participou de debates e sabatinas, teve que lidar com repercussão negativa de suas falas. O mesmo ocorreu quando seu vice, o general Hamilton Mourão esteve cercado por jornalistas. Assim como Mourão chegou a ser orientado a não falar com a imprensa em alguns momentos, de certo modo, pode-se dizer que a recomendação médica para não ir a debates até poupou Bolsonaro de maior exposição.

Também foi parte da estratégia culpabilizar a imprensa pela repercussão negativa. De repente, o que era veiculado pela mídia tradicional passou a ser chamado de fake news. A exemplo do que temos visto após o resultado das urnas, o método de Bolsonaro será preservado. Jornalistas já têm sido barrados em eventos com a presença do presidente eleito. Ele vem concedendo entrevistas apenas a meios de comunicação escolhidos. Abandona entrevistas ao ser confrontado. O cenário é um alerta, já que a transparência e o contraponto são intrínsecos ao exercício democrático.

Lucinthya Gomes

Jornalista do O POVO

Quando empréstimo com terceiros pode ser melhor que investir a renda no próprio negócio

Em artigo sobre empréstimos, o consultor financeiro Fabiano Mapurunga, Mestre em Administração com ênfase em Finanças e MBA em Gestão de Negócios, aponta vantagens de empréstimo com terceiros. Confira:

É quase uma unanimidade entre os empresários, achar que tomar dinheiro emprestado é muito mais caro do que colocar do seu próprio dinheiro na sua empresa. Alguns até comentam que se estiverem precisando tomar dinheiro emprestado, é porque o negócio já está arruinando. Bem, vamos tentar demonstrar agora que não é bem assim.

Vamos começar entendendo o que significa o termo “Capital de Terceiros”. Este se refere a todo e qualquer capital que se toma emprestado de alguém, ou de alguma instituição, os quais não façam parte da composição societária da empresa tomadora dos recursos, e que por este empréstimo, cobrem uma taxa de remuneração (juros). O termo “Capital Próprio”, se refere aos recursos que foram injetados na empresa pelos sócios, ou pelo reinvestimento da própria empresa.

Para termos um pouco mais de robustez em nosso vocabulário financeiro, vamos entender o que vem a ser o “Custo de Capital de Terceiros” e o “Custo de Capital Próprio”:

1 – CUSTO DO CAPITAL DE TERCEIROS

É a remuneração esperada e exigida pelos entes credores de dívidas da empresa. É no momento atual, o custo geralmente líquido de Imposto de Renda, que se tem para se contrair empréstimos e financiamentos no mercado.

2 – CUSTO DE CAPITAL PRÓPRIO

É o menor retorno que os acionistas esperam receber, pelo capital que investiram na empresa. Em outros termos, é o menor rendimento que os acionistas aceitam que a empresa lhes retorne sobre o dinheiro que eles colocaram.

Agora sim, vamos entender porque o custo do capital próprio é maior do que o custo do capital de terceiros. Isso se dá por duas razões específicas:

PRIMEIRA RAZÃO (RISCO CONCENTRADO)

Todo o retorno que os acionistas esperam, está obviamente vinculado ao sucesso do negócio, ou seja, à capacidade que a empresa terá de gerar lucro e remunerar o capital que eles investiram. Se caso a empresa realizar prejuízo, os acionistas não poderão simplesmente retirar o capital que aportaram, eles não poderão reaver seu dinheiro. Eles assumiram integralmente, o risco do negócio. Como o risco é muito alto, eles exigem uma taxa de retorno também mais elevada, para que o risco seja compensado.

Na ótica do credor, o mesmo receberá as garantias efetivas que solicitou para mitigar o risco do seu capital, como aval, imóveis, etc, e possui os pagamentos das dívidas livres, independente do resultado que a empresa venha a dar.

SEGUNDA RAZÃO (BENEFÍCIO FISCAL)

A outras razão que justifica o custo do capital de terceiros ser mais barato do que o custo do capital próprio, é o benefício fiscal. Como formalização padrão, a remuneração devida ao capital próprio é o lucro líquido, o qual se dá após a dedução do imposto de renda. Para o credor a remuneração que é paga sai em forma de juros, os quais são dedutíveis para a apuração do imposto de renda. Logo a empresa devedora usufruirá de um benefício fiscal ao calcular seus encargos financeiros com as dívidas. Ao final das contas, sairá menos dinheiro do seu caixa porque terá crédito do imposto de renda.

Com estas explicações espero ter ajudado a retirar esta dúvida que paira na cabeça de muitos.

Fabiano Mapurunga

Consultor em Finanças e Negócios. Mestre em Administração com ênfase em Finanças.
MBA em Gestão de Negócios. MBA em Gestão Financeira e Controladoria. Professor
Universitário

A comunicação no governo Bolsonaro

Em artigo no O POVO deste sábado (10), a jornalista Letícia Alves avalia a utilização das redes sociais como meio de divulgação de informações oficiais do governo eleito. Confira:

Principal palanque da campanha de Jair Bolsonaro (PSL), as redes sociais vão manter o protagonismo no governo do presidente eleito. Ao menos é o que ele tem sinalizado desde os primeiros minutos após a confirmação da eleição, quando fez seu primeiro pronunciamento via Facebook, numa transmissão ao vivo da sala da sua casa, para só depois falar aos veículos de imprensa. A decisão foi simbólica.

De lá para cá, as redes sociais se tornaram o meio de divulgação de informações oficiais do governo eleito, com o anúncio dos nomes dos futuros ministros, a negação de notícias falsas que circulam na internet e mesmo a comunicação direta com a população.

Os jornalistas tradicionais, acostumados a solicitar informações a assessores de imprensa ou a um porta-voz para publicar as notícias em primeira mão, têm agora de acompanhar as publicações no Facebook do presidente ao mesmo tempo de milhões de seguidores, perdendo a prioridade e, inclusive, a audiência.

A postura de Bolsonaro revela não somente a relação pouco amigável que ele estabeleceu com a maior parte dos veículos de mídia, mas uma escolha que é sinal desse tempo de mudança pelo qual o País está passando. Em um cenário de descrença acentuada, não sem motivo, do povo contra a imprensa, por que não optar por se comunicar de forma direta, em uma linguagem que dá pouco espaço à distorção e em um meio que pode ser consultado por qualquer um com acesso à internet?

A ampla comunicação via redes sociais também foi adotada pelo presidente dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump, que já usou o Twitter até mesmo para tratar de assuntos diplomáticos. Para os especialistas que ainda estão tentando encontrar explicações para a eleição de Bolsonaro ? resposta esta que o povo já tem ?, a decisão de Bolsonaro é irresponsável e significa uma retaliação “antidemocrática” à imprensa. Na minha percepção, porém, essa postura permite uma transparência jamais concedida pelas estruturas de poder brasileiras, além de não prejudicar o trabalho da mídia, da qual eu faço parte.

As publicações de Bolsonaro são versões dele acerca do governo, que devem ser esmiuçadas, questionadas e desmentidas, se preciso, pelos jornais. Os meios alternativos de comunicação vieram para ficar, Bolsonaro mostrou que sabe usá-los, e a imprensa terá de se reestruturar para manter seu protagonismo e a confiabilidade na divulgação de informação.

Letícia Alves

Jornalista do O POVO