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Inútil poesia

Em artigo no O POVO desta quinta-feira (26), a jornalista Letícia Alves aponta que a poesia “eleva o espírito, instrui o coração, alimenta os valores fundamentais, semeia a beleza”. Confira:

Onde o vento faz a curva e duas casas adiante, foi lá onde cresci. Não havia eloquência, agitação, asfalto: era o sertão cearense e ele só, com sua secura e beleza. Os dias eram os mesmos, e que dias. O leite tirado da vaca do quintal, a nata ainda quente no pão trazido de bicicleta sei lá de onde, o cheiro de café que acordava a casa inteira tão logo o sol clareava as brechas da janela.

Não me recordo de quando passei a me interessar por poesia. Meu pé de cajarana, que era meu mesmo e ninguém contestava, era onde eu passava as tardes a devanear, costurar versos e chorar minhas birras. De cima do galho mais alto que alcançava, eu escalei a pequena vida que se dispunha a mim: as plantas, os bichos, as gentes, eu mesma e meus medos, traumas e tantas opções de coisas a sonhar.

Guardei tudo em um diário que não sei mais cadê, perdido entre as mudanças para Fortaleza. Hoje, sinto que perdi um pouco de mim também, esquecido no velho quintal que me parecia uma floresta de poesia não-explorada. Mesmo naqueles tempos de poucos livros, a literatura já era para mim a única realidade fundamental, o mundo capaz de explicar meu mundo. Eu não sabia, mas sabia.

A bibliografia de hoje não é tão vasta como eu gostaria, houve um tempo em que demorei demais a me encontrar numa vida sem aquela liberdade que já tive. Comecei por Drummond, fui a Bandeira, Prado, Cecília, arranhei no Camões e no Pessoa e sigo no Tolentino e em um ou outro do Eliot. Com eles aprendi tudo e aprendi nada, cresci e cresci mais e continuo aqui tão pequena.

Afinal, o que a poesia ensina? Serventia nenhuma tem, inútil a si e a tudo mais; porém, quanta beleza e sonhos, quantos versos e mundos não me deram os poemas lidos ou nascidos no alto do meu pé de planta de estimação!

Inútil que seja, e quanto mais for, mais essencial será. Pois que eleva o espírito, instrui o coração, alimenta os valores fundamentais, semeia a beleza. Sem ela “a vida humana é muito miserável”. Poesia é a linguagem que nos faz gente.